Tom Brenner/NYT
Tom Brenner/NYT
Tim Wu, The New York Times

15 de dezembro de 2018 | 06h00

Ao longo do último ano, Mark Zuckerberg, do Facebook, e outros líderes tecnológicos americanos lançaram um alerta ríspido àqueles que querem ver mais concorrência no setor. É mais ou menos assim: “Nós sabemos que cometemos erros. Mas será que vocês não percebem que, se nos prejudicarem, estarão entregando o futuro para a China? Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, o governo chinês dá apoio a suas empresas de tecnologia, porque sabe que a competição é global e quer vencer”.

O apelo nacionalista dessa versão Big Tech para o argumento do “too big to fail” [grande demais para quebrar] é meramente superficial. É verdade que o setor de tecnologia chinês está crescendo e se tornando agressivamente competitivo - e que muitas de suas empresas são apoiadas e promovidas pelo Estado chinês. Um levantamento apontou que 8 das 20 maiores empresas de tecnologia do mundo são chinesas. Isso parece sugerir uma disputa pelo domínio global, na qual os Estados Unidos, ao invés de ficarem pensando em cisões e regulamentações, deveriam fazer o possível para proteger e subsidiar o time da casa.

Mas aceitar esse argumento seria um erro, pois ele contraria e ignora as lições, aprendidas a duras penas, sobre as loucuras de uma política industrial centrada nos “campeões nacionais”, especialmente no setor de tecnologia. O que o Facebook realmente quer é ser abraçado e protegido como o grande monopolista da mídia social nos Estados Unidos, enquanto luta bravamente no exterior. Mas tanto a história quanto a economia básica sugerem que o melhor é confiar que a concorrência acirrada em casa produza setores mais fortes no geral.

Esta é a lição da história da concorrência tecnológica nipo-americana. Durante os anos 1970 e 80, muitos acreditavam que o Japão estava ameaçando a supremacia dos Estados nos mercados de tecnologia. A gigante japonesa NEC foi uma séria concorrente da IBM no mercado de mainframe; a Sony estava atropelando nos produtos eletrônicos, junto com empresas poderosas como a Panasonic e a Toshiba. Essas empresas contavam com o apoio do Estado japonês, por meio do Ministério da Indústria e Comércio Internacional, que adotava uma política industrial nacionalista considerada infalível.

Se os Estados Unidos tivessem seguido a lógica de Zuckerberg, teríamos protegido e promovido a IBM, a AT&T e outros gigantes de tecnologia americanos - os campeões nacionais dos anos 70. Em vez disso, o governo acusou as principais empresas de tecnologia americanas de limitarem a concorrência. A IBM foi objeto de um devastador processo de investigação e julgamento antitruste que se estendeu por treze anos, e o Departamento de Justiça desmembrou a AT&T em oito partes em 1984. O efeito foi o enfraquecimento de algumas das mais poderosas empresas de tecnologia dos Estados Unidos em um momento crucial de competição com forças estrangeiras.

Mas também aconteceu uma outra coisa. Com a IBM e a AT&T sob constante escrutínio, toda uma série de indústrias e empresas nasceram sem medo de serem esmagadas por monopólios. Livre da IBM, a indústria americana de software ganhou vida e produziu companhias como Microsoft, Sun e Lotus. Os computadores pessoais da Apple e de outras empresas se tornaram populares e, depois do colapso da AT&T, empresas como a CompuServe e a America Online correram para as redes on-line, gerando o que hoje chamamos de “economia da internet”. Lá no Japão, o governo ainda estava apaixonado por seus campeões, promovendo os mainframes da NEC enquanto a empresa investia em supercomputadores, vistos à época como o futuro mais óbvio da computação. 

O governo nunca desmembrou a NTT, monopolista da telefonia no país. Ao longo da década de 1990, o Japão, atrasado tanto em software quanto em computadores pessoais, começou a ficar para trás na corrida contra os Estados Unidos. Sua breve liderança em tecnologia de telefonia móvel foi limitada pela NTT, que deixou pouco espaço para as start-ups. Em consequência, o setor de tecnologia japonês perdeu nos softwares, nos computadores pessoais e nas revoluções da internet. E nunca mais se recuperou de verdade.

Este é o risco de o governo amparar empresas como Facebook, Apple e Google. Embora elas possam parecer tão extraordinárias quanto a IBM na década de 1970, talvez não venham a parecer tudo isso daqui a uma década. E se hoje ninguém consegue imaginar rede social melhor que o Facebook, lembre-se de que ninguém sonhava que o computador pessoal, à época pouco mais do que um brinquedo para amadores, iria substituir o poderoso mainframe.

Se dermos a essas empresas um passe-livre em questões de fiscalização antitruste, permitindo que dominem seus mercados e comprem seus concorrentes, os Estados Unidos poderão perder aquela vantagem que é sua marca registrada: sua disposição em deixar que o novo substitua o antigo, em aceitar a rebelião e a mudança - a versão industrial do ciclo de rebelião e do “sangue dos patriotas” de que falava Thomas Jefferson. E, então, como Zuckerberg profetizou, o futuro da tecnologia poderá muito bem pertencer à China.

Tim Wu é professor de Direito na Universidade de Columbia, em Nova York, e autor de The Curse of Bigness: Antitrust in the New Gilded Age [A Maldição da Grandeza: Antitruste na Nova Era Dourada].

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