Elizabeth Frantz para The New York Times
Elizabeth Frantz para The New York Times

Não há cura para adolescentes viciados em vaporizadores

Especialistas em saúde pública lutam para descobrir soluções efetivas

Jan Hoffman, The New York Times

20 de janeiro de 2019 | 06h00

Um especialista em comportamentos compulsivos da faculdade de medicina de Harvard está recebendo chamadas de pais nervosos. Um psicólogo da Universidade Stanford, na Califórnia, recebe telefonemas de preocupados diretores escolares do mundo inteiro. Alarmados com a natureza viciante da nicotina nos cigarros eletrônicos e seu impacto no desenvolvimento do cérebro, especialistas em saúde pública enfrentam dificuldades para ajudar os adolescentes a largarem os vaporizadores.

Em dezembro, um levantamento anual dos hábitos dos adolescentes americanos em relação às drogas patrocinado pelo governo dos Estados Unidos informou que o uso de cigarros eletrônicos por parte dos adolescentes aumentou vertiginosamente em 2018. A alta na vaporização de nicotina foi o aumento mais acentuado no consumo de uma substância já registrado nos 44 anos mais recentes. Cerca de 21% dos alunos do último ano do ensino médio tinham usado vaporizadores nos 30 dias que antecederam o estudo: um ano atrás, essa proporção era de aproximadamente 11%.

A necessidade de tratamentos voltados para os adolescentes é urgente, disse Marina Picciotto, da Sociedade de Pesquisa em Nicotina e Tabaco, de Wisconsin. Os adolescentes são particularmente vulneráveis ao vício. O córtex pré-frontal do cérebro, que controla a capacidade de julgamento e os impulsos, ainda está amadurecendo. “Quando inundamos essa região com nicotina, interrompemos seu desenvolvimento”, disse Picciotto. Os psiquiatras dizem que a nicotina pode exacerbar problemas de saúde mental já existentes; pode também levar à hiperatividade, depressão e ansiedade.

Pam Debono, de Michigan, está ajudando os três filhos, com idades entre 17 e 20 anos, a abandonar o vaporizador. Ela e o marido começaram a impor sanções como manter os filhos em casa e reduzir sua mesada. “É claro que o tratamento seria diferente se o problema envolvesse álcool ou remédios de distribuição controlada", disse ela.

Os filhos tentaram adesivos de nicotina e chicletes, sem sucesso. Suportaram sintomas de abstinência: dificuldades para dormir, ansiedade e mau humor. Mesmo quando conseguiram parar com o vaporizador, logo retomaram o hábito em situações de estresse. Agora, Pam recorre a kits caseiros para realizar testes-surpresa para a presença de nicotina. Os métodos usados para largar o cigarro não funcionam com o vaporizador. A quantidade de nicotina nos cigarros eletrônicos é difícil de medir. Uma fórmula para reduzir o consumo de cigarros não pode ser facilmente convertida em cartuchos ou refil.

A criação de protocolos de redução do consumo e medicamentos para a interrupção destinados aos adolescentes viciados em vaporizadores vão exigir estudos de longo prazo, dizem os pesquisadores. Jonathan Hirsch, que supervisiona a conscientização para o tabaco e os vaporizadores no colégio Redwood High, em Larkspur, Califórnia, onde 36% dos alunos do terceiro ano dizem usar vaporizadores, disse que até os estudantes determinados a largar o hábito têm dificuldade em fazê-lo. 

Hirsch disse que assustá-los com o medo de doenças não funciona. Aqueles que têm o hábito de usar vaporizadores não deixam de fazê-lo por medo das consequências. “Outro dia, quando perguntei aos estudantes se eles conheciam alguém que sempre sai das aulas para usar o vaporizador por ‘necessidade’, ao menos dois terços levantaram a mão", disse. A percepção segundo a qual todo mundo usa os vaporizadores indica o maior obstáculo na tentativa de convencer os adolescentes a abandonar esses aparelhos: a pressão dos semelhantes que é tão típica dessa fase da vida. Além de estilosos, os vaporizadores são proibidos.

Além disso, ainda que dar o primeiro passo para a recuperação (admitir o vício) seja difícil para qualquer um, para os adolescentes o desafio é ainda maior, pois relutam em se reconhecerem dependentes de qualquer pessoa ou coisa. Com um pouco de orientação, os médicos estão formulando abordagens individuais. A professora de pediatria Susanne E. Tanski, da Universidade Dartmouth, em Nova Hampshire, começa sua avaliação indiretamente. Ela pergunta: “Seus amigos usam vaporizador?”

Quando os pacientes perguntam se ela prefere que fumem cigarros, Tanski comenta os males potenciais provocados pelas partículas e substâncias químicas no aerosol de um vaporizador, que podem prejudicar as vias aéreas. “Eu respondo que ‘atualmente conhecemos muitos dos problemas causados pelo tabaco, mas demorou até que essas doenças se desenvolvessem, e demorou até que aprendêssemos a respeito delas. Não tenho a intenção de realizar esse experimento em você’.”

Sharon Levy, especialista em comportamento compulsivo entre adolescentes do Hospital Pediátrico de Boston, educa os adolescentes de modo a convencê-los a abandonar o vaporizador. Estratégias cognitivas para o comportamento ajudam a desviar os pensamentos durante os momentos de desejo profundo, disse ela. Ocasionalmente, Levy combina a terapia oral com adesivos de nicotina. 

Alguns médicos prescrevem antidepressivos para minimizar os sintomas da abstinência. Levy também recomenda respirar fundo, praticar ioga e outros exercícios. Ela avaliou o caso de um aluno do ensino fundamental que estava faltando aulas para usar o vaporizador no banheiro. “Ele teme não ser capaz de resistir ao desejo de usar o vaporizador", disse Levy. “Só pensa nisso. É como tratar um paciente que largou a heroína, mas mesmo assim deseja se picar com uma seringa vazia.”

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