(Joshua Bright/The New York Times)
(Joshua Bright/The New York Times)

Não tenho certeza de que o mundo tenha mudado para melhor graças ao iPhone

A tecnologia revolucionou a maneira de fazermos as coisas no século 21, assim como a imprensa fez há muitos séculos

Timothy Egan, The New York Times

21 Julho 2018 | 10h00

Usei o GPS de um smartphone para me orientar no labirinto de ruelas de paralelepípedos da Cidade Velha de Genebra, à procura de uma máquina fabricada à mão que mudou o mundo mais do que qualquer outra invenção. Nas proximidades de uma catedral do século 13, nesta cidade suíça à beira de um lago maravilhoso, encontrei o que procurava: a máquina impressora de Gutemberg.

“Era a internet da época - pelo menos  tão fundamental quanto o iPhone”, disse Gabriel de Montmollin, o diretor do Museu da Reforma, referindo-se à réplica da grande invenção de Johann Gutemberg. Eram necessários quatro monges, trabalhando em um ‘scriptorium’ com penas de ganso sobre folhas de pele de bezerro, e um ano, para produzir um único livro.

Com o avanço representado pelos tipos móveis na Europa do século 15, uma única prensa podia produzir 3 mil páginas por dia. Logo, uma pessoa comum poderia viajar para lugares a ela desconhecidos - com mapas. As informações médicas transmitidas de maneira mais ampla e rápida diminuíram a quantidade de charlatães. E as pessoas podiam encontrar seu próprio caminho até Deus, ou uma maneira de acreditar em Deus, graças ao acesso a conceitos antes proibidos.

A imprensa trouxe a perspectiva de que os tiranos  jamais poderiam matar um livro ou suprimir uma ideia. O invento de Gutemberg quebrou o monopólio dos religiosos sobre as Escrituras. E mais tarde, instigadas por panfletos impressos por uma versão daquela mesma prensa, as colônias americanas se levantaram contra um rei e deram origem a uma nação.

Então, uma pergunta se impõe no verão do décimo aniversário do iPhone: este aparelho, talvez o mais revolucionário de todos os tempos acaso nos deu uma única magnífica ideia? Praticamente cada avanço da palavra escrita graças a uma nova tecnologia também contribuiu para o avanço da humanidade.

Certamente, podemos dizer que o iPhone mudou tudo. Colocando todo o conhecimento registrado do mundo na palma da nossa mão, ele revolucionou o trabalho, a nossa comida, as viagens e a maneira de o homem se socializar. 

Ele nos tornou mais narcisistas - olha eu aqui, fazendo coisas bacanas! - e desencadeou uma quantidade de terríveis trolls. Não temos mais paciência para ficar sentados olhando um jogo de beisebol sem enfiar a mão no bolso. E, mais uma vítima da Apple que vendeu mais de um bilhão de telefones em dez anos: o devaneio tornou-se uma arte perdida.

Por tudo isto, ainda tenho esperanças de ver se o iPhone poderá fazer o que a imprensa fez para a religião e a democracia. Este ano, é também o 500º aniversário da apresentação das 95 teses de Martinho Lutero contra a corrupção à Igreja católica romana; o museu de Genebra reafirma que a imprensa abriu mais mentes do que qualquer outro invento.

A exposição do museu - “A imprensa! As primeiras páginas de uma Revolução” - cita as palavras de Lutero, segundo o qual a imprensa foi “o maior e mais extraordinário ato da Divina Graça”. Sendo um monge católico rebelde, Lutero nunca poderia ter visto os seus escritos saírem do mosteiro. Mas graças à máquina democratizadora de Gutemberg, entre 1517 e 1520 circularam cerca de 300 mil cópias das provocações de Lutero. Daí em diante, o cristianismo jamais seria o mesmo.

Do mesmo modo, é difícil imaginar a revolução francesa e a americana sem estas vozes esclarecidas falando através da palavra impressa.

No início da palavra escrita, há cerca de 5 mil anos, as pessoas rabiscavam as informações na argila. As suas mensagens às vezes eram obscenas, mais frequentemente banais. Os gregos nos deram o humor, a tragédia e a poesia. Os rolos de papiros eram portáteis; os comandantes romanos os usavam como o equivalente de brochuras, enfiados nos bolsos.

“Da natureza das coisas”, um poema do filósofo romano Lucrécio do primeiro século A.C., foi uma das coisas mais “perigosamente radicais” jamais escritas, afirmou Stephen Greenblatt em seu livro “A grande mudança”. Redescoberta e em seguida impressa nas primeiras fases da Renascença na prensa de Gutemberg, a celebração poética da boa vida revolucionou em grande parte a sisuda mentalidade da Idade Média europeia.

A Magna Carta, um dos documentos fundamentais das sociedades livres, e os “Os Contos de Cantuária” de Geoffrey Chaucer, que difundiram o vernáculo inglês, são os destaques dos milhares de anos durante os quais os livros eram redigidos à mão por escribas, ou impressos por meio de blocos de madeira.

Não muito tempo depois de lançar o seu iPhone, Steve Jobs afirmou que o livro encadernado caminharia para o sótão da história. Nem tão depressa assim. Depois de um período de rápida difusão dos livros eletrônicos, algo mais próximo do veículo para as obras de Chaucer voltou com um extraordinário sucesso.

A esperança do iPhone, e da internet em geral, era que ele libertaria as pessoas que viviam em sociedades fechadas. Mas o fracasso da Primavera Árabe, e a constante supressão de ideias na Coreia do Norte, na China e no Irã, não permitiu isto. E mais do que patético é o líder do mundo livre usar o seu celular para insultar as mulheres, ou enviar vídeos bizarros dele mesmo batendo em repórteres imaginárias.

O iPhone é ainda jovem. Com certeza foi “um dos mais bem-sucedidos e importantes produtos da história, capaz de mudar o mundo”, como disse o diretor executivo da Apple, Tim Cook. Entretanto, não tenho certeza de que o mundo tenha mudado para melhor graças ao iPhone - como fez a imprensa - ou apenas mudado.

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