O Pomar
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Narcodrama 'Pájaros de Verano' rompe paradigmas do cinema tradicional

Narrado por um cantor cego, o filme de Cristina Gallego e Ciro Guerra é ambientando em tribo indígena do norte da Colômbia

A.O. Scott, The New York Times

14 de março de 2019 | 06h00

Na moderna terminologia cinematográfica, “épico” em geral significa longo, congestionado, grandioso. Pájaros de Verano, a sequência de Cristina Gallego e Ciro Guerra do seu impressionante filme El Abrazo de La Serpiente, indicado ao Oscar, ganha o rótulo de uma maneira mais honesta e rigorosa.

Partes da história são narradas por um cantor cego - literalmente uma figura homérica - e a história em si confirma a definição de épico de Ezra Pound como “um poema que contém a história”. Ela fala de como o mundo muda, de como ações dos indivíduos e as forças do destino atuam para a glória e a ruína de um herói e a sua família.

A história em questão envolve o narcotráfico colombiano do final dos anos 1960 ao início dos 1980, mas o filme desafia os clichês do narcodrama e a atmosfera superficial do período. O filme é ambientado entre os indígenas Wayuu do norte da Colômbia (uma população antiga, cuja língua e costumes sobreviveram à conquista espanhola e à ascensão do moderno Estado-nação).

Na maior parte hoje rancheiros e produtores agrícolas, os wayuu são também comerciantes e travam um conflito em potencial com todo um sistema baseado em trocas e comunicações ritualizadas. A honra de uma família está ligada à sua palavra, e certos membros, designados “mensageiros da palavra” são tratados com especial deferência. “Não atire no mensageiro” é quase um princípio sagrado.

Ao longo dos anos, esta e outras normas igualmente veneradas são quebradas, num lento relaxamento das antigas normas que empreende uma escalada até o assassinato em massa e o caos. Tudo começa de maneira bastante inócua, com o namoro do jovem Raphayet (José Acosta) e Zaida (Natalia Reyes). 

A mãe de Zaida, Úrsula (Carmiña Martínez), a matriarca do clã, considera Raphayet um indivíduo suspeito porque ele viveu algum tempo com os alijuna (como os wayuu denominam os colombianos que falam espanhol), e ela teme que o jovem tenha sido corrompido pelas leis da outra nação.

Na pressa de adquirir gado e joias que Úrsula exige como preço da mão da filha, Raphayet e o seu parceiro alijuna, Moisés (Jhon Narváez), entram no tráfico da maconha. A oportunidade surge por acidente. Moisés e Raphayet, que transportavam sacos de café em um caminhão velho, conhecem alguns voluntários americanos da Peace Corps que procuram a erva.

Eles conhecem outro gringo que pode conseguir aviões, e tem informações de uma pista de pouso. Raphayet convence Aníbal (Juan Martínez), o primo de Úrsula, a permitir a utilização de alguns dos seus campos e de trabalhadores para esta cultura que dá muito lucro.

O que pode dar errado? Tudo, é claro. Nas mãos de Gallego e Guerra, uma sequência de negócios escusos, traições e erros de cálculo torna-se uma tragédia doméstica e um apocalipse cultural. Com o dinheiro que entra, também entram as armas, e os antigos códigos de honra são destruídos pela possibilidade de gastar e pela vaidade. Raphayet, Zaida e seus dois filhos vivem em uma grande “Villa” ornada de estuques que simboliza tanto o seu sucesso mundano quanto o seu absurdo grotesco.

Os ambientes estéreis, opulentos, são visitados por alguns dos pássaros a que alude o título do filme, presságios de mudança e de catástrofe, “pássaros de verão”. Embora o filme seja claramente o resultado de uma longa e cuidadosa pesquisa entre os wayuu, não parece um documento etnográfico.

Esta empatia despretensiosa - a recusa dos realizadores a estampar o diferente em seus temas - torna ainda mais devastadoras as perdas sofridas pelos personagens. O desembaraço e o carisma dos atores aumentam o impacto emocional. Acosta carrega muita tristeza e uma desconfiança que sugere um homem que não está seguro dos seus poderes pessoais.

Zaira e Raphayet não são exatamente os protagonistas de suas próprias vidas. A figura autenticamente trágica aqui, aquela que garante a escala épica do filme e a sua gravidade atemporal, é Úrsula. Uma verdadeira soberana em sua postura e inabalável em seu comprometimento com o comportamento justo, ela parece uma rainha de uma tragédia da Grécia antiga, uma mulher cujos atos estão arraigados em princípios éticos, catastróficos em suas consequências.

Não que Úrsula seja totalmente culpada pela violência que consome praticamente tudo ao seu redor. Inúmeros erros individuais aceleram a destruição. Moisés é impulsivo. Raphayet pode ser passivo; um menino de nome Leônidas (Greider Meza) descamba para a criminalidade gratuita, livre da disciplina das tradições. Por trás destas ações estão as forças semi-invisíveis, letalmente poderosas da conveniência dos alijuna e do apetite ianque. A história contida pelo poema não é apenas a história dos wayuu.

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