Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

'Narcoturismo' preocupa cidadãos da terra de Escobar

A cidade de Medellín, na Colômbia, ainda vive à sombra de seu mais notório narcotraficante

Nicholas Casey, The New York Times

10 Outubro 2018 | 06h00

MEDELLÍN, COLÔMBIA - O prefeito de Medellín apareceu segurando uma marreta, e se postou na frente do prédio onde morou Pablo Escobar, o notório chefão narcotraficante, colocado na lista dos homens mais ricos e mais procurados do mundo por seu império da cocaína.

Escobar viveu durante anos na cobertura do Edifício Monaco. Alvo de atentado com um carro bomba, em 1988, orquestrado  por seus rivais, pouco depois ele o abandonou. Por algum tempo, Medellín não conseguiu ignorar o Monaco, agora vazio.

Recentemente, o edifício voltou a chamar a atenção, por causa da série Narcos, da Netflix, e pelas dezenas de livros, telenovelas e filmes sobre Escobar.

Agora, os turistas param em sua porta para tirar fotos e postá-las no Instagram. Guias de turismo param ali. Um ex-assassino de aluguel do cartel, que se tornou um astro do YouTube, surgiu oferecendo um DVD que conta suas façanhas com Escobar.

Em abril deste ano, o prefeito, cansado, decidiu intervir.

“Este símbolo, que é o símbolo da ilegalidade, do mal, será posto abaixo”, disse Federico Gutiérrez. Ele prometeu derrubar o edifício ate o próximo ano e construir em seu lugar um parque em homenagem às vítimas.

Vinte e cinco anos depois que Escobar foi morto pela polícia, a cidade não consegue esquecer dele, ainda que queira que sua lenda seja enterrada em outro lugar.

Medellín tornou-se uma cidade florescente, onde os arquitetos competem para construir projetos e as start-ups de tecnologia proliferam. Os moradores de Medellín são os primeiros a falar do avanço da cidade.

Mas são os últimos a mencionar de onde ela partiu - das profundezas da era da cocaína que trouxe não só o horror de Escobar, mas também o dinheiro que construiu os arranha-céus, inclusive o Monaco.

“Pablo Escobar tornou-se o ícone popular desta história”, disse Daniel Vásquez, diretor de divulgação do Memory House Museum, uma instituição dedicada às vítimas dos conflitos armados de Medellín. “A cidade não via a urgência de contar esta parte da história. Não era uma prioridade para o governo, até que surgiu um problema, até que de repente começaram os narco-tours com Popeye”.

“Popeye” é o apelido de Jhon Jairo Velásquez, o assassino de aluguel que trabalhava de Escobar, e que, desde que saiu da prisão, em 2016, oferece DVDs e guia excursões pela cidade.

“É como se os membros da Al-Qaeda promovessem tours em Nova York mostrando como planejaram o 11 de Setembro”, disse Luis Fernando Mejia, que representa a associação de bairro, que inclui o Monaco, onde Popeye começava seus tours (Popeye voltou a ser preso em maio por várias acusações, inclusive extorsão).

Gutiérrez disse que decidiu destruir o Monaco para mostrar que a cidade renasceu e que a lei triunfou sobre o caos. Mas acima de tudo, afirmou que queria demolir o Monado, porque Medellín está cansada de contar a mesma história do mesmo vilão, vezes sem conta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.