Daniele Volpe para The New York Times
Daniele Volpe para The New York Times

Nas colinas da Guatemala, um lembrete de Hollywood

Os EUA e as promessas que o país representa ocupam grande espaço no imaginário dos moradores do vilarejo de Chiavarreto

Kirk Semple, The New York Times

13 Setembro 2018 | 15h00

CHIVARRETO, GUATEMALA - Montado no alto do aclive de uma montanha próxima a um vilarejo na Guatemala, é difícil não reparar no letreiro: 10 maiúsculas feitas de metal, cada uma com altura de 10 metros, pintadas de branco, enunciando o nome da cidade: "CHIVARRETO". 

A associação com um letreiro mais famoso, na Califórnia, não é mero acaso. Os moradores se referem ao seu vilarejo como "Pequena Hollywood", e sua associação com a Hollywood americana é sincera.

O letreiro foi ideia de um grupo de imigrantes de Chivarreto que viveu na região de Los Angeles e queria algo que lembrasse o lugar onde nasceram, um gesto que sublinha os elos do vilarejo com o lar adotado pelos imigrantes nos Estados Unidos. Eles se inspiravam no letreiro de Hollywood que viam a caminho do trabalho, em canteiros de obras ou na cozinha de restaurantes.

Dúzias contribuíram como puderam. O pastor e apresentador de rádio Augusto Ramos disse que vivia em Los Angeles na época da construção do letreiro e contribuiu com US$ 100. Assim, o letreiro foi erguido.

Faz gerações que as colinas do oeste de Guatemala - uma região remota, rural e pobre, de população majoritariamente indígena - enviam um fluxo constante de imigrantes rumo ao norte, em busca de trabalho e de uma vida melhor. Como resultado, os EUA e as promessas que o país representa ocupam um grande espaço no imaginário popular daqui, e os símbolos da vida e da cultura americanas são encontrados por toda a parte.

Numa colina próxima à cidade de Santa Catarina Ixtahuacan, uma incompleta mansão de dois andares, com pórtico grandioso e 12 quartos, contrasta com os barracões de zinco e casas de tijolo à vista características da arquitetura local mais convencional. O proprietário é um imigrante ilegal de 25 anos que vive em Nova Jersey e trabalha para uma empresa de faxina. Ele financia a construção da casa desde a sua chegada aos EUA, há mais de uma década, enviando dinheiro a parentes que administram o projeto.

"Vim aqui atrás do meu sonho", disse o proprietário, Pascual, de Nova Jersey. Ele não permitiu a publicação do seu sobrenome.

Quando a construção for concluída, ele deixará a família vivendo na mansão e se juntará aos parentes quando voltar. "Nunca esqueço de onde vim. Nunca esqueço o lugar onde nasci", comentou.

Na cidade montanhesa de San Pedro Soloma há uma pequena barbearia chamada El Norte. O proprietário, Domingo Manuel Juan, de 50 anos, disse que o nome foi inspirado pelos 12 anos que passou vivendo em Riverside, Califórnia. Ele explicou que o escolheu como "lembrete" das dificuldades enfrentadas para construir a vida no exterior, "para que esse período não seja esquecido". 

Em toda a região, a bandeira dos EUA é vista em muitos lugares. Na cidade de Todos Santos Cuchumatán, as paredes externas de alguns lares são decoradas com bandeiras americanas pintadas à mão, indicando a origem do dinheiro usado para construí-las. No cemitério, bandeiras americanas foram pintadas em mais de uma dúzia de túmulos.

Numa manhã recente, Juan Pablo Martín, de 63 anos, e sua mulher, Marcelina Martín Pablo, 60 anos, foram visitar o túmulo do filho, Pedro Pablo Martín, no 12.º aniversários de sua morte. Ele morreu aos 33 anos num acidente de carro em Oakland, Califórnia, onde morou por oito anos.

O caixão estava guardado no compartimento superior de um túmulo de concreto de quatro andares construído pela família, com cada lado do compartimento decorado com uma representação rudimentar da bandeira americana.

Para a família, as bandeiras eram mais do que um símbolo da origem do dinheiro usado na construção do túmulo.

"É porque ele morreu nos EUA", disse Pablo.

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