Jes Aznar para The New York Times
Jes Aznar para The New York Times

Nas Filipinas, bomba d'água vira arma na luta contra o EI

Governo e comunidade internacional se unem para conquistar a confiança de pequenas comunidades e minar a influência do grupo insurgente

Thomas Gibbons-Neff, The New York Times

03 de maio de 2019 | 06h00

PADAS, FILIPINAS - Não é uma arma nem um veículo blindado; a bomba d'água instalada ao longo de uma estrada de terra remota pretende ser um sinal claro dos esforços dos Estados Unidos para deter o alastrar-se do Estado Islâmico. Foram necessários dois meses, uma equipe de assuntos civis das Operações Especiais Americanas, três organizações sem fins lucrativos e todo um pelotão do Exército das Filipinas para levar a bomba a Padas, uma aldeia de cerca de 3 mil habitantes em uma ilha do arquipélago de Mindanao. A água da bomba ajudará os agricultores a estabelecer a confiança no governo e a minar a influência dos militantes.

"Vamos aceitar tudo o que a comunidade internacional der para a gente", disse Macaraya Ampuan, líder da aldeia. "Mas a primeira coisa que é preciso garantir é a segurança. Vamos eliminar o EI para termos uma vida estável".

Alguns anos atrás, o Departamento da Defesa dos Estados Unidos identificou as Filipinas como um lugar onde o Estado Islâmico poderia prosperar. O foco em Padas justificava-se pela preocupação com uma possível reação negativa dos moradores e um eventual reagrupamento de insurgentes depois da batalha pelo controle de uma cidade próxima, Marawi, em 2017. Os que restaram da afiliada do Estado Islâmico fugiram para o sul e para outras ilhas, e começaram a reconstruir e a recrutar combatentes em aldeias como Padas.

O Exército americano enviou cerca de 250 soldados para o sul das Filipinas. Eles integram uma campanha de contraterrorismo que existe desde 2002. O ponto alto da iniciativa é a bomba de água de Padas, que custou US$ 58 mil.

O projeto de levá-la até a aldeia foi implementado pela capitã Angela Smith, chefe da equipe de assuntos civis, depois que os moradores contaram que tinham de caminhar três quilômetros para pegar água. A máquina e os painéis solares que a movimentam foram doados por duas ONGs.

"Uma bomba d'água e uma sala de aula que ajudamos a construir, são essas as coisas que fazem diferença", disse o diplomata americano Sung Yong Kim, enviado às Filipinas.

A equipe da capitã Smith, cujos soldados usam trajes civis, foi a mais recente a adotar a estratégia de contrainsurgência e conquistar a confiança das populações locais. Na região do lago entre Marawi e Padas, "as pessoas que perderam suas casas e as suas comunidades são vulneráveis ao violento recrutamento e à influência extremistas", disse a capitã. "Nosso objetivo é trabalhar com nossos parceiros filipinos para facilitar a assistência em áreas mais necessitadas".

Os oficiais disseram que a estratégia permitirá garantir que o grupo extremista não recupere a força de que dispunha antes do cerco de Marawi. Mas em Padas, os Estados Unidos estão lutando tanto contra a situação econômica quanto contra uma ideologia que se espalha sorrateiramente.

Nesta região, um salário de US$ 6 por dia é a remuneração do mercado para trabalhadores da construção civil sem especialização, explicou Alikman Niaga, que tem uma empreiteira. Os moradores podem ganhar o triplo integrando-se a grupos que prometeram lealdade ao Estado Islâmico. Em 2017, a liderança do EI no Oriente Médio destinou dezenas de milhares de dólares aos seus colegas filipinos para que recrutem combatentes e tomem o território.

Ampuan teme que haja combatentes recrutados pelo EI que ainda não se renderam ou que possam ser eliminados. "Eles conhecem pessoas na comunidade. O EI oferece dinheiro e armas aos jovens. Os jovens não têm consciência da realidade quando se integram ao grupo", contou.

Embora nas Filipinas do sul os muçulmanos tenham conquistado uma maior autonomia, Ampuan disse que a população de Padas ainda não obteve a necessária autoridade para impedir que o EI se infiltre na aldeia. No meio disso, estão os soldados americanos e os funcionários do Impl Project, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para estabilizar zonas de conflito. 

Eles estão instalando a bomba d'água de 15 litros por minuto e formando um conselho de moradores para administrá-la. Agora, os militares filipinos precisam garantir a segurança dos que precisam aprender fazê-la funcionar.

"A bomba d'água se tornou o instrumento para eles aprenderem a se administrar de novo", disse Justin Richmond, fundador do Impl e ex-soldado do exército. / Hannah Beech contribuiu para a reportagem.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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