Hannah Reyes Morales para The New York Times
Hannah Reyes Morales para The New York Times

Nas Filipinas, fé católica se mostra tolerante aos gays

Anualmente, é organizado um concurso de beleza transgênero na cidade de Maria Respondo

Aurora Almendral, The New York Times

04 Maio 2018 | 10h00

MARIA RESPONDO, FILIPINAS — Angel Cabaluna passou maquiagem nas coxas, ajeitou os cachos soltos e aplicou um delineador que fez as pálpebras reluzirem.

Enquanto este vilarejo em meio aos milharais e casas de concreto se preparava para as festividades em homenagem ao seu santo padroeiro, e enquanto algumas pessoas se reuniam para rezar, Angel, 20 anos, se preparava para participar de um concurso anual de beleza transgênero. “É a nossa paixão", disse Angel.

Dominadas pela moral conservadora ensinada pela Igreja Católica Romana, as Filipinas são também um dos países do Sudeste Asiático mais tolerantes em relação aos gays, lésbicas, bissexuais e pessoas transgênero. E os legisladores estão adotando medidas para garantir uma proteção jurídica nacional para penalizar a discriminação contra elas.

No concurso de beleza, as crianças se sentavam na terra, amontoadas perto do palco onde os participantes rodopiavam e dançavam usando penachos vermelhos na cabeça, vestidos com brocados dourados e saias rodadas. A multidão ria e torcia conforme eles faziam seus discursos, misturando piadas com versos bem-humorados, obviedades dignas de miss universo e defesas da igualdade de gênero.

Cerca de 80% dos filipinos são católicos, e os ensinamentos da igreja com frequência dominam a vida pública nas Filipinas. Ainda assim, Angel, que se considera muito religiosa, disse: “As pessoas LGBT são aceitas agora. Somos muito bem-vindas".

Embora não haja no país leis criminalizando a homossexualidade, tampouco há leis protegendo a comunidade LGBT. Geraldine Roman, a primeira congressista abertamente transgênero do país, está comandando os esforços para ampliar as proteções jurídicas.

Durante quase 20 anos, políticos conservadores, apoiados por grupos católicos e evangélicos, frustraram a aprovação de medidas de combate à discriminação, alegando que estas violariam o direito individual à expressão religiosa.

Mas, em setembro, uma lei proibindo a discriminação com base na orientação sexual, identidade de gênero ou expressão foi aprovada por unanimidade na câmara dos deputados. Desde então, o porta-voz da maioria na câmara, Pantaleon Alvarez, apresentou uma lei de parceria civil que busca estender aos casais gays e transgênero os mesmos direitos matrimoniais dos casais heterossexuais.

Angel, uma estudante de contabilidade que conquistou a coroa de rainha de Maria Respondo, diz que embora ache os concursos de beleza emocionantes, ela também enxerga neles uma plataforma para a causa da igualdade de gêneros.

Na igreja, “permitem que usemos roupas femininas", disse Angel. Ela já ouviu padres oferecendo o mesmo conselho que sua mãe lhe dava: independentemente do seu gênero, o importante é ser uma boa pessoa perante Deus e sua família.

Ainda assim, o ambiente de tolerância esconde uma reprovação profunda. O reverendo Renante Rabanes, que comandou a missa de São Vicente, santo padroeiro do vilarejo, disse: “As pessoas transgênero são contra a igreja. Elas estão destruindo aquilo que Deus lhes deu".

Entre 2008 e 2016, 41 pessoas transgênero foram assassinadas nas Filipinas, o número mais alto do Sudoeste Asiático, de acordo com o grupo Transgender Europe. Um estudo de 2014 revelou que os gays, lésbicas, bissexuais e pessoas transgênero das Filipinas apresentavam probabilidade duas vezes maior de considerar o suicídio do que seus conterrâneos heterossexuais.

O presidente Rodrigo Duterte disse durante a campanha de 2016 que defendia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas Geraldine, deputada transgênero que é integrante do partido dele, se disse frustrada com o fato de a lei de combate à discriminação não ter recebido mais apoio dele.

No senado, a aprovação da lei está enredada em manobras burocráticas do senador Joel Villanueva, um cristão evangélico. Se a aprovação não for obtida em 2019, até o fim do congresso atual, a proposta vai prescrever.

Por mais extensa que seja a tolerância, a discriminação nunca está distante, como descobriu Roi Galfo. Ao fim do treinamento num call center, o supervisor do departamento de recursos humanos disse que todos os funcionários devem usar o banheiro de acordo com seu gênero de nascimento. Roi era a única pessoa transgênero na sala.

Ela deu entrada num processo contra o call center por discriminação em Quezon City, onde a empresa funcionava. Passado um ano e meio, ela segue aguardando uma decisão da justiça. Mas ela está transformando a experiência numa campanha pelo cargo de vereadora em Valenzuela, cidade onde ela mora. Para ela, as eleições de 14 de maio podem ser uma chance de transformar aceitação em poder político.“Sei que serei muito ouvida se conseguir o cargo", disse Roi.

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