Associated Press
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Nas ruínas de uma loja, um capítulo sombrio de racismo nos EUA

O assassinato em 1955 de Emmett Till, um menino negro de 14 anos, foi um episódio brutal na história do país. A tragédia é tema de filmes e livros a serem lançados

Audra D. S. Burch, The New York Times

24 de março de 2019 | 06h00

MONEY, MISSISSIPPI - Ao longo do meio fio de Money Road, do outro lado dos trilhos do trem, um antigo mercado apodrece. Em agosto de 1955, um menino negro de 14 anos vindo de Chicago entrou na loja para comprar doces. Depois de ser acusado de assoviar para a mulher branca que o atendeu no balcão, ele foi posteriormente sequestrado, torturado, linchado e jogado no Rio Tallahatchie.

O assassinato de Emmett Till foi um episódio brutal na história dos Estados Unidos que ajudou a fortalecer o movimento em defesa dos direitos civis. E o lugar onde tudo começou, o mercado Bryant’s Grocery & Meat Market, continua de pé. Mas está caindo aos pedaços.

Hoje, a loja está sem telhado, coberta pela vegetação. Preservacionistas, políticos e líderes da comunidade empresarial, e até o governo estadual do Mississipi, tentaram salvá-la. Mas não foi possível chegar a um consenso.

Alguns consideram o mercado uma mancha para a comunidade, dizendo que seria melhor derrubá-lo. Outros afirmam que o melhor seria restaurá-lo em homenagem a Emmett, para servir como lembrança do ódio que pôs fim à sua vida.

O debate ocorre em meio a acertos de contas vistos em o país envolvendo o destino dos monumentos à Confederação. O que está em jogo é a forma de os americanos encararem o próprio passado. “Isso faz parte de uma história maior, parte de uma história com a qual todos nós podemos aprender", disse o reverendo Wheeler Parker, 79 anos, primo de Emmett que foi com ele ao mercado no fatídico dia. “A loja poderia ser um dos lugares onde compartilhamos a história de Emmett”, sugeriu. 

Caso Emmett Till

O departamento de justiça dos EUA reabriu o caso Emmett Till no ano passado depois que Carolyn Bryant Donham, a lojista branca, alterou partes do seu depoimento.

Em todo o Delta do Mississippi, a lembrança do assassinato de Emmett é difícil de esquecer. O descaroçador de algodão do qual foi roubado o ventilador de 34 quilos amarrado ao pescoço dele com arame farpado fica atualmente num pequeno museu. Há visitas informais à ponte abandonada de onde o corpo dele provavelmente foi arremessado no rio. Não há nenhuma indicação formal do celeiro onde ele foi brutalmente espancado, mas o proprietário mostra o lugar para os ocasionais visitantes. A história dele é tema de filmes e livros a serem lançados.

Nem todos encaram as homenagens da mesma forma. Vários marcos históricos foram repetidamente vandalizados, derrubados a tiros e substituídos.Para fomentar a reconciliação racial, a Comissão Memorial Emmett Till foi fundada em 2006. Ela restaurou o tribunal onde os assassinos de Emmett - Roy Bryant, que era dono da loja nos anos 1950, e seu meio-irmão, J.W. Milam - foram absolvidos. Do lado de fora, um marco em homenagem a Emmett fica a poucos passos de outro monumento em homenagem aos soldados da Confederação.

Ray Tribble, que participou do júri responsável pela absolvição de Bryant e Milam, formado exclusivamente por homens brancos, comprou o edifício onde funcionava o mercado Bryant’s Grocery nos anos 1980. Ele morreu em 1998. O edifício pertence à família Tribble desde então. A família se recusou a vendê-lo.

Willie Williams e Donna Spell cresceram a uma distância de aproximadamente 10 quilômetros um do outro na região do Delta. Williams é negro. Donna é branca. Hoje, os dois são membros da Comissão Memorial Emmett Till, onde se tornaram amigos.

“Esforcei-me para ouvir bastante, e o que escutei foi muita dor", disse Donna, professora de inglês. “Para avançar, temos de contar a história. Temos de abrir a ferida e continuar contando a história.”

Em 2006, um trecho de 50 quilômetros da rodovia U.S. 49 East foi designado como Emmett Till Memorial Highway. Dois anos mais tarde, a comissão apresentou um pedido de desculpas oficial à família Till n tribunal onde os assassinos foram absolvidos. “Nossa comunidade tenta fugir disso desde 1955", disse Patrick Weems, cofundador do Centro Interpretativo Emmett Till, museu fundado pelo grupo.

De acordo com um jornal do Mississippi, o valor do Bryant’s Grocery & Meat Market é de US$ 4 milhões, mas é difícil saber mais porque a família Tribble não costuma falar publicamente a respeito do local. Em 2011, a familia ganhou US$ 206 mil em reparações civis do estado para restaurar um posto de gasolina perto do mercado. Na época, o arquiteto do projeto descreveu a reforma da loja como sendo a fase seguinte.

Desde 2015, Weems negocia com membros da família, sem sucesso Na cidade, fala-se na construção de uma réplica do mercado em uma propriedade do estado do outro lado da rua para as filmagens a respeito do caso Emmett Till. 

“Tem sido complicado trabalhar com a família", disse Weems a respeito dos Tribbles. "Não sei se o que eles querem é dinheiro ou a possibilidade de controlar a história que será contada, algo que implica diretamente o legado do seu pai", acrescentou ele. “Espero que, um dia, eles vejam algo positivo em esclarecer o passado.”

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