Kevin Peter Hand
Kevin Peter Hand

Como a Nasa usa a Antártida para preparativos para o espaço

Cientistas da Nasa testaram com sucesso o Bruie - o "veículo flutuante para exploração sob gelo". Uma câmera a bordo revelou uma Antártida ainda mais estranha que a superfície

David W. Brown, The New York Times

31 de janeiro de 2020 | 06h00

ESTAÇÃO CASEY, ANTÁRTIDA - Perto de um grande buraco no gelo e sob o céu cinzento do meio-dia no verão da Antártida, seis pinguins olhavam para seis homens com ferramentas. Dentro do buraco, havia um robô. Recentemente, cientistas e engenheiros do laboratório de propulsão a jato da Nasa testaram com sucesso o Bruie - sigla de “robô flutuante para exploração sob o gelo” - sob a camada de gelo do leste da Antártida.

O rover operado remotamente foi construído para rastejar pela parte inferior do gelo oceânico e das plataformas de gelo. Esses testes realizados na Terra têm como objetivo buscar evidências da existência da vida sob o espesso gelo que recobre uma das luas de Júpiter, Europa. Sob essa camada de gelo, há mais água em estado líquido do que a encontrada em todos os oceanos da Terra.

A próxima sonda robótica a visitar esse mundo será a Europa Clipper, cujo lançamento não deve ocorrer antes de 2025. Essa sonda vai orbitar Júpiter e encontrar com a lua Europa dezenas de vezes, aproximando-se por ângulos diferentes, para mapear e analisar cuidadosamente o satélite, considerado um dos principais candidatos do nossos sistema solar a abrigar alguma forma de vida extraterrestre. “Levar um veículo como o explorador flutuante e outros submersíveis até o oceano de Europa é a visão de longo prazo que esperamos um dia tornar realidade", disse Kevin Peter Hand, diretor científico do projeto.

O Bruie está em desenvolvimento desde 2017. O rover é pouco mais que um eixo sustentando duas rodas, cada uma do tamanho aproximado de uma pizza grande. O mar empurra o veículo contra a plataforma de gelo e, enquanto o rover avança rastejando, seus sensores coletam dados. Durante os testes de campo na Antártida, sob o gelo da Baía de O’Brien, perto da estação Casey, base australiana situada na parte oriental do continente, o veículo explorador suportou com sucesso três missões congelantes com três horas de duração cada.

O quarto teste manteve o robô submerso no gelo por 42 horas e 30 minutos. Andy Klesh, diretor de engenharia do projeto, pilotou o explorador usando um computador. O explorador submerso rastejou com lentidão e destreza, equipado com uma câmera que transmitia vídeo ao computador.

Os aspectos químicos, radiativos e geofísicos da superfície de Europa podem proporcionar um mecanismo para levar oxigênio à vida nas suas profundezas. Para estudar formas de vida desse tipo, um veículo subaquático de exploração teria de ser pouco invasivo. “O sistema de propulsão de um veículo subaquático comum operado remotamente pode direcionar jatos contra algas delicadas da parte inferior das plataformas de gelo ao se aproximar delas; já o Bruie caminha na ponta dos pés perto delas", disse o tecnólogo Daniel Arthur, que trabalha com a Caltech e a Universidade do Oeste da Austrália.

Hand espera que o trabalho com dispositivos como o Bruie possa impulsionar o desenvolvimento de robôs para a exploração da criosfera terrestre, onde o gelo e os oceanos se encontram. “Do ponto de vista da engenharia, espero que a exploração do oceano de Europa possa forçar a construção de capacidades semelhantes para uma exploração semelhante na Terra", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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