NASA/JPL-Caltech
NASA/JPL-Caltech

Nasa inicia jornada para desvendar mistérios de Marte

Uma nova missão vai tentar mapear o planeta vermelho e buscar por martemotos

Kenneth Chang, The New York Times

11 Maio 2018 | 15h15

O local de pouso da sonda InSight, da NASA, é um dos lugares mais monótonos de Marte: Elysium Planitia, uma planície de nome idílico que engloba todo o alcance dos sensores do módulo: nada de montanhas no horizonte, nem mesmo rochas maiores nas imediações.

“Escolhemos algo o mais parecido possível com um estacionamento de 100 quilômetros”, disse Bruce Banerdt, principal investigador da missão.

A sonda InSight - o nome é formado com as primeiras letras e sílabas do nome completo da missão em inglês, Interior Exploration Using Seismic Investigations, Geodesy and Heat Transport, ou Exploração Interior Usando Investigação Sísmica, Geodésica e Transporte de Calor - é, sob muitos aspectos, uma diversão em relação ao mantra que manteve a NASA concentrada em “seguir a água”, na esperança de descobrir se o quarto planeta do sistema solar já teria abrigado formas de vida.

Em vez disso, esta missão vai investigar os mistérios do interior profundo de Marte e ajudar a responder perguntas geofísicas a respeito da estrutura do planeta, sua composição e formação.

Como não havia muito interesse naquilo que a sonda InSight poderia encontrar na superfície, foi escolhido um local de pouso seguro (leia-se plano).

Marte é, como a Terra, formado principalmente por rochas. Mas o planeta é consideravelmente menor - tem metade do diâmetro da Terra e 11% de sua massa. Um metro cúbico de Marte pesa, em média, 3.885 quilos, o que torna o planeta quase 30% menos denso que a Terra (como Marte é menor, a gravidade é mais fraca e o núcleo não é tão compactado).

Foi somente em 2003 que os cientistas, debruçando-se sobre pequenas variações no campo gravitacional de Marte incidindo numa das sondas da NASA orbitando o planeta, concluíram que o núcleo deve ser derretido, ao menos em parte.

Muitos outros detalhes permanecem desconhecidos. Qual é a frequência dos abalos sísmicos na superfície (martemotos)? Qual é o tamanho do núcleo? Qual é a espessura da crosta? Qual é a quantidade de calor que está se dissipando?

“A nova missão tem como objetivo proporcionar informações elementares a respeito da história do planeta e sua atividade", disse Banerdt. “Estou ansioso para traçar o primeiro mapa do interior do planeta”.

A InSight vai levar alguns meses para mobilizar dois instrumentos: um pacote em formato de redoma contendo sensores sismográficos e uma sonda de calor que vai penetrar cerca de cinco metros no solo marciano.

A missão de US$ 814 milhões depende da detecção de algo que nunca foi identificado de maneira definitiva antes: martemotos. A esperança é que a InSight consiga registrar martemotos em número suficiente para gerar o equivalente a uma ultrassonografia do planeta.

Os cientistas esperam a ocorrência de pelos menos 10 a 12 martemotos ao longo de dois anos, duração da missão primária da sonda. Eventos sísmicos adicionais podem ser gerados pelo impacto de meteoros contra a superfície.

Ao criar uma imagem tridimensional do interior do planeta, os pesquisadores esperam finalmente descobrir a espessura da crosta de Marte.

A sonda de calor da InSight tem cerca de meio metro de comprimento e dois centímetros de largura. Ela precisa mergulhar sob a superfície o suficiente para isolar-se das variações de temperatura dos dias e estações de Marte. Atrás dela há um fio que permanece ligado ao módulo principal, e sensores ao longo do fio medirão as variações da temperatura de acordo com a profundidade.

A sonda enviará também pulsos de calor que serão detectados pelos sensores de temperatura. Isso vai indicar como é a difusão do calor no solo marciano.

Tudo isso vai ajudar a determinar quanto calor é emanado do interior de Marte, e acredita-se que as condições em Elysium Planitia sejam típicas do planeta, disse Tilman Spohn, do Instituto de Pesquisa Planetária do Centro Aeroespacial Alemão, principal investigador do instrumento. “Acreditamos que seja uma localização bastante mediana e monótona, mas também muito característica de Marte", disse ele, “e, portanto, boa para nossa análise".

Um terceiro experimento vai se valer dos sistemas de comunicação de rádio para medir com margem de poucos centímetros a distância entre uma antena de rádio na Terra e a sonda em Marte, separadas por dezenas de milhões de quilômetros. “A precisão é mesmo impressionante", disse Suzanne Smrekar, vice-investigadora principal da missão.

Com essa precisão, os cientistas serão capazes de rastrear as oscilações na rotação de Marte. A movimentação do líquido nas profundezas do planeta afeta o ritmo e a magnitude dessa oscilação. As medidas vão ajudar a definir o diâmetro do núcleo, estimado atualmente em 3.500 quilômetros.

Embora a ênfase da InSight sejam os aspectos geofísicos, e não as possibilidades de existência de vida, seus dados podem ajudar a preencher importantes lacunas. Os cientistas poderiam aprender mais a respeito das erupções primordiais dos vulcões de Marte (os maiores do sistema solar), hoje dormentes, por exemplo, e também quanto gás foi emitido do magma para encher a atmosfera.

“São informações que aqueles preocupados com a habitabilidade do planeta gostariam de saber", disse Banerdt.

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