Jes Aznar para The New York Times
Jes Aznar para The New York Times

A vida solitária e perigosa dentro de um navio de carga

As Filipinas há décadas fornecem a maior parcela de mão-de-obra nos navios cargueiros do mundo. A cultura filipina é trazida a bordo, da comida à música e ao esporte

Aurora Almendral, The New York Times

05 de dezembro de 2019 | 06h00

A BORDO DA UBC CHIPRE NO NORTE DO PACÍFICO - Em sua primeira viagem oceânica sete anos atrás, Jun Russel Reunir foi enviado para as entranhas de um navio de carga, onde escavou minério de ferro até seus músculos começarem a doer - e, então, continuou trabalhando por mais doze horas. "Chorei na minha cabine três vezes naquele mês", disse ele. Filipinos como Juan Reunir, agora com 27 anos, alimentam há décadas a indústria marítima global, ajudando a movimentar 90% do comércio mundial.

Há alguns meses, ele e outros 18 filipinos fizeram parte da tripulação de um navio de carga que transportava cimento do Japão para as Filipinas. Para um visitante, a viagem significava novas sensações: o som das ondas abafadas pelo barulho dos motores, o convés repleto de peixes voadores mortos após uma tempestade, a brisa cheia do cheiro de combustível barato.

Mas para os marinheiros, talvez a única coisa que fosse pior que seu trabalho árduo, era o tédio que os invadia depois de finalizarem suas tarefas; qualquer visão romântica sobre a vida no mar já havia desaparecido há muito tempo. Ainda assim, Arnulfo Abad, 51 anos, instalador da casa de máquinas, que passou a maior parte das últimas três décadas em navios cargueiros, disse estar agradecido pelo trabalho. "O mar me deu a minha vida", disse ele.

Para ser um oficial - posição que a maioria dos homens a bordo aspira - é necessário ter um diploma universitário. Alguns que se formaram pagaram esses diplomas com o que ganharam ao trabalhar cuidando de porcos ou vendendo picolés na rua. Eles deixaram para trás aldeias provinciais onde poderiam esperar ganhar US$ 100 por mês. Agora, ganham 10 vezes esse valor, muitas vezes mais, no mar. Eles voltaram para casa, construíram casas de cimento entre as cabanas dos vizinhos, cuidaram dos pais e enviaram irmãos para a faculdade. E propostas de casamento surgiram.

O domínio do país sobre o trabalho em navios cargueiros começou na década de 1980, quando uma campanha começou a treinar filipinos para carreiras no mar. Nos últimos anos, os navios contrataram mais marinheiros do Vietnã, Mianmar e China. Mas cerca de 400 mil dos 1,6 milhão de marinheiros do mundo são filipinos. Em 2018, esses trabalhadores enviaram US$ 6 bilhões em remessas. 

Nas Filipinas, são escritas músicas sobre seus sacrifícios e façanhas. Rodrigo Soyoso, capitão filipino da embarcação UBC Chipre, começou como aprendiz em um barco de pesca comercial onde três dezenas de homens podiam tomar banho uma vez por semana, e dormia no convés, amarrado pelo tornozelo para não deslizar para o mar.

A comida e o tempo livre no navio lembram os marinheiros de casa. Uma noite, os homens assaram um porco inteiro no espeto e abriram cocos frescos. No convés da popa, havia uma cesta de basquete. Durante o karaokê de sábado à noite, os homens cantaram canções que falavam sobre o que sentiam saudade. A internet tornou a vida menos solitária, mas não está funcionando nessa viagem. Os homens se reuniram no parapeito do navio ao passar por uma ilha, tentando obter sinal suficiente para receber mensagens de texto.

O oceano é um lugar perigoso para se trabalhar. Nos últimos 10 anos, 1.036 navios foram perdidos no mar. Uma corda de amarração pode se quebrar com força suficiente para arrancar a cabeça de um homem, ou algo pode chocar-se contra o navio pela lateral e jogar marinheiros contra a estrutura da embarcação e, depois, ao mar. 

Há eletrocussões, queimaduras e apendicite. O hospital mais próximo pode levar horas ou dias de distância por helicóptero de resgate. O maior desafio, no entanto, é suportar a tensão mental de isolamento, disse Soyoso. Ele viu homens ficarem deprimidos demais para trabalhar, e outros morrem por suicídio. Os meses longe da família exigem um preço alto. Em abril, Reunir estava no porto quando sua esposa grávida ligou. Ela estava em trabalho de parto. Era uma menina. "No primeiro aniversário dela, eu provavelmente também não estarei lá", disse ele.

Reunir disse que apreciou a aventura de navegar em águas piratas no Golfo de Áden, aceitou os riscos de tempestades no Mar do Norte e passou por 10 meses de separação de todos os que amava. Mas desde que ele partiu para o mar, a economia das Filipinas cresceu e há mais oportunidades em terra. Agora ele sonha em criar cabras e porcos na cidade onde cresceu. Enquanto isso, ele pede à esposa que mostre fotos dele para sua filha bebê, para que ela saiba quem ele é, quando finalmente se conhecerem. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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