Kasia Strek / The New York Times
Kasia Strek / The New York Times

Antissemitismo: túmulos de judeus são vandalizados com símbolos nazistas

Cemitérios, escolas e muros foram pichados com suásticas ou referências obscuras ao Terceiro Reich; em Westhoffen, 107 lápides foram vandalizadas

Adam Nossiter, The New York Times

11 de março de 2020 | 06h00

WESTHOFFEN, FRANÇA - Algumas das lápides esquecidas no antigo cemitério judeu parecem estranhamente embranquecidas. Foi preciso esfregar com muito vigor para apagar as suásticas. O vandalismo nas lápides do cemitério de Westhoffen, uma cidadezinha da Alsácia, não foi caso isolado. Como não há judeus no interior da Alsácia, seus túmulos se tornaram alvos fáceis nessa região que tem uma relação desconfortável com a memória da guerra e uma propensão a votar na extrema-direita.

No ano passado, houve 50 incidentes semelhantes contra judeus na Alsácia, berço histórico do judaísmo francês, onde os judeus vivem desde a Idade Média. Cemitérios, escolas e muros foram pichados com suásticas ou referências obscuras ao Terceiro Reich.

No cemitério de Westhoffen, 107 lápides foram vandalizadas; em outro cemitério, em Quatzenheim, uma vila mais ao leste, foram 96 lápides.

Oitenta anos atrás, a Alsácia foi incorporada à Alemanha nazista e, nos tempos da guerra, as autoridades locais seguiram as ordens nazistas. A suástica estava em todo lugar. Judeus foram expulsos, deportados e mortos.

Mas as autoridades locais de hoje consideraram intolerável que os túmulos judeus sejam vandalizados com o símbolo nazista. Elas organizaram voluntários para patrulhar os 67 cemitérios judeus do interior da Alsácia, protegendo esses vestígios negligenciados de uma época em que os judeus, banidos das cidades, eram forçados a viver na zona rural da Alsácia.

Nenhum dos 20 voluntários – professores aposentados, agricultores, donas de casa e estudantes – é judeu, o que aumenta o simbolismo desse gesto inter-religioso. Cada um dos voluntários anda com um grande distintivo que diz “Guardiões da Memória”.

“Tenho amigos cujos pais não voltaram” da guerra, disse Lise Tornare, de 75 anos, explicando por que ela e o marido se dedicam a proteger o cemitério judeu de 200 anos, vizinho à sua casa em Wintzenheim, perto da cidade de Colmar.

Ninguém imagina que os voluntários irão impedir a próxima “profanação”, nome que os moradores dão a esses episódios recorrentes. Alguns desses cemitérios antigos ficam isolados no meio da floresta da Alsácia. As autoridades não encontraram nenhum dos autores dos incidentes do ano passado.

No primeiro turno das eleições presidenciais de 2017, a Frente Nacional de extrema-direita dominou o interior da Alsácia, deixando as autoridades locais sensíveis ao que Freddy Raphäel, decano dos historiadores que estudam o judaísmo da Alsácia na Universidade de Estrasburgo, chamou de “relação historicamente difícil” da região com seus judeus. Organizações extremistas e supremacistas brancas vêm à tona com regularidade na região.

As autoridades que organizam os “Guardiões da Memória” e os próprios voluntários “não querem que as pessoas pensem que na Alsácia só tem isso”, ou seja, só tem ataques aos cemitérios, disse Philippe Ichter, funcionário público da região. “É um ato de resistência”, afirmou Ichter. “O momento é grave. Mas nós precisamos nos engajar”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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