Felix Schmitt/The New York Times
Felix Schmitt/The New York Times

Alemanha toma prejuízo em ano sem grandes feiras de negócios

As feiras são essenciais para aqueles que não podem pagar uma força de vendas internacional e desempenham um papel importante na economia alemã

Jack Ewing, The New York Times - Life/Style

26 de dezembro de 2020 | 05h00

Os diretores de funerárias terão de esperar, como também os fabricantes de brinquedos, os envolvidos em eventos equestres e veganos. Todos esses grupos e muitos outros já haviam reservado seu lugar nas feiras de negócios na Alemanha nos últimos meses. Mas os eventos, uma oportunidade de as pessoas realizarem negócios, observarem a concorrência e se relacionarem com outras do mesmo setor de atividade, estão em crise.

O cancelamento em massa das feiras de negócios é um desastre para os hotéis, restaurantes, motoristas de táxi em todo o mundo, mas especialmente na Alemanha. O país abriga quatro das 10 maiores feiras de negócios do mundo. E elas têm um papel central na vida econômica alemã desde a Idade Média, quando mercadores se reuniam em cidades como Leipzig para negociar vinho, pele, grãos e conversar.

A primeira feira de Hanover, em 1947, uma exposição de máquinas e equipamentos industriais foi vista como um momento decisivo para o renascimento econômico da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. A feira atraiu mais de 700 clientes potenciais de todo o mundo e ajudou a reconectar o país com a economia internacional. A pandemia forçou os organizadores a anular a feira de Hanover este ano como também dezenas de eventos menores como a VeggieWorld em Munique, a feira de brinquedos de Nuremberg e a Horse & Hunt em Hanover.

Num bom ano, esses eventos geram cerca de US$ 33 bilhões de receitas para os centros de convenção, hotéis, restaurantes, empresas aéreas e outros provedores de serviços no país, de acordo com o Ifo Institute de Munique. Essa receita praticamente evaporou e houve prejuízos adicionais impossíveis de quantificar: encomendas perdidas, as parcerias não realizadas, como também novas conexões.

“As feiras são uma vitrine”, disse Jan Lorch, diretor de vendas da Vaude, fabricante de roupas e trajes esportivos que é uma presença regular na feira de esportes ISPO em Munique e na Eurobike em Fridrieshafehn. Lorch disse que, além serem uma oportunidade de se conectar com varejistas, as feiras permitem conhecer novidades como o mais recente software para a cadeia logística. “Você encontra muitas pessoas num curto período de tempo e aprende coisas que, do contrário, não teria conhecimento”.

As convenções são um motor subestimado do crescimento econômico em todo o mundo, responsáveis por 1,3 milhões de empregos. As feiras de negócios geraram US$ 137 bilhões em 2018, o mesmo que a General Motors, segundo a Global Association of the Exhibition Industry em Paris. Mas este ano as receitas caíram dois terços após o cancelamento de eventos como o Mobile World Congress (que atraiu mais de 100 mil visitantes em 2019) em Barcelona, ou o Salão do Automóvel em Detroit (que teve mais de 750 mil visitantes).

Algumas feiras passaram a ser realizadas on-line por causa da pandemia. Depois dos cancelamentos da feira da indústria funerária Leben und Tod (Vida e Morte) que se realiza normalmente em Freburg, os organizadores recorreram à Internet. Realizaram apresentações via streaming sobre temas como “Medo de Morrer”, “Preparação do féretro: que sapato usar para a viagem derradeira?”.

Mas os eventos virtuais não lotam hotéis ou restaurantes nem oferecem trabalho para os carpinteiros que constroem os elaborados estandes da companhia que custam o mesmo que uma casa. “Muitas firmas estão à beira da insolvência”, disse Jan Kalbfleisch, diretor executivo da FAMAB, organização que representa empresas que projetam vitrines, fornecedores de comida e outros provedores de serviços.

Os programas de ajuda do governo “ajudam se suas vendas caírem 30%, mas não se a queda for de 80%”. Há sinais de que mesmo depois de a vacina estar disponível a pandemia deixará cicatrizes permanentes no setor. A Motor Show de Genebra foi cancelada em março e os organizadores já anularam o evento do próximo ano.

O futuro da mostra, um dos principais eventos do setor automotivo, é incerto, em parte porque as montadoras começam a questionar se ela vale os enormes gastos feitos, que no caso das grandes montadoras chegam a milhões de dólares. A maior preocupação é que as empresas venham a descobrir que podem ganhar mesmo sem essas feiras. Como sabem muito bem os que participam desses eventos, eles implicam maratonas de reuniões rápidas, dormir pouco e passar muito tempo ingerindo bebida e comida ruins. “Há muita bebida. Você vive de café e paninis”, disse Kristof Magnusson, escritor que freqüenta regulamente a Feira do Livro de Frankfurt. “Depois do evento todo mundo adoece”.

Segundo uma pesquisa do Ifo Institute quase a metade das empresas alemãs com pelo menos 500 funcionários pretende cortar os gastos com feiras de negócios e realizar mais reuniões on-line. Mas para Horst Penzkofer, economista do Instituto, elas continuam importantes para as pequenas empresas que não podem ter equipes de vendas internacionais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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