Dan Balilty/The New York Times
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'É como se apaixonar': empreendedores israelenses recebem as boas-vindas em Dubai

Após décadas de conflitos, uma rota de negócios se abre para empresários de Israel e dos Emirados Árabes

Isabel Kershner, The New York Times - Life/Style

09 de dezembro de 2020 | 05h00

DUBAI – Durante anos, empreendedores israelenses entravam e saíam dos Emirados Árabes incógnitos, usando segundos passaportes ou realizando negócios por meio de terceiros. Assim, quando mais de duas dezenas de executivos do setor de alta tecnologia chegaram a Dubai recentemente, foi difícil não prestar atenção a eles. Conversando em hebraico, eles perambulavam pelos amplos espaços com piso de mármore do Dubai Mall, subindo para o deque de observação VIP no alto do icônico Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo.

Isto foi observado menos de seis semanas depois de os Emirados e o Bahrein, outro país do Golfo, firmarem acordos para normalização das relações com Israel e abrirem as embaixadas. Mas essa delegação de alto nível já fazia uma entrada ostensiva mesmo antes de voos diretos e outros protocolos formais serem estabelecidos.

Sua visita foi resultado de um namoro entre os dois lados que eram adversários – pelo menos publicamente – há décadas. Mas a rapidez com que as relações antes secretas ficaram expostas surpreenderam até insiders veteranos. O rancor de mais de sete décadas no conflito entre árabes e israelenses pareceu desaparecer em questão de dias. Quando os executivos de Israel expuseram suas ideias e argumentos para convencer grandes investidores de Abu Dhabi, capital dos Emirados, num luxuoso salão de hotel, os dois lados se conectaram.

Os investidores dos Emirados, atentos e sentados em torno das mesas redondas com seus trajes brancos e turbantes, ouviam à apresentação sobre cibersegurança e inteligência artificial e se misturavam durante as pausas. Para surpresa dos israelenses, eles se mostraram mais interessados numa apresentação de Taly Nechustan, diretor executivo da Innovopro, empresa de tecnologia alimentar que extrai proteína de grão de bico.

“Quem teria imaginado?”, disse Nechustan mais tarde, achando divertido ter causado sensação com um alimento regional que é o principal ingrediente do homus. Mas os israelenses chegaram no momento em que a pandemia do coronavírus vem afetando o comércio, expondo a grande vulnerabilidade dos Emirados: o país importa até 90% dos seus alimentos.

“Acho que estávamos todos famintos”, gracejou Abubaker Sedding Al Khoori, diretor executivo da empresa de investimentos Abu Dhabi Capital Group, acrescentando que o setor de alimentos veganos se ajusta à estratégia de investimentos do grupo. Os investidores dos Emirados também mostraram muito interesse num sensor apresentado por Yehonatan Bem Hamozeg, fundador da Agrint, empresa de inteligência na área de agricultura.

O sensor “ouve” as palmeiras e permite que os carunchos que destroem o núcleo das árvores sejam detectados com antecipação. Os Emirados Árabes Unidos têm mais de 40 milhões de tamareiras, um terço do total do mundo. Num sinal promissor da cooperação futura, um cliente potencial convidou Bem Hamozeg, cujo sensor vem sendo testado há um ano nos Emirados, por meio de uma subsidiária americana, a visitar sua fazenda.

Outro investidor, Mohamed Mandeel, diretor de operações do grupo Abu Dhabi’s Strategic Partners, disse que sentiu uma certa afinidade com os israelenses. E relatou que fez um teste de DNA e encontrou uma combinação com seu raro gene babilônio em Tel Aviv.

“Se deixamos de lado as ideologias religiosas e 70 anos de conflitos, guerras e a mídia, vemos que somos seres humanos. Compartilhamos a mesma comida, o mesmo DNA, a mesma aparência”, acrescentou, descrevendo os israelenses como “primos”. Deslumbrados com os arranha-céus erguidos no deserto, estilo Las Vegas, e entusiasmados com a acolhida amigável, os israelenses disseram que este parecia um sonho tornado realidade, ao contrário de experiências anteriores nos países árabes.

Erel Margaliti, investidor de risco de Israel e ex-membro do parlamento que liderou a delegação, foi convidado para o programa da TV estatal de Dubai chamado Message for Peace, que vai ao ar em árabe e inglês e tem como âncora Youssef Abdulbari, um popular apresentador. Fora das câmeras, ele disse que “foi como se apaixonar”, descrevendo a animação nos estúdios e a sensação fascinante da novidade.

Falando na TV em termos visionários, Margalit disse que depois de Londres, Paris e Nova York, o lugar que os empresários israelenses mais almejavam chegar era sua própria região. “Esperamos conseguir fazer juntos alguma coisa grandiosa”, afirmou.

Margalit, fundador e chairman do fundo de capital de risco JVP, com sede em Jerusalém, fretou um avião particular para viajar de Tel Aviv a Dubai, repleto de empresários e jornalistas para a visita de quatro dias. Sua comitiva incluiu executivos de 13 das maiores empresas que fazem parte do seu portfólio, muitos visitando Dubai pela primeira vez. Alguns eram veteranos das unidades de inteligência e tecnologia do Exército israelense.

Durante o voo, ele descreveu os Emirados como uma porta de entrada para novos e vastos mercados com bilhões de pessoas. Além do potencial de investimento dos milionários do petróleo em empresas israelenses, ele visava uma parceria mais profunda da tecnologia de ponta de Israel com o conhecimento e alcance dos Emirados baseados na sua longa história de comércio com regiões que vão desde o Oriente Médio à África e Ásia meridional.

Ao chegarem, ficou rapidamente aparente que a delegação israelense e os Emirados estavam bem equiparados em termos de ambição e empreendedorismo. Uma carta de boas-vindas estava embaixo da porta dos quartos do hotel com a mensagem em hebraico Shalom aleichem, assinada pelo chairman do hotel. A carta também era um convite para manterem contato para juntos explorarem novas oportunidades de negócios. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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