Ian C. Bates/The New York Times
Ian C. Bates/The New York Times

Empresas usam cavalos selvagens como atrativos para empregos

Os mustangs em um complexo de escritórios em Nevada são um exemplo das vantagens ultrajantes que as empresas exibem para impressionar os candidatos a emprego

Adam Popescu, The New York Times – Life/Style

19 de maio de 2021 | 05h00

Correções: 19/05/2021 | 09h22

STOREY COUNTY, Nevada - Você não pode montar os mustangs selvagens no Centro Industrial Tahoe-Reno, em Nevada, mas praticamente tem a garantia de ver as manadas galopando pelas pradarias em um cenário saído do século 19.

Pelo menos, até o pó assentar e a giga-fábrica da Tesla de quase 500 mil metros quadrados se instalar.

Bem-vindos ao Estado de Prata, onde Elon Musk, um magnata das criptomoedas e o dono de um bordel, estão usando um símbolo da cultura americana como instrumento de recrutamento nas redes sociais.

O bebedouro costumava ser o ponto das conversas nas pausas do trabalho de escritório. Depois, surgiram os cafés no próprio local, os estúdios de fitness e de ioga, jardins suspensos, fogueiras e paredes para escalada.

“A tendência geral dos últimos cinco anos é a transformação do escritório em hotel”, disse Lenny Beaudoin, um diretor executivo da CBRE.

Para os empregadores , as mais novas regalias  para agradar aos trabalhadores são ideológicas, com os compromissos ambientais no topo da lista, segundo Jason H. Somers, presidente da Crest Real Estate, uma firma de consultoria imobiliária no sul da Califórnia.

Saúde e bem-estar tornaram-se o maior luxo”, ele disse, incluindo a proximidade da natureza. “Acrescentar valor ao bem-estar do funcionário tem um impacto significativo em um pacote de remunerações”.

Em Nevada, os defensores da vida selvagem afirmam que os esforços para a comercialização dos mustangs selvagens para promover uma imagem “verde” estão interferindo no espaço e nos recursos de que os animais precisam para sobreviver.

É fácil prometer uma mensagem verde, quando o que se visa é atrair talentos. Mas é difícil de cumprir. As mega companhias têm apresentado progressos, mas a maioria dos esforços continua tão pouco clara que é complicado detectar a maquiagem verde: o emprego de iniciativas de sustentabilidade para aparecerem mais atraentes.

Abraçar elevados padrões ambientais pode ser um empreendimento desafiador e dispendioso. Algumas companhias pagam outras a fim de reduzir as próprias emissões. Outras plantam árvores que podem levar anos para crescer e basear-se de maneira intensiva na água e em cuidados.

Proteger grandes mamíferos pode ser até mais difícil. Um bom exemplo está vagando pelo deserto do Nevada.

O Centro Industrial Tahoe-Reno, um parque escritório de 107 mil acres, é o lar de mais de 150 empresas com uma folha de pagamento anual combinada de US$ 750 milhões. A Tesla, que foi pioneira com sua fábrica de baterias, nesse lugar, em 2014, diz que este será o maior edifício do mundo, quando concluído.

Musk usou os cavalos selvagens como argumento de venda para atrair trabalhadores.

“Venham trabalhar na maior e mais avançada fábrica da Terra! Localizada perto de um rio ao lado da maravilhosa Sierra Nevada com seus cavalos selvagens que vagam em total liberdade,” ele escreveu no Twitter.

Tesla não respondeu a diversas solicitações para comentar.

“Há todo tipo de trapaça lá fora, no mundo da tecnologia, mas há também os cavalos”, afirmou Kris Thompson, gerente de projetos do escritório parque.

Mas de que maneira um cavalo bravo pode ajudar a produtividade no local de trabalho?

“Acho que eles  simbolizam o que eram os Estados Unidos, e são belíssimos”, disse Jeffrey Berns, 58, ex-advogado da proteção ao consumidor e CEO da Blockchains, uma companhia de desenvolvimento do software blockchain. E acrescentou que o DNA da sua companhia “se preocupa com o ambiente e isto inclui os animais e os cavalos bravos no nosso terreno” .

Ele gasta aproximadamente US$ 300 mil ao ano com cinco tanques de água e com o programa de alimentação das manadas, e afirma que, ao contrário da Tesla, não os está comercializando. Os animais corroboram uma visão que começou com um aperto de mão com Lance Gilman, o proprietário do bordel Mustang Ranch e um comissário da Storey County, que adquiriu esta terra da Golf Oil, no final dos anos 90.

“Lance é um antigo cowboy”, disse Thompson. “Sua palavra significa alguma coisa. Os empresários da área de tecnologia sabem disso”.

A terra barata, o espaço e os corredores de transporte foram projetados para a Amazon, Walmart, e PetSmart, transformando a terra vazia em um centro de atendimento. Tesla usou uma redução de impostos estaduais de US$ 1,3 bilhão para construir sua fábrica de $5 bilhões, aproveitando a força de trabalho que ainda sofre com a Grande Recessão, e favoreceu a entrada de uma onda de pesos pesados do Vale do Silício. A Switch, uma companhia de tecnologia de infraestrutura, montou três centros de dados, depois a Google engoliu 1.200 acres. A Blockchains adquiriu 67 mil acres por US$ 170 milhões, em 2018, tornando-se a maior ocupante do terreno.

Berns planeja urbanizar cerca de 25 mil dos seus 67 mil acres, mas por enquanto, continuará sendo um posto avançado para os cavalos selvagens.

Suzanne Roy, diretora executiva da ONG Campanha dos EUA pelos Cavalos Selvagens, trabalha com o escritório parque desde 2012, e gastou mais de US$ 200 mil em controle de fertilizantes, água e alimentação nos últimos três anos.

“A urbanização desloca a vida selvagem”, ela disse. As estações de água ajudam, acrescentou, assim como uma interseção subterrânea construída pela Switch. 

Mas os cavalos não compensarão a pegada de carbono total do parque, afirmou Simon Fischweicher, o diretor de corporações e cadeias de suprimentos da CDP para os Estados Unidos. Companhias como a Tesla, cujas baterias de íons de lítio, que é caro de minerar, e são quase impossíveis de reciclar, exigem muita energia.

A Switch está instalando seus próprios painéis solares; além disso, no local existem duas grandes fábricas de combustível verde, mas a distribuição e os centros de dados usam grandes quantidade de água para a calefação e a refrigeração, enquanto as “emissões da cadeia de suprimentos são em média 11,4 vezes superiores às emissões operacionais”, explicou Fischweicher.

Outros questionam a necessidade de usar os cavalos como um atrativo. Thompson disse que a maior parte dos cerca de 25 mil funcionários do parque escritório originários de Nevada não têm especialização e vivem a apenas a uma hora de distância do local. Eles estão aqui por causa dos empregos, e não pelo cavalos.

O crescimento do parque industrial deverá atrair trabalhadores de fora do estado, expandindo a limitada oferta de habitações das proximidades e urbanizando mais terra – tudo isto constituirá uma ameaça para o incentivo da vida selvagem.

“Qualidade da alimentação, escolhas no varejo e habitação irão determinar estas decisões mais do que ter cavalos selvagens nas proximidades”, disse Beaudoin da CBRE. “Eu nunca apostaria contra alguém como Elon Musk, mas há outros fatores para atrair a mão de obra”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Correções
19/05/2021 | 09h22

A giga-fábrica da Tesla deve ter quase 500 mil metros quadrados, e não 500 metros quadrados, como foi publicado anteriormente. A informação foi corrigida no texto.

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