Rebecca Conway/The New York Times
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Depois de uma longa estadia, Harley-Davidson deixa a Índia

Mercado local parecia promissor, mas baixa renda e setor de manufatura problemático fez as vendas decepcionarem

Karan Deep Singh, The New York Times - Life/Style

10 de dezembro de 2020 | 05h00

NOVA DÉLHI - Bhupender Singh se agachou sobre o tanque de combustível num showroom da Harley-Davidson. Uma fila de motocicletas cintilavam sob o brilho do sol naquela tarde; uma vermelha, outra com acabamento em preto e uma outra, ligeiramente mais alta, azul.

As motos não estavam à venda, mas para conserto. A porta da frente da revendedora estava fechada. A Harley-Davidson, uma empresa orgulhosamente americana está renunciando à Índia por causa das vendas fracas depois de uma década insistindo numa região imensa, mas decepcionante, para realizar negócios.

“Tudo acabou agora”, disse Singh, representante da loja. “Não há mais motos para vender”.

O fechamento da fábrica foi um golpe para as ambições da Índia de atrair manufaturas para o país, uma campanha que tinha como modelo recriar o sucesso da China com um “Made in India”. E retardou os esforços da Harley-Davidson para se expandir para o exterior. E deixou no abandono um pequeno, mas devotado, grupo de apaixonados pela Harley que estão se perguntando como vão manter suas motos tão estimadas.

“É como perder alguém da sua família”, disse Sandeep Bharadwai, diretor executivo de uma fábrica de ônibus, que gastou mais de US$ 40 mil na sua moto Fat Boy. “Pensávamos de que estariam fisicamente presentes e nos ajudariam no fornecimento de peças sobressalentes”.

Empresas atrás do próximo boom sempre ficaram de olho na Índia, país de 1,3 bilhão de habitantes com uma grande classe média. Estabelecer uma filial ali, porém, é difícil. Estradas e ferrovias são inadequadas em muitas regiões. As políticas adotadas para o setor imobiliário são confusas. A burocracia é algo reconhecidamente terrível.

Com sua campanha “Made in India”, o primeiro ministro Narendra Modi prometeu reduzir os obstáculos burocráticos, investir em infraestrutura e adotar outras medidas para promover empregos no campo da manufatura de alto padrão e design.

Mesmo antes da pandemia a campanha já vinha decepcionando.

A manufatura contribui menos para a produção econômica da Índia do que ocorria há uma década. O governo lutou para criar um ecossistema para as empresas fabricantes, incluindo infraestrutura e parques industriais. Pequenos fornecedores que poderiam ajudar a renovar uma cadeia logística têm dificuldade para obtenção de crédito.

“A Harley chegou para produzir para o seu mercado”, disse C.P. Chandrasekhar, economista e professor na Jawaharlai Nehru University, em Nova Délhi. “Se não estão contentes, eles simplesmente se levantam e vão embora”.

Porta-voz do ministério do Comércio em Nova Délhi disse que o governo vem tentando reduzir a burocracia para as empresas.

Apesar das dificuldades, qualquer fábrica estrangeira interessada na Índia examina a possibilidade de estabelecer uma filial ali. O país tem várias barreiras quase intransponíveis consideradas as mais difíceis entre as grandes nações no mundo. O presidente Donald Trump repetidas vezes citou os altos impostos cobrados sobre as motos Harley-Davidson nas suas negociações comerciais com Nova Délhi.

A Índia reduziu as tarifas sobre as motos Harley de 75% para 50% em 2018. Mas o governo cobra um imposto adicional de 31%, um dos mais altos do mundo.

A Harley-Davidson decidiu montar as motos no país. A empresa que tem sede em Milwaukee enviou kits com peças para serem montadas para modelos de baixa potência, como a Street 750, para a fábrica em Nova Délhi. As motos mais luxuosas ainda são enviadas dos Estados Unidos.

Mas as vendas caíram depois de dispararem no início e a fábrica na Índia sofreu com mudanças de executivos. A Harley-Davidson vendeu um total de 2.740 motos nos 12 meses que terminaram em março, quase a metade do que contabilizou cinco anos atrás, de acordo com a Society of Indian Automobile Manufacturers, uma organização que representa as montadoras.

As motos da companhia também ficaram fora do alcance de muita gente. O modelo mais caro da Harley ultrapassa os US$ 88 mil contando os impostos e taxas de licenciamento. Ou seja, é 41 vezes mais cara do que o salário médio anual de uma pessoa na Índia, segundo o Banco Mundial.

Os indianos preferem motos mais baratas, mais leves, fáceis de conduzir nas estradas congestionadas e esburacadas do país. A moto mais cara da Hero MotoCorp., uma das maiores fabricantes de motocicletas do país, custa em torno de US$ 1.500.

A mudança da Harley-Davidson do país faz parte de uma ampla reestruturação da empresa. O cliente médio da Harley está envelhecendo. As vendas estão estagnadas e os lucros caíram.

Sob o comando de Jochen Zeitz, seu novo presidente e diretor executivo, a companhia vem reduzindo as franquias, restringindo a produção a um punhado de modelos e eliminando descontos para retratar suas motos como um artigo de luxo exclusivo.

“É sempre uma proposta complicada porque os clientes podem ser afastados”, disse Stephen Brown, diretor da Fitch Ratings, em Chicago, agência de classificação de crédito.

O nome da Harley não vai desaparecer totalmente da Índia. No mês passado, a companhia anunciou um acordo para “venda e serviços” das suas motocicletas com a Hero, a empresa local, que também “desenvolverá e venderá” motos da marca Harley. Com o fechamento da sua própria fábrica, o destino da Street 750, a moto mais popular da Harley na Índia, é incerto. A Harley também demitiu 70 funcionários”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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