Benjamin Norman The New York Times
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Executivos trocam reunião no Zoom por encontros em jogos de videogame

O objetivo é dar uma quebrada nos dias repletos de reuniões que geralmente parecem idênticas

David Segal, The New York Times - Life/Style

14 de agosto de 2020 | 05h00

A abordagem gentil e educada não tinha funcionado. Lewis Smithingham, executivo de publicidade no Brooklyn, estava tentando marcar uma reunião virtual com o analista de uma empresa de gerenciamento de investimentos, o qual ele esperava que virasse uma fonte de clientes e de informações em potencial. As datas foram marcadas e adiadas, remarcadas e adiadas mais de uma vez. Aí Smithingham teve uma ideia.

Ele acabaria com as dispensas mandando um convite atrevido: “Vamos assaltar um banco no Grand Theft Auto?”. Pouco depois, Smithingham e o analista estavam dando uma volta pela versão fictícia de Los Angeles, com submetralhadoras na mão, num dos videogames multiplayer mais populares e estridentes do mundo.

O analista não tinha as habilidades necessárias para assaltar o banco, mas os dois roubaram uns carros, atropelaram uns pedestres azarados, enganaram uns policiais, caíram de um penhasco e morreram algumas vezes. “Ele não é um grande jogador, então tive que ser o cara dos tiros”, disse Smithingham, diretor da MediaMonks, sediada na Holanda. “Mas agora nos mandamos mensagens de texto e, quando eu conseguir uma chamada com esse cara, vou ficar tipo: ‘Lembra daquela vez em que fugimos da polícia e batemos o carro na estrada?’”.

Durante a pandemia de coronavírus , cansados das chamadas de Zoom e sem chance de tomar aquela cerveja depois do trabalho, os executivos presos em casa estão encontrando novas maneiras de se conhecer e se relacionar por meio dos videogames. O objetivo é dar uma quebrada nos dias repletos de reuniões que geralmente soam e parecem idênticas.

E, para pessoas como Smithingham, um rolê pelo espaço virtual é uma chance de criar memórias com pessoas que ele nunca conheceu, o que é uma parte crucial do desenvolvimento das relações, sejam elas profissionais ou não. “É o meu golfe”, disse ele. Ao contrário do golfe, os videogames vêm com distanciamento social de fábrica. São tapinhas nas costas sem tapinhas nas costas, ideal durante uma pandemia.

A ideia de fazer reuniões de negócios no mundo virtual viveu uma certa voga uns dez anos atrás. Mais de 1,4 mil organizações marcavam presença no Second Life, um mundo on-line com tudo o que os avatares precisavam, até mesmo auditórios e cerveja. Ainda há muitas empresas, organizações sem fins lucrativos e universidades operando no Second Life, diz Ebbe Altberg, presidente-executivo da Linden Lab, empresa de São Francisco que criou o mundo. Mas centenas de empresas que tinham escritório no Second Life acabaram saindo, entre elas IBM, Coca-Cola e Reuters.

Os pioneiros dos jogos de hoje têm ambições reduzidas. Erik Heisholt, fundador da Heisholt Inc., uma empresa de marketing de Oslo, estava só procurando um cenário inovador quando, em 2016, construiu um escritório no Minecraft. Esse escritório foi deletado no ano passado, por inatividade.

Mas, quando a pandemia começou, ele construiu um novo. Em meados de julho, convidou este repórter – que nunca tinha posto os pés virtuais no Minecraft, um jogo com mais de 125 milhões de usuários mensais – para uma visita às instalações. Foi uma maneira memorável de passar noventa minutos. “Olá e bem-vindo ao escritório!”, Heisholt disse.

Na verdade, era o avatar on-line de Martin Bruras, seu guru de tecnologia, e Heisholt não estava falando em voz alta. A comunicação no Minecraft acontece via texto, o que aumenta a sensação de que a vida ali se desdobra na metade da velocidade, pelo menos para um neófito que ainda estava tentando realizar tarefas simples, tipo passar por uma porta. Quando Heisholt “falava”, era por intermédio de Bruras, que estava basicamente transcrevendo um ditado.

O primeiro escritório da Heisholt Inc. no Minecraft foi construído há quatro anos, logo depois da empresa conceber o primeiro show do jogo, para um festival anual de tecnologia na Noruega chamado Gathering. O show foi uma versão virtual e simultânea de uma performance ao vivo da dupla eletrônica AlunaGeorge.

O movimento dos músicos era espelhado, tanto quanto possível, pelos personagens feito de bloquinhos que povoam o jogo. Esperavam-se cerca de 3 mil espectadores. “Apareceram mais de 100 mil. E teria sido seis vezes mais se os servidores não tivessem travado”, disse Heisholt numa entrevista por telefone offline. “Muitas reuniões sobre o show e sobre a campanha promocional do show aconteceram no jogo. Nós encontrávamos os jogadores lá dentro, e eles acabavam colocando pôsteres do show nas suas casas e construções dentro do jogo”.

Inspirada por essa experiência, a Heisholt Inc. construiu um escritório no Minecraft, que Heisholt descreveu como muito mais luxuoso do que qualquer outro que a empresa pudesse comprar no mundo real. Um vídeo mostra o que parece um elegante hotel à beira-mar no estilo brutalista, com vários andares e piscinas, além de vacas, ovelhas e um cachorro chamado Palecod.

Os membros da equipe começaram a fazer reuniões regulares no escritório e, logo depois, a convidar os clientes para apresentações de negócios e brainstorming. Foi dentro do jogo que a empresa conversou com representantes do World Wildlife Fund para discutir uma campanha para salvar os lobos da Noruega, os quais um grupo de agricultores queria começar a caçar. A Heisholt Inc. criou um vídeo dentro do Minecraft que mostrava dúzias de lobos abatidos pela besta de um personagem invisível.

“Lobos na Noruega estão na lista dos animais sob forte ameaça”, dizia um letreiro no final do comercial de 50 segundos. Aí o Cara da Besta atirava no último lobo. (A luta dos lobos da Noruega continua). À medida que a empresa crescia e conquistava clientes maiores, foram rareando as visitas ao escritório no Minecraft, e é por isso que ele e o Palecod desapareceram. O novo espaço parece uma sauna imensa – se fosse desenhada por um arquiteto dos famosos. Tem muitos bancos de madeira escura dispostos em camadas, um monte de tochas na parede e uma arte pixelizada de Bruce Lee prestes a socar uma mão gigante.

Conforme o sol caía e a visita avançava, caminhamos até a varanda do segundo andar e olhamos boquiabertos para o que parecia ser uma pradaria verdejante com muitos lagos. Um comerciante de ouro esperava do lado de fora com duas lhamas. As lhamas baliram e olharam para nós. O Minecraft é, pelo menos em parte, um jogo de “sandbox”, o que significa que você pode escolher não fazer nada, a não ser evitar ser morto por um monstro. Antes de visitarmos a sala de conferências do escritório, Heisholt ofereceu um almoço. “Só vou ter que matar uma galinha, volto num segundo”, escreveu ele.

A refeição parecia uma carcaça de frango depenada. Em seguida, ele respondeu a perguntas sobre como este escritório tinha vantagens que o de concreto, em Oslo, não tinha. “Fazer uma sessão de brainstorm aqui força você a pensar”, escreveu ele, segurando o que mais tarde explicou ser um pedaço de carne podre deixada por um monstro. “A pensar diferente. Ficamos com um mindset totalmente diferente aqui. Ainda mais quando falamos com jogadores aleatórios. Às vezes, eles dão respostas absurdas que podem levar seu pensamento a direções totalmente inesperadas”.

Perto do fim da visita, ele saiu para ver as lhamas mais de perto, uma das quais cuspiu nele. Então a noite caiu. Aumentou o som de assobios e grunhidos sinistros, o que nos fez correr em direção à porta do escritório, mas não fomos rápidos o suficiente. Acabamos mortos pelos zumbis. “Você morreu!”, o game exultou. Havia uma opção para “reaparecer” e reentrar no jogo, mas Heisholt estava atrasado para um ensaio com sua banda na Oslo do mundo real.

A experiência ressaltou que seria difícil se distrair no Minecraft, mas que seria igualmente difícil se concentrar no trabalho, pelo menos para quem não tem muitas habilidades no jogo. Ben Decker, chefe de marketing de serviços de jogos da Microsoft, diz que costuma entrar em contato com colegas de trabalho enquanto faz dupla com eles num jogo chamado Destiny. Cada jogador é um guardião armado da última cidade segura da Terra, o que parece um trabalho que exigiria atenção total. “Mas, quando você joga muito, é tipo fazer jardinagem”, disse ele. “Vira uma parte da sua rotina e você pega o ritmo”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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