Matteo de Mayda/The New York Times
Matteo de Mayda/The New York Times

No Saara, o consolo de uma comunidade que aprende a fazer bolos e doces

Para fermentar uma vida espartana e levantar algum dinheiro, mulheres de um assentamento de refugiados de décadas estão aprendendo a fazer sobremesas

Matteo De Mayda, The New York Times - Life/Style

31 de outubro de 2020 | 05h00

Durante 45 anos, o povo saarauí do Saara Ocidental viveu em um imenso assentamento no deserto da Argélia. Em 1975, fugiu durante a Guerra do Saara Ocidental, em que a Frente Polisário, uma organização militar saarauí, lutou pela independência daquele país. O conflito continua sem solução até os dias atuais.

O assentamento, lar de mais de 150 mil pessoas, já viu gerações de saarauís serem criadas com ajuda humanitária enquanto esperam por uma pátria permanente. É uma das crises de refugiados mais longas do mundo. Em 2018, as mulheres do Sindicato Saarauí pediram ajuda às organizações não governamentais italianas Africa '70 e Nexus para organizar um curso de panificação e confeitaria no acampamento de refugiados.

Esses grupos, por sua vez, entraram em contato com Maddalena Borsato, chef de confeitaria e pesquisadora da Universidade de Ciências Gastronômicas, em Pollenzo, na Itália. Ao longo de uma semana, ela ensinou 30 mulheres locais a fazer bolos, doces e pães não só para a família, mas também como fonte de renda.

Sara Di Lello, gerente de projeto da Africa '70, disse que a realização dos cursos nas casas das mulheres reforçou "o senso de comunidade e de solidariedade típico do povo saarauí". "Em muito pouco tempo, surgiu a linguagem de nossas mãos e de nossas ferramentas, uma espécie de comunicação tácita entre nós, e não foi preciso nenhum tipo de tradução do idioma porque falávamos por meio de nossos gestos", comentou Borsato.

Os saarauís são grandes consumidores de açúcar. Uma família média consome cerca de 40 quilos por mês, o que tornou a diabetes tipo 2 uma preocupação. Antes de chegar ao assentamento, os saarauís eram uma comunidade nômade – muitas vezes passando semanas no deserto – e precisavam de grandes quantidades de calorias para percorrer longas distâncias.

Os refugiados também acreditam que o açúcar traz benefícios para a saúde. Como explicou uma mulher chamada Fatimatou: "Os saarauís sempre acreditaram que o açúcar cura todas as doenças: por exemplo, água quente com açúcar é bom para o estômago e os intestinos. Um churrasco de camelo coberto de açúcar é recomendado para o fígado."

Mas não é fácil fazer doces de alta qualidade com os poucos ingredientes disponíveis nos acampamentos – amendoim, tâmara, beterraba, margarina, farinha e ovo – e sem açúcar refinado. Borsato se concentrou em usar os ingredientes naturais à disposição, como a rosélia, um tipo de hibisco, que empresta seu vermelho vivo aos doces coloridos.

As tâmaras do deserto são grandes e particularmente doces, por isso as mulheres aprenderam a fazer uma massa de tâmaras para biscoitos. Os dois grupos italianos também iniciaram um programa no assentamento para cultivar a moringa, uma variedade de crescimento rápido, resistente à seca e rica em vitaminas, proteínas, cálcio e ferro.

As folhas da árvore são moídas e se tornam uma farinha esverdeada que pode ser usada para fazer doces e outros alimentos. Acredita-se que a farinha da moringa também atenua os efeitos da diabetes tipo 2. Em setembro de 2019, a Africa '70 e a Nexus ajudaram a plantar mais de 4.400 árvores para criar uma fonte de alimento renovável para o assentamento.

Apesar de todas as dificuldades e da chegada inesperada da pandemia do coronavírus – que até agora tem poupado sobretudo o acampamento –, o projeto "Food and Work" (Alimentação e Trabalho), que inclui o curso de panificação e confeitaria, continua. Recentemente, as organizações italianas compraram algumas geladeiras para as mulheres, que pediram um curso mais longo e avançado para que pudessem aprender a fazer bolos de casamento.

Borsato planeja voltar ao assentamento em breve para mais uma série de aulas. "A confeitaria realizada para contribuir com a vida das mulheres – para além das receitas aprendidas – valoriza ainda mais os momentos importantes para os quais ela é preparada, ou seja, as celebrações e as festas, que são momentos fundamentais para uma comunidade tão forte e, ao mesmo tempo, tão testada pelos acontecimentos da história", disse a chef italiana.

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