Marissa Leshnov/The New York Times
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Startups de segurança cibernética ganham investimentos após série de ataques

Neste ano, até o momento, investidores injetaram US$ 12,2 bilhões em empresas de segurança cibernética, quase US$ 2 bilhões a mais do que o total de 2020

Erin Woo, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 05h00

SÃO FRANCISCO – À medida que os ataques cibernéticos se multiplicavam este ano, Sanjay Beri, CEO da Netskope, uma startup de segurança em nuvem, recebeu um telefonema. Em seguida, um e-mail. Depois, mais mensagens.

Todas eram de investidores de risco que queriam investir em sua empresa. Eles lhe disseram que, por conta dos ataques de ransomware e invasões aos sites do governo estampados nas manchetes, as empresas que fabricavam produtos de segurança tinham um mercado e uma missão maiores do que antes.

“Não estávamos em busca de capital”, disse Beri, que fundou a Netskope em 2012, mas os ataques cibernéticos “sem dúvida aumentaram o interesse deles”.

Depois de ofertas de sete investidores, a Netskope arrecadou US$ 300 milhões este mês em uma avaliação de US$ 7,5 bilhões, um valor superior ao da avaliação de US$ 2,8 bilhões no ano passado. Foi uma das maiores rodadas de financiamento de segurança cibernética do ano, mas não o máximo que a Netskope poderia ter conquistado.

“Poderíamos ter levantado US$ 1 bilhão em capital”, disse Beri.

Ataques cibernéticos recentes em todo o mundo interromperam o funcionamento de sistemas de oleodutos, hospitais e cadeias de supermercados e, possivelmente, comprometeram algumas agências de inteligência. Mas eles têm sido uma bonança para um grupo: startups de segurança cibernética.

Neste ano, até o momento, os investidores injetaram mais de US$ 12,2 bilhões em startups que vendem produtos e serviços como segurança em nuvem, verificação de identidade e proteção de privacidade. Isso ultrapassa os US$ 10,4 bilhões que as empresas de segurança cibernética angariaram em todo o ano de 2020 e é mais do que o dobro dos US$ 4,8 bilhões arrecadados em 2016, de acordo com a empresa de pesquisas PitchBook, que monitora o mercado de capital privado. Desde 2019, o aumento no apoio financeiro a empresas de segurança cibernética superou o aumento no financiamento de fundos de capital de risco no geral.

O crescimento vem na esteira de uma série de ataques de ransomware de grande impacto, inclusive contra a Colonial Pipeline, a fabricante de software Kaseya e a processadora de carne JBS. Quando o presidente Joe Biden se reuniu com o presidente russo, Vladimir Putin, os ataques cibernéticos cometidos por russos eram uma das prioridades da agenda diplomática. O governo Biden e seus aliados também acusaram formalmente a China de realizar ataques com hackers.

As infrações geraram preocupações entre empresas e governos, levando a um aumento nos gastos com produtos de segurança. Os gastos mundiais com segurança da informação e serviços estão estimados para chegar a US$ 150 bilhões este ano, um aumento de 12% em relação ao ano anterior, de acordo com a empresa de pesquisas Gartner.

“Antes de chegarmos a este ponto, nós, empresas de segurança, tínhamos que sair e lutar por cada centavo que conseguíamos obter, e agora é exatamente o contrário”, disse John Turner, gerente de segurança da informação da LendingTree, uma plataforma online para empréstimos. Segundo ele, os executivos estão perguntando: “Estamos protegidos? O que vocês precisam?"

Tudo isso preparou o terreno para impulsionar os negócios para empresas de segurança cibernética, criando a possibilidade de uma recompensa inesperada que entusiasmou os investidores. A avaliação média das empresas de segurança cibernética que levantaram fundos este ano mais do que dobrou para US$ 524,1 milhões, ante os US$ 221,8 milhões em 2020, de acordo com a PitchBook.

“Em quase duas décadas como investidor de risco, nunca vi avaliações crescerem tanto assim”, disse Asheem Chandna, da Greylock Partners, que investiu em empresas de segurança como a Palo Alto Networks.

O frenesi desse tipo de investimento vem sendo construído há meses. A pandemia fez o setor ganhar força quando as empresas passaram a trabalhar remotamente, o que exigia a proteção desses sistemas de acesso remoto, disseram investidores e executivos.

Em uma sexta-feira à noite em outubro, Chandna apresentou o CEO da Abnormal Security, uma empresa de segurança de e-mail na qual ele tinha investido, a outro investidor, disse ele. Esse investidor, Venky Ganesan, da Menlo Ventures, que há meses tentava marcar uma reunião com o CEO Evan Reiser, imediatamente enviou um e-mail a Reiser para convidá-lo para jantar naquela noite.

Segundo Reiser, ele dirigiu de São Francisco para a casa de Ganesan em Atherton, Califórnia, a cerca de 48 quilômetros de distância. No final daquele fim de semana, a Abnormal tinha fechado um acordo para levantar US$ 50 milhões em uma avaliação de US$ 600 milhões, colocando seu financiamento total em US $ 74 milhões. O cheque de US$ 40 milhões da Menlo foi o maior investimento da empresa até hoje.

“No que diz respeito à parceria entre empresas, isso é o mais rápido que você pode conseguir”, disse Ganesan.

Desde então, os ataques de ransomware deram um novo gás à onda de apoio financeiro ao setor de segurança cibernética.

Em janeiro, a Lacework, uma startup de segurança em nuvem em San Jose, Califórnia, conseguiu US$ 525 milhões em financiamento. Os investidores entraram em contato por causa dos produtos da Lacework, que usam inteligência artificial para identificar ameaças, disse Andy Byron, diretor de recursos da empresa. No total, a Lacework arrecadou US$ 625 milhões desde que foi fundada em 2015.

Mike Speiser, investidor de risco da Sutter Hill Ventures, que liderou o financiamento de janeiro da Lacework, não teve dificuldades em encontrar outros investidores para se juntar a ele, afirmou.

“Liguei para as cinco pessoas que acreditava serem os melhores investidores e perguntei se estavam interessados. Todos estavam interessados e, em 48 horas, fechamos um acordo”, disse Speiser. “Cem por cento das pessoas para quem liguei toparam investir. Poderíamos ter arrecadado bem mais do que US$ 1 bilhão”.

Beri, da Netskope, disse que, com o aumento das ameaças à segurança cibernética, o boom de financiamento provavelmente continuará.

“Muitos investidores não têm conhecimento sobre segurança”, disse ele. “Mas quando seus vizinhos chegam e perguntam, ‘Ei, o que é esse tal ransomware’, então você se dá conta de que alcançou o público em geral. Do ponto de vista do investidor, quando algo chega até a mente de uma pessoa comum, ele percebe: ‘Uau. Isso veio para ficar'”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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