Cole Willims para The New York Times
Cole Willims para The New York Times

Mesmo no campo da tecnologia, o otimismo vai até certo ponto

Os investidores querem ver mais do que 'coração e alma'

Tom Brady, The New York Times

06 de outubro de 2019 | 06h00

No templo da tecnologia, há um só credo: o tecno-otimismo. É o que afirma Margaret O’Mara no The Times, quando escreve que os tecnólogos acreditam que “estão construindo o futuro, e o resto do mundo, inclusive o governo, precisa acompanhá-los”. A recente reação negativa à tecnologia não os dissuadiu.

“Agora, cabe a nós juntos controlarmos esta tremenda energia em benefício de toda a humanidade”, afirmou o investidor Frank Chen falando da inteligência artificial. “Vamos construir uma rota para o espaço”, declarou Jeff Bezos a respeito dos seus projetos de um veículo lunar. Elon Musk perguntou aos acionistas da Tesla: “Eu faria isto se não fosse otimista?”

"As Grandes" da tecnologia vêm sofrendo críticas nas audiências no Congresso americano, e, na Europa, têm sido visadas por novas normas de proteção da privacidade, mas os políticos não perderam a fé. Eles dependem da indústria para controlar a economia - e talvez mesmo “salvar” cidades com mineradoras e industriais com programas de aprimoramento da capacitação de estudantes.

“Quando o Congresso exige que as companhias de mídia social encontrem soluções tecnológicas para a proliferação dos discursos de ódio ou da interferência em processos eleitorais, há um subtexto”, afirmou O’Mara . “A resposta não é menos tecnologia; é uma tecnologia diferente e melhor”.

Os que ousam questionar este tecno-otimismo enfrentam a ira dos verdadeiros crentes.

“A primeira norma dos investidores no Vale do Silício é nunca insulte uma startup”, escreveu Nellie Bowles no The Times. “Os fundadores a estão sempre matando, acabando com o mundo”.

Qual é a resposta apropriada se uma startup está perdendo dinheiro, fracassando ou fechando? O silêncio.

Jason Palmer cometeu o erro de falar. Quando a startup AltSchool patrocinada por Mark Zuckerberg anunciou que estava fechando depois de captar $ 174 milhões, Palmer, que investe em tecnologia educacional, tuitou falando que divulgava o investimento “porque interromper a escola é uma terrível tragédia”, e que os fundadores  não se deram conta da importância de trabalhar com profissionais da educação.

A vingança veio depressa.

“Provavelmente, este foi o tuíte mais caro que você já mandou ou mandará”, escreveu Mark Rose, ex-gerente de produtos do Google. “Esta é a lição do $ (dinheiro)”.

Steve Cheney, um dos fundadores do Estimote, que produz sensores, disse: “Camarada, você se dá conta de que é literalmente o pior”.

E assim por diante.

O ‘mea culpa’ de Palmer também veio em seguida. Ele enviou várias mensagens lamentando a sua primeira avaliação, antes de se desculpar diretamente com os fundadores, que, acrescentou, colocaram seis anos de “seu coração e alma” no projeto.

Apesar destas palavras e do chavão que diz que a tecnologia mudou o mundo do Vale do Silício, afinal, devemos reconhecer que estas são empresas que visam o lucro.

Antes que os CEOs possam mudar o mundo, eles precisam convencer o mercado. “Você deve produzir resultados nos seus negócios”, afirmou o bilionário Mark Benioff, fundador da Salesforce, ao The Times.

Nos últimos anos, com a alta do mercado de ações e o capital de risco fluindo, as startups mais fracas conseguiram passar. Mas à medida que o mercado enfraquece e estas empresas se deparam com investidores dotados de discernimento, as histórias que serviam de inspiração vão perdendo a sua influência.

Adam Neumann, fundador e ex-diretor executivo da WeWork, aprendeu essa lição da maneira mais dura. Foi obrigado a demitir-se, e a oferta pública inicial da WeWork foi engavetada depois que a companhia - que aluga o espaço para escritórios, o reforma e o aluga - foi avaliada em US$ 15 bilhões. Em janeiro, o valor da empresa de trabalho compartilhado foi avaliada em $ 47 bilhões.

“O radar das pessoas para toda esta falação sobre ioga está em alerta máximo neste momento”, disse a The Times Scott Galloway, professor de Marketing na New York University.

A falação sobre ioga, explicou, é “como se o meu instrutor de ioga entrasse no ramo de relações com os investidores”.

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