Philip Cheung para The New York Times
Philip Cheung para The New York Times

Netflix ameaça domínio de Hollywood

Ex-vice-presidente da Universal Pictures, Scott Stuber está levando grandes nomes para a empresa de streaming e preocupando a indústria cinematográfica

Brooks Barnes, The New York Times

24 de dezembro de 2018 | 06h00

Enquanto centenas de cinéfilos faziam fila para assistir a Roma, de Alfonso Cuarón, no Telluride Film Festival de Colorado, em agosto, um carro esportivo parou e dele desceu um homem alto e bronzeado, de óculos escuros. Ele sorriu e acenou antes de entrar no cinema com sua comitiva. "Era uma celebridade?", perguntou uma das pessoas na fila.

Os cinéfilos podem não conhecer Scott Stuber, mas ele está se tornando uma das pessoas mais importantes - e perturbadoras - da indústria cinematográfica. Ex-vice-presidente da Universal Pictures, Stuber, 50 anos, é diretor de filmes da Netflix. Sua missão é deixar os filmes originais do serviço de streaming tão formidáveis quanto seus conteúdos televisivos, que receberam 112 indicações ao Emmy este ano, superando todas as outras redes.

Com a recepção arrebatadora de Roma, que chegou à Netflix em 14 de dezembro, Stuber levou a gigante da internet para o centro da corrida do Oscar. O filme de Cuarón provavelmente dará à Netflix sua primeira indicação a melhor filme.

Mas Roma é apenas o começo do ataque cinematográfico de Stuber, que está forçando os estúdios tradicionais e as salas de cinema a se fazerem uma pergunta: será que a empresa de streaming que já levou tantas pessoas cancelarem a TV a cabo agora fará com que os espectadores parem de ir ao cinema? Depois de provocar disrupções nas indústrias da música e da televisão, a internet finalmente ameaça Hollywood.

Stuber está preparando filmes de Martin Scorsese, Steven Soderbergh, Dee Rees, Guillermo del Toro, Noah Baumbach e Michael Bay. "Se você quer construir um grande estúdio de cinema, tem que buscar os grandes cineastas", disse Stuber, observando que a realeza de Hollywood - Meryl Streep, Ben Affleck, Eddie Murphy e Sandra Bullock - também assinou contrato para filmes da Netflix.

A operação de Stuber prevê que deve disponibilizar 55 filmes originais por ano, com orçamentos de até US$ 200 milhões. Somando os documentários e filmes animados, feitos por outras divisões da empresa, o número de lançamentos anuais da Netflix subirá para cerca de 90. A Universal, um dos estúdios tradicionais mais prolíficos, lança cerca de 30 filmes por ano.

Até agora, a indústria cinematográfica se manteve relativamente protegida das forças digitais. A maioria dos filmes ainda chega primeiro aos cinemas, por cerca de 90 dias, e só depois vai para os lares. As cadeias de multiplex, incluindo AMC e Regal, lutam contra esforços que tentam encurtar esse período. Temem que as pessoas não se disponham a comprar ingressos se puderem ver o mesmo filme na sala de casa apenas algumas semanas (ou dias) mais tarde.

"Como os lucros das salas de cinema são marginais, se elas perderem 10% da audiência - por causa das pessoas que ficam em casa -, alguns cinemas acabarão falindo", explicou John Fithian, da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas.

A Netflix quase sempre driblava as salas de cinema. Para poderem concorrer a prêmios, vários filmes da Netflix apareciam simultaneamente online e apenas nos cinemas de Nova York e Los Angeles. Pressionada por Stuber, a Netflix lançou um terceiro modelo de lançamento em outubro, permitindo que Roma e outros dois filmes estivessem disponíveis primeiro nos cinemas - mas apenas por uma a três semanas. A maioria dos cinemas se recusou a obedecer, embora a Netflix tenha colocado Roma em cerca de 140 salas na América do Norte e outras 600 no exterior.

O novo cuidado da Netflix para com os cinemas é uma oferta de paz aos jurados do Oscar. Titãs como Steven Spielberg se irritaram com a política da Netflix de transmitir filmes imediatamente, sugerindo que todo o conteúdo do serviço deveria ser considerado televisão. Mas a Netflix precisa do prestígio do Oscar para competir com os estúdios tradicionais pelos melhores talentos. Não espere, porém, que a Netflix se dobre muito mais.

"Em um mundo onde a escolha do consumidor está mandando em tudo - a forma como compramos, como pedimos comida, como nos divertimos -, estamos tentando chegar a uma solução na qual os consumidores tenham a opção de ir ao cinema", disse Stuber. "Mas também achamos fundamental que, se você não tiver condição, acesso ou tempo para ir ao cinema, ainda possa assistir a filmes sem esperar muito".

Fithian, da Associação Nacional de Proprietários de Cinemas, disse que o comentário de Stuber sobre acesso é uma "bobagem total".

"Os cineastas que querem ir para a Netflix estão vendendo a alma: um caminhão de dinheiro em troca da maneira como eles sabem que um filme deve ser visto", comentou.

Scorsese discorda. A Netflix acolheu seu próximo filme de máfia, The Irishman (O irlandês), estrelado por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, depois que a Paramount se recusou a bancar o projeto.

"Todos nós estamos fazendo filmes como se fossem para a telona, e eles estão nos dando espaço", disse Scorsese. "Scott e sua equipe realmente estão adotando nossos filmes, com respeito e amor pelo cinema, e isso é o mais importante", afirmou Scorcese.

Roma foi financiado e produzido pela Participant Media, que procurou seis empresas para fazer a distribuição. Todas elas, exceto a Netflix, segundo Cuarón, ficaram preocupadas com a viabilidade comercial de um filme legendado e em preto-e-branco. 

"Estou animado com o desenvolvimento desse modelo de distribuição da Netflix", disse Cuarón. "Isso trará a diversidade de volta ao cinema".

Mais conteúdo sobre:
NetflixcinemaHollywood

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.