Jesse Dittmar|The New York Times
Jesse Dittmar|The New York Times

Netflix aposta em imitação para alcançar brilhantismo

O serviço de streaming, que recentemente fechou acordos com Ryan Murphy ('American Crime Story') e Shonda Rhimes ('How to get Away with Murder'), está criando um universo paralelo

James Poniewozik, The New York Times

07 Março 2018 | 10h00

No mês passado, a Netflix anunciou que Ryan Murphy - produtor de "Glee" e de "American Crime Story" - havia deixado a 21st Century Fox pela gigante do streaming, em um acordo que, segundo disseram, chegaria a US$ 300 milhões. Os canais de TV costumam fazer grandes negócios o tempo todo. O motivo pelo qual este acordo - assim como, no ano passado, a saída de Shonda Rhimes da emissora ABC sempre por obra e graça da Netflix - dá a impressão de ser uma façanha histórica é que há uma questão envolvida. A Netflix é um pouco diferente. Mas por quê?

Será mais parecida com uma plataforma de vídeo online, como o YouTube? Uma rede, como a NBC? Um canal, como a HBO? Os acordos com Murphy e Shonda sugerem algo mais: trata-se de todo um universo paralelo da TV, e em expansão. Basta pensar a Netflix como o "mundo invertido" de sua série "Stranger Things", uma espécie de dimensão alternativa da TV, sobrepondo-se e replicando o mundo conhecido da televisão tradicional, que tenta adquirir um elemento de tudo o que existe no universo da TV.

Inicialmente, a companhia foi comprando os direitos de streaming de séries de sucesso da televisão. Depois, passou a usar a imitação: revivendo "Arrested Development" (Caindo na real, ou De mal a pior) da Fox; e criando originais, como "House of Cards", nos moldes da TV a cabo premium. Agora, levando Murphy e Shonda.

Os canais a cabo têm suas marcas. Foi o que os tornou diferentes das redes de emissoras, que tentaram ser tudo. Os canais a cabo tinham especialidades próprias: a CNN era o noticiário; a ESPN o esporte; HBO a sofisticação para público adulto.

A Netflix é, especificamente, contrária a tudo isso. Sua marca é "as coisas a que você gostaria de assistir na TV". Ela criou uma imensa biblioteca de reprises, e, com isso, uma imensidão de dados a respeito de quem gosta de assistir a quê. Depois, fez mais dessas séries - ou, em alguns casos, as comprou. Se você gostasse de "30 Rock", lá vinha "Unbreakable Kimmy Schmidt". Se gostasse de "Damages", aí estava "Bloodline", além de "The Crown", drama histórico no estilo da BBC. "Um dia de cada vez" é a remontagem de um seriado cômico de uma rede de TV dos anos 1970, e "Ela Quer Tudo", uma maliciosa comédia romântica. 

Uma coisa para cada um - era a filosofia da TV na era passada. Mas o modelo de publicidade das emissoras exigia que tudo o que elas exibiam apelasse para um público extremamente variado. A Netflix vende uma plataforma para cada um, mas oferecendo produtos para gostos muito específicos.

O problema é: será que a Netflix conseguirá oferecer arte original se continuar crescendo e se tornar uma enorme TV alternativa que abrange todo tipo de produto? E poderá fazê-lo quando a estratégia de negócios é vender aos telespectadores novas versões de coisas de que eles já gostam?

A Netflix fez algumas séries realmente sensacionais, mas uma experiência mais familiar é uma versão suficientemente boa de um drama que você já viu em algum outro lugar. Não há motivos para acreditar que Murphy e Shonda serão menos criativos por causa do dinheiro da Netflix. Mas é difícil ser inovador quando seu único objetivo é tirar as pessoas de onde elas estavam.

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