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Maratonando filmes? A Netflix aposta na trilogia semanal 'Fear Street'

A plataforma de streaming espera que as adaptações da série de R.L. Stine em três filmes semanais mantenham o público colado nas telas

Nicole Sperling/The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2021 | 05h00

É o momento decisivo para Leigh Janiak. A roteirista está a pouco tempo da sua estreia na Netflix, e está mixando o som e revendo os efeitos especiais com o tique-taque de um relógio no fundo. O seu processo avança a um ritmo muito mais angustiante do que de costume, porque Leigh, a diretora da trilogia Fear Street, tenta concluir três filmes de uma vez. Quando terminar, ela e os seus produtores da Chernin Entertainment vão tentar um experimento com a Netflix: pela primeira vez, a plataforma de streaming lançará um filme semanalmente por três sextas-feiras seguidas, a começar pelo dia 2 de julho.

Pense em maratonas para quem é amante de filmes!

“É uma espécie de híbrido. Uma novidade”, disse Leigh. “É um misto de filme tradicional com o que seria considerado TV tradicional: cada capítulo, cada parte, conta sua própria história, mas está também muito ligado ao próximo capítulo. É uma coisa genial para mim como cineasta.”

E também muito ambiciosa. Os três filmes, baseados nos livros de R.L. Stone, cobrem um período de 300 anos e são estrelados por algum dos jovens e promissores talentos: Sadie Sink, de Stranger Things, Ana Kiana Madeira de Trinkets e Chiara Aurelia de Cruel Summer. Os três filmes, com um orçamento em torno de US$ 20 milhões cada, ligam um acidente ocorrido há 300 anos e que aterroriza a fictícia cidade de Shadyside, Ohio, há gerações.

O primeiro filme se passa em 1994 e é repleto da cultura de shopping e dos primeiros chats de bate-papo online, prestando uma homenagem à série de filmes Pânico e de Eu Sei o Que Você Fez no Verão Passado. O segundo é ambientado em um acampamento de verão no ano 1987 e referências a Sexta-feira 13 e Halloween. Leigh disse que seu estilo de filmagem no terceiro filme, ambientado em 1966, foi inspirado por O Novo Mundo, de Terrence Malick.

A Netflix introduziu a opção de maratonar séries em 2013, quando lançou a temporada inteira de House of Cards de uma vez só. Esse experimento de três filmes em três semanas representa um enfoque semelhante, que, se funcionar, poderá tornar os filmes viciantes como as séries de TV pelas quais a plataforma se tornou conhecida.

Um horário semanal “é o programa fabuloso que dá espaço e tempo suficiente para cada um dos filmes se tornar independente por conta própria”, disse Lisa Nishimura, vice-presidente da Netflix da área de filmes independentes e documentários.

A esperança é que a trilogia dê origem a um debate cultural.

“Leigh criou estes mundos e esses personagens pelos quais você acaba se apaixonando”, afirmou Nishimura. “Por isso, a possibilidade de, em uma semana, vir com o próximo filme que continua a história, dá ao público um tipo maravilhoso de narrativas entrelaçadas em que irá querer mergulhar e envolver-se profundamente”.

O experimento só é possível porque foi bolado dessa maneira desde o começo.

A 20th Century Fox, antes de ser comprada pela Disney, adquiriu a série adorada pelos adolescentes em 2015 para a Chernin  Entertainment produzir. A compra – Stine escreveu 52 livros  ambientados em Shadyside, e vendeu mais de 100 milhões de exemplares – significou que os produtores tinham de pensar de maneira diferente a respeito de como explorar o material. Um filme por vez não era a opção mais eficiente.

Ao contrário, os produtores criaram uma sala para roteiristas, uma prática comum para a televisão, mas raramente usada para filmes. Como a empresa tinha ambições de uma franquia desde o começo, a ideia de que um grupo de roteiristas poderia “quebrar” toda a história em uma série de filmes. Os escritores trabalharam juntos antes de Janiak subir a bordo e depois que estava envolvida.

“Nós não contratamos uma pessoa para fazer um filme”, explicou Peter Chernin, diretor executivo da Chernin Entertainment em uma entrevista. “Na realidade, estávamos tentando pensar como construir um filme em um mundo em que poderíamos realizar múltiplos filmes””.

Uma vez criado o mundo e os roteiros concluídos, Leigh filmou todos os três de uma vez - uma tremenda empreitada para qualquer cineasta. Para Leigh, este foi o segundo projeto de um longa, depois da sua estreia em 2014, o filme de horror Honeymoon, que chamou a atenção de Hollywood para a jovem diretora. Ela filmou durante 106 dias, principalmente à noite, em Atlanta, alternando entre três épocas diferentes com três estilos de filmagem diferentes. Ela também passou grande parte do tempo lembrando o que a atraiu inicialmente para a série Fear Street, enquanto crescia em Ohio.

“Acho que quando uma adolescente, você já vive neste mundo um pouco perigoso”, ela disse. Fear Street era como o meu mundo, mais louco, mais terrível e mais sangrento”.

Leigh queria também subverter o gênero de horror que amava, concentrando-se mais nos desajustados, os frequentes heróis das séries de Stine.

“Os nossos personagens normalmente não teriam sobrevivido depois dos primeiros 15 minutos” de um filme de horror tradicional, acrescentou. “Nossos filmes contam as histórias dos perpétuos outsiders”.

Três filmes em três semanas significaram que Leigh poderia incluir dicas em cada filme que só seriam compreendidas depois de ver todas as três películas. A Netflix tem a certeza de que os segredos escondidos encorajarão o público a voltar para a trilogia vezes seguidas – a exata definição do conteúdo viciante.

Essa foi a experiência de Nishimura: “Quando terminei de assistir à Parte 3, a única coisa que eu queria fazer era começar tudo de novo e assistir à Parte 1, e então vi algo diferente porque tive a oportunidade de experimentar a totalidade das mitologias”, afirmou. “Por isso, imagino que quando os três filmes estiverem por aí, haverá muita conversa a respeito do que o público irá descobrir”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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