Simbarashe Cha/The New York Times
Simbarashe Cha/The New York Times

Neurocientista - e usuário de heroína - quer mudar a forma como encaramos as drogas

Carl Hart via as drogas como destruidoras das comunidades. Depois, viu o lado positivo. 'Nós deseducamos o público', afirmou

John Leland, The New York Times - Life/Style

28 de maio de 2021 | 05h00

Carl L. Hart, neurocientista da Columbia University, respondeu recentemente a uma série de perguntas a respeito do seu novo livro, que defende o uso das drogas de uma maneira anticonvencional.

Hart, você está sob o efeito de algo agora?

“Não. Agora estou na temporada das entrevistas. Por que você desperdiçaria substâncias durante uma entrevista? Você precisa se concentrar”.

Para lidar com o estresse ou o tédio das entrevistas?

Bom, talvez se estivesse em uma recepção acadêmica, ele disse. “Aí você poderia tomar algo que o ajudasse a ir até o fim”, disse. “Como uma pequena dose de opioides e uma pequena dose de estimulante, ou algo desta natureza”.

Hart, de 53 anos, o primeiro professor titular de ciências afro-americanas em Columbia é uma mosquinha entre os pesquisadores de drogas e uma estrela do rock entre os defensores da descriminalização das drogas. Em Drug Use for Grown-Ups: Chasing Liberty in the Land of Fear (Uso de drogas para adultos: perseguindo a liberdade na terra do medo, em tradução livre), ele diz que usou regularmente heroína nos últimos quatro anos e descreve a época em que tomou morfina diariamente durante três semanas para experimentar a abstinência.

Todo adulto, ele disse, deveria ter a liberdade de fazer o mesmo: “A busca da felicidade, da liberdade”, afirmou.

Em uma entrevista por telefone da sua casa em Westchester County, onde está em licença sabática, Hart elogiou a nova lei de Nova York que legaliza a maconha como um sinal de que alguns tabus relacionados à droga estão desaparecendo. No entanto, outros, ele disse, continuam profundamente arraigados.

Em Minneapolis, advogados de defesa de Derek Chauvin, o ex-policial processado pela morte de George Floyd, enfatizaram o fato de Floyd se drogar para conjurar um estereótipo que Hart chama de “o negro enlouquecido viciado em droga”.

Para Hart, tratava-se de uma ideia antiga.

“Isto acontece sempre que um preto é morto pela polícia”, ele disse. “As drogas são o bode expiatório ideal, porque a maioria dos americanos acredita que as drogas enlouquecem as pessoas e as tornam menos que humanas. Ou super-humanas”.

Hart afirmou que a maior parte do que as pessoas pensam que sabem sobre drogas e abuso de drogas está errado: este vício não é uma doença do cérebro; que a maioria dos 50 milhões de americanos que usam uma droga ilegal em determinado ano têm experiências extraordinariamente positivas, que a nossa polícia se deixou corromper pelo fato de se concentrar somente nos resultados ruins. E que os resultados foram devastadores para as famílias afro-americanas como a sua.

Grande parte da culpa, segundo ele, está na sua profissão. “Nós que estudamos o assunto estamos exagerando os efeitos danosos da droga”,  afirmou. “Nós deseducamos o público, e isto é totalmente antiamericano e errado”.

Os críticos de Hart – e são muitos – consideram estas afirmações erradas e perigosas.

“Ele é imprudente com a ciência na hora de defender a sua teoria”, disse Bertha K. Madras, professora de psicobiologia na Harvard Medial School e diretora do Laboratory of Addiction Neurobiology no Hospital McLean em Belmont, Massachusetts.

“Você não ignora as consequências adversas – os pais, as famílias, as esposas que devem conviver e lidar com o distúrbio provocado pelo uso de opioides. As vítimas do tráfico, os problemas no local de trabalho, o absenteísmo, a compensação do trabalhador, os jovens que abandonam os estudos, os crimes e os assassinatos relacionados à droga. Eu jamais vejo Carl tratar destes problemas”. 

Hart começou o seu relacionamento com as drogas na adolescência no bairro de Carol City de Miami Gardens, Flórida. Como muitos de seus colegas, ele vendia drogas e andava armado. Também era um atleta de destaque e DJ de festas.

Depois que deixou este ambiente, primeiramente para ingressar na Força Aérea, depois na faculdade e na pós-graduação – culpou as drogas pelo crime e pela decadência social da comunidade. Com o seu doutorado em neurociências, ele decidiu estudar o problema do vício e melhorar a vida em lugares como Carol City.

Em Columbia, ele começou a fazer experiências com viciados em narcóticos, recrutando-os por meio de anúncios no Village Voice. Com bolsas do National Institute on Drug Abuse, Hart e seus colegas administraram milhões de dólares em crack, metanfetaminas, cannabis e outras drogas em ambientes de laboratório.

Ele esperava que os seus candidatos fossem como as pessoas de que ouvia falar nas conferências sobre abuso de drogas, ou os zumbis amalucados dos filmes sobre viciados, ele disse: “Alguém que foi essencialmente um escravo da droga. E eu nunca vi essa pessoa ao longo de toda a minha pesquisa”.

Em vez disso, afirmou, os sujeitos eram diligentes no cumprimento de prazos, e quando lhes eram oferecidas alternativas à droga - um dólar em um experimento, e US$ 5 em outro – faziam escolhas racionais, e não alimentavam compulsivamente os próprios vícios.

“Mas esta é a mitologia do campo”, afirmou. “Então comecei a prestar atenção aos nossos dados, e a perceber que as pessoas são realmente felizes, e são responsáveis. Elas comparecem a estes programas exigentes”.

Isto o levou a formular perguntas diferentes: se a maioria dos usuários sofresse algumas ou nenhuma consequência negativa, qual seria a melhor maneira de aliviar o padecimento dos que as sofreram?

“Se as pessoas têm uma doença psiquiátrica simultânea, o foco terá de estar ali”, afirmou. “Não na droga que a pessoa está tomando. Ou se esta pessoa agora não tem a noção do próprio valor porque perdeu o emprego que enquadrava a sua família na classe média. Se o tratamento não tiver como foco garantir que haja uma substituição, então terá sido uma perda de tempo”.

Foi assim que começou a sua guerra contra a guerra às drogas. Sua carreira deu uma reviravolta, tirando-o do trabalho pesado do laboratório para a advocacia legal.

Depois de receber verbas regularmente para a pesquisa, que totalizaram mais de US$ 6 milhões, do National Institute on Drug Abuse, Hart foi cortado depois de 2009. “Como estou fazendo indagações que vão além da patologia, é mais difícil para mim conseguir as verbas necessárias”, afirmou.

Uma porta-voz da agência não quis fazer comentários a respeito das decisões referentes à concessão de bolsas.

Enquanto era alvo de críticas da corrente científica tradicional, ele encontrou um novo público receptivo, incluindo doadores particulares para a sua pesquisa. “Para os reducionistas do perigo ou os abolicionistas das prisões ou os abolicionistas da polícia, ele é um herói”, observou Dorothy E. Roberts, professora de direito e diretora do Penn Program on Race, Science & Society, na Universidade da Pensilvânia. “Ele quer dizer, com toda a experiência e capacidade que o respalda, que estas políticas são perigosas”.

Ao contrário dos defensores acadêmicos do uso da droga de outros tempos, como Timothy Leary e Baba Ram Dass, que fizeram experiências com LSD em Harvard, Hart rejeita como “oportunista” a distinção entre as chamadas drogas boas, como os psicodélicos e substâncias mais maléficas, como heroína e metanfetamina. Todas, ele disse, têm o seu lugar.

Algumas partes do mundo talvez comecem a concordar. No dia 1º de fevereiro, o estado de Oregon descriminalizou a posse de pequenas quantidades de todas as drogas. Mas Hart contestou afirmando que a descriminalização sozinha contribui bem pouco para tornar as drogas seguras. Se as pessoas não sabem o que estão comprando, não poderão usá-las sem correr o risco de uma overdose.

O próximo passo, segundo Hart, deveria ser a fixação de locais de teste em todo o país onde os usuários poderiam determinar a pureza e a potência de suas drogas – o que é um anátema para pesquisadores como Madras, que afirma que tudo o que “normaliza” o uso da droga leva a um maior uso entre os adolescentes – o que seria essencial para salvar vidas, segundo Hart. Ele tem poucas esperanças de que tais locais possam aparecer tão cedo.

Mas ele observou uma ligeira alteração durante o tempo que passou estudando o assunto. Quando ele começou, os seus alunos queriam explorar os perigos da droga. Agora, eles veem mais perigo na proibição das drogas, afirmou.

“Por isso, eu preciso ser a pessoa que os empurra na direção na qual eles não estão indo”, concluiu. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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