Gabriela Bhaskar para The New York Times
Gabriela Bhaskar para The New York Times

Cidadezinha nos EUA protesta contra a repressão na Nigéria

Quando o governo nigeriano foi atrás de um opositor no meio de uma ampla repressão à liberdade de expressão, não esperava provocar resistência a 8 mil quilômetros de distância

Ruth Maclean, The New York Times

27 de dezembro de 2019 | 06h00

HAWORTH, Nova Jersey - Opeyemi Sowore assistiu aos vídeos pelo celular na cama, em sua casa em Nova Jersey, enquanto seus dois filhos dormiam. Nos vídeos, seu marido - ex-candidato à presidência e editor de um site conhecido como WikiLeaks da África - estava sendo dominado no chão na sala de um tribunal nigeriano por um homem de terno preto, no meio da gritaria dos advogados.

A Justiça determinara que seu marido, Omoyele Sowore, deveria ser libertado após pagamento de fiança e aguardaria em liberdade um processo em fevereiro no qual teria de responder  às acusações de traição, lavagem de dinheiro e por ter criticado o presidente Muhammadu Buhari pela televisão, ou seja, de perseguição online. Mas no dia 6 de dezembro, enquanto sua esposa dormia a mais de 8 mil quilômetros de distância, Sowore foi levado de volta à prisão, onde deveria se encontrar há cinco meses.

Um vídeo o mostra declarando que estas “poderão ser minhas últimas palavras antes que eles me matem”. Desde então, Opeyemi não teve mais nenhum contato com ele. Quando, em 2015, Buhari foi eleito presidente da Nigéria, o país mais populoso e a maior economia da África, o seu foi considerado um triunfo da democracia. No entanto, a partir desse momento, o seu governo se caracterizou por um impiedoso autoritarismo.

Os protestos foram enfrentados com força letal. O presidente do Supremo do país foi destituído do cargo. As organizações humanitárias sofreram ameaças por criticarem o Estado, e as redações de alguns jornas foram invadidas. Agora, um projeto de lei apresentado pelo Senado Nigeriano propõe a pena de morte para alguns casos de “discurso de ódio”. Outro projeto, sobre a Mídia Antissocial, pede três anos de cadeia para quem critica o governo.

A Nigéria não é o único país que reprime a liberdade de expressão. Burkina Faso acaba de implementar uma nova lei punitiva sobre segurança; na Etiópia, entrou em vigor uma medida relativa ao discurso de ódio; a repressão grassa na Tanzânia; e em toda a África foi constatado o fechamento rotineiro da internet e das redes sociais, apontando para uma tendência geral de implantação da censura.

“Os que estão no poder não querem ser obrigados a tolerar a voz do povo”, disse Ayisha Osoti, diretora  da Open Society Iniciative for West Africa. Em 2006, Sowore fundou o site Sahara Reporters, em que expunha a corrupção e a má conduta do governo. O site, sediado em Nova York, tinha cerca de 50 pessoas trabalhando na Nigéria e nos Estados Unidos, o que obrigava Sowore a viajar continuamente entre Nova Jersey e a Nigéria (ele é cidadão nigeriano).

No dia 3 de agosto, ele foi preso pelo Departamento de Serviços do Estado (DSS) do país. Inicialmente, sua esposa não contou a ninguém em Haworth, um bairro de classe média a cerca de 30 quilômetros de Nova York, a respeito da prisão do marido, conhecido como Yele.

Mas um dia, trocando mensagens com outra mãe que tem filhos na escola local, ela explicou o motivo pelo qual o marido estava ausente há tanto tempo. A notícia correu rápida em Haworth, uma cidade de 3,5 mil habitantes. Um grupo de dez mulheres provocou o alarme no Departamento de Estado dos EUA. Elas conseguiram expor o seu caso a Amal Clooney, advogada dos direitos humanos, que pediu a soltura de Sowore.

As mulheres trabalham para a Anistia Internacional, que o declarou prisioneiro de consciência. Elas se encarregaram então de ajudar a esposa de Sowore preparando as suas refeições e cuidando das crianças. Os comícios que elas realizaram no centro de Haworth atraíram centenas de pessoas.

Depois da confusão na sala do tribunal, entraram em contato com integrantes do Congresso dos Estados Unidos. No dia 20 de dezembro, seis deles enviaram uma carta ao ministro da Justiça da Nigéria protestando contra o tratamento dispensado a Sowore. Em fevereiro, Sowore, que criticava o governo por não acabar com a corrupção, candidatou-se sem sucesso à presidência contra Buhari. Em agosto, ele se preparava para liderar um protesto quando foi preso.

O DSS declarou que voltou a prender Sowore no dia 6 de dezembro por ter divulgado comentários, na noite anterior, em que prometia levar adiante a sua causa. Um porta-voz do DSS também afirmou que os partidários de Sowore haviam atacado a sala do tribunal. Opeyemi falou que depois do que viu nos vídeos, temia pela vida do marido. “O mais duro para mim é como contar aos filhos?” ela disse. Eromo Egbejule contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.