Dmitry Kostyukov/The New York Times
Dmitry Kostyukov/The New York Times

Nigo, o designer que levará a Kenzo a um novo patamar da moda

Rei do street wear japonês está se juntando ao mundo do luxo e assumindo “o maior desafio” de sua carreira

Jessica Testa, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2022 | 05h00

Houve um momento, há uns seis anos, em que Nigo percebeu que se sentia velho. Não é uma sensação especialmente incomum para alguém de 40 e poucos anos, sua idade na época. Mas se tratava de Nigo, uma das figuras mais influentes do streetwear, que ajudou a transformar uma subcultura em cultura e praticamente inaugurou o conceito de vender moletons de US$ 400 a filas enormes de clientes sedentos pela última moda.

Nigo vem interpretando a cultura jovem desde 1993, quando fundou a marca A Bathing Ape (ou Bape). Geralmente vestindo a estampa camuflada exclusiva da Bape, além de colares de diamantes, o designer e produtor musical sem sobrenome havia se tornado o ídolo descolado dos ídolos descolados, o colaborador preferido de homens como Pharrell Williams, Kanye West e Virgil Abloh.

Mas Nigo contou que, ao se aproximar da meia-idade, se viu usando roupas mais conservadoras. Depois de 20 anos na Bape, vendeu e deixou a empresa, concentrando-se em suas outras marcas (como a Human Made, fundada em 2010) e em outras funções (como a de diretor criativo da coleção UT da Uniqlo, de 2014). "Comecei a pensar: talvez não seja mais meu tempo", rememorou em uma entrevista, com a ajuda de um intérprete de japonês.

Foi então que Williams interveio. "Fiquei tipo: 'O que você está fazendo? Não é hora disso. Agora é hora de se estabelecer, de se concentrar e fazer o que você faz de melhor. Você está entre os maiores curadores de estilo e criadores de tendências'", afirmou Williams, amigo de longa data e parceiro de negócios, na marca Billionaire Boys Club. (Sobre a crise de quase meia-idade de Nigo, Williams observou: "As coisas estavam mudando muito depressa, e Nigo é capricorniano. Capricórnio é um signo de terra, por isso gosta de certezas.")

Nigo levou o conselho a sério, percebendo que era parte de seu trabalho "não sucumbir a esse tipo de tendência" de se sentir velho ou desconectado.

Agora, passados alguns anos de sua intervenção, Williams vê aquele momento da vida de Nigo como necessário, "para que ele pudesse abrir espaço para seu novo cargo como diretor artístico da Kenzo". No dia 23 de janeiro, em Paris, o designer de 51 anos apresentou sua primeira coleção para a marca, que pertence ao Grupo LVMH.

Quando a escolha de Nigo para o cargo foi anunciada, em setembro, enfatizou-se que ele era o primeiro designer japonês da marca desde Kenzo Takada, seu fundador. Takada deixou a marca em 1999, alguns anos depois de vendê-la para o Grupo LVMH por aproximadamente US$ 80 milhões. Ele morreu em 2020, aos 81 anos, de complicações relacionadas à covid-19.

Nigo disse que nunca conheceu Takada, embora o estilista tenha ocasionalmente visitado o campus do Bunka Fashion College, em Tóquio, a faculdade em que Nigo estudava. Ainda assim, os primeiros trabalhos de Kenzo foram uma grande influência para Nigo durante a adolescência.

Segundo este, "a marca tinha uma maneira particularmente interessante de usar cores fortes juntas", que diferia das cores escuras, sombrias e frias que dominavam a moda japonesa na época. As coleções de Takada realçavam os tecidos asiáticos, mas também pegavam emprestados elementos dos trajes folclóricos da Europa, de figurinos teatrais, uniformes militares e muito mais.

Nigo vê refletida em sua obra essa absorção de influências ecléticas. Há muito tempo ele se inspira na cultura hip-hop (e lhe serve de inspiração). Seu trabalho incorpora temas militares, ilustrações de animais no estilo de desenhos animados e silhuetas de roupas de trabalho americanas vintage. Contudo, sua primeira coleção para a Kenzo é em grande parte uma homenagem aos primeiros trabalhos de Takada, principalmente seus designs da década de 1980.

Aquelas coleções iniciais incluíam detalhes como mangas de quimono e boinas exageradamente grandes; os novos quimonos da Kenzo são concebidos como sobretudos, e suas grandes boinas têm o ano "1970" bordado. (É o ano de nascimento de Nigo, mas também o ano em que Takada apresentou seu primeiro desfile de moda na Galerie Vivienne, onde foi promovido o desfile de Nigo no dia 23 de janeiro.)

A nova coleção tem algumas estampas de tigre – motivo da Kenzo que foi sucesso de vendas sob o comando de Leon e Carol Lim, diretores criativos da marca de 2011 a 2019 –, mas, em geral, a Kenzo de Nigo é excepcionalmente floral, incorporando papoulas, flores de cerejeira e outras estampas botânicas novas, antigas ou redesenhadas com base em designs do arquivo da marca.

Uma camisa com estampa paisley que estava nos arquivos se torna um vibrante vestido chemise. Uma jaqueta de tweed em dois tons de cinza – um neutro e um mais escuro, dos arquivos de Takada – é repaginada e ganha tons de cor-de-rosa e cinza escuro. Um terno masculino branco é coberto por desenhos originais feitos por Takada. O denim, obsessão de Nigo, ganha corte de alfaiataria, como uma roupa social.

Vê-se muito pouca pele e sex appeal, embora esse realmente nunca tenha sido o foco da Kenzo. Nigo apresentou roupas masculinas e femininas, mas as duas coleções podem ser interpretadas como basicamente unissex. (É a primeira vez que ele lança uma coleção feminina.)

Ao ser anunciado como diretor da marca, em setembro passado, Nigo falou de seu novo trabalho como "o maior desafio dos meus 30 anos de carreira" e, na entrevista para este artigo, disse sentir "uma enorme pressão", mas contou ter aceitado o cargo quase imediatamente. O primeiro convite veio em 2020, depois do lançamento de sua primeira coleção para a Louis Vuitton em parceria com o falecido designer de moda masculina Virgil Abloh, que via Nigo como seu mentor.

Para a indústria da moda, a escolha de Nigo para o cargo mostrou como o estilo streetwear se tornou importante para as marcas de luxo. "Quando conhecemos Nigo, ele já era conhecido como um pioneiro da nova cultura atual, indo além da moda", afirmou Sidney Toledano, presidente e CEO do Grupo de Moda LVMH.

Mas quanto dessa cultura fashionista Nigo levará para a Kenzo? Segundo a marca, o foco será criar uma sensação de exclusividade, inclusive por meio de edições limitadas, mas Nigo é taxativo ao dizer que "não se trata apenas de limitar o número de peças": "Isso parece algum tipo de truque. É mais uma questão de fazer com que as peças sejam desejadas. É cuidar mais de como cada item é apresentado e vendido ao público."

Da mesma forma, embora Nigo seja amplamente associado a parcerias – com a Levi's, a Adidas, o artista plástico KAWS ou o restaurante Kentucky Fried Chicken –, por enquanto esse não será seu foco na Kenzo: "O foco é tornar a marca Kenzo intrinsecamente estimulante. Estamos sempre abertos a parcerias interessantes, mas elas são apenas o tempero, e não a refeição."

A esperança parece ser que o jeito descolado de Nigo – e de quem estiver próximo dele – leve a marca nessa direção, mais do que qualquer mudança específica no modelo do negócio. Isso porque Nigo – em todos os aspectos, e apesar de seu momento de dúvida há seis anos – ainda é descolado.

"Qualquer um que esteja fazendo algo descolado foi influenciado por Nigo", comentou Steven Victor, cujo selo Victor Victor Worldwide, da Universal Music Group, lançará o novo álbum de Nigo no dia 25 de março. É o primeiro trabalho musical lançado por Nigo com seu nome em quase 20 anos, e tem participações de Williams, ASAP Rocky, Lil Uzi Vert, Pusha T e Tyler, the Creator.

Mas pergunte a Nigo por que ele está lançando um álbum agora, depois de tantos anos, e ele falará de Kenzo Takada. "Tem uma frase muito famosa de Kenzo san. Quando lhe perguntaram 'O que é moda?', ele respondeu: 'Música.'"

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