Antony van der Ent / The New York Times
Antony van der Ent / The New York Times

E se o mundo colhesse níquel das plantas?

Pesquisadores acreditam que parcela considerável da demanda dos consumidores por metais básicos e minérios raros poderia ser atendida pela agricultura

Ian Morse, The New York Times

10 de março de 2020 | 06h00

Algumas das plantas da Terra caíram de amores pelo metal. Com raízes que funcionam como ímãs, estes organismos – até agora os cientistas conhecem cerca de 700 – florescem nos solos ricos de metais provocando ao mesmo tempo a fuga ou a morte de centenas de milhares de outras espécies vegetais.

Cortando uma destas árvores ou passando as folhas do seu primo arbusto por uma prensa de amendoim produz-se uma seiva que exsuda um líquido verde-azulado. Na realidade, 25% deste “suco” é níquel,  muito mais concentrado do que o minério que alimenta as fundições de níquel do mundo. As plantas não só coletam os minérios do solo em seus corpos, como aparentemente os guardam em níveis “ridículos”, disse Alan Baker, professor de Botânica da Universidade de Melbourne.

Esta vegetação poderia ser a mais eficiente fundidora de minério movida a energia solar. E se, como substituto de parte da tradicional mineração e fundição, de energia intensiva de alto custo ambiental, o mundo colhesse o níquel das plantas?

Em um pedaço de terra alugado de uma aldeia no lado malaio da ilha de Bornéu, Baker e uma equipe internacional de colegas provaram que isto é possível em pequena escala.

A cada seis ou 12 meses, um camponês corta cerca da metade de meio metro do caule destas plantas hiperacumuladoras de níquel, e ou a queima ou espreme o metal dela. Depois de uma breve purificação, os camponeses teriam nas mãos cerca de 230 quilogramas de citrato de níquel, no valor de até milhares de dólares.

Agora, enquanto a equipe amplia o maior terreno de teste do mundo para quase 20 hectares, seu público alvo é a indústria. Em dez anos, os pesquisadores acreditam que uma parcela considerável da insaciável demanda dos consumidores por metais básicos e minérios raros poderia ser atendida pela agricultura.

Solos contaminados e produtividade

A fitomineração, ou extração de minérios de plantas hiperacumuladoras, não pode substituir totalmente as técnicas de mineração tradicionais, explicou Baker. Mas a tecnologia tem potencial para permitir que áreas com solos contaminados voltem a ser produtivas. Os camponeses poderiam plantar em solos carregados de minérios, e as companhias de mineração poderiam utilizar as plantas para despoluir as suas antigas minas.

“Esperamos poder mostrar isto e apresentar a prova do conceito e mostrar às pessoas como funciona, e que funciona”, afirmou Antony van der Ent, botânico da Universidade de Queensland, na Austrália.

Níquel: planta tóxica

O níquel é um elemento crucial do aço inoxidável. Seus compostos químicos são usados em baterias para automóveis elétricos e energias renováveis. É uma planta tóxica para as outras plantas, e para o ser humano, em doses elevadas. Onde o níquel é extraído e refinado, ele destrói a terra e deixa substâncias tóxicas. Nas áreas em que os solos são naturalmente ricos de níquel, nos trópicos e na bacia do Mediterrâneo, as plantas precisam adaptar-se ou morrem. Na Nova Caledônia, território francês no Pacífico Sul, os botânicos conhecem pelo menos 65 plantas que amam o níquel. Outras absorvem cobalto, zinco e metais igualmente cruciais.

Com a demanda de minérios raros impulsionada pela nova eletrônica, as companhias estão explorando o espaço externo e o leito dos oceanos. Muito menos explorada é uma das mais antigas tecnologias da humanidade, a fazenda.

Os que propõem a fitomineração veem um grande potencial na Indonésia e nas Filipinas, duas das maiores produtoras mundiais de minério de níquel. Os hiperacumuladores não só toleram os metais, como as suas raízes têm sede deles. O níquel pode ajudar a planta a combater as pragas, ou permite talvez que ela absorva mais rapidamente o potássio, um recurso escasso, do solo.

Elas têm o potencial para sanar o maior problema da indústria da mineração: as minas abandonadas, que poluem o lençol freático. Uma mina abandonada, rica em hiperacumuladores, poderia salvar os metais remanescentes. Desse modo, talvez fosse possível convencer as companhias a investir na reabilitação ou na despoluição das minas.

A maneira mais comum de extrair níquel para produtos eletrônicos exige intensa energia – que é derivada do carvão e do diesel -  e cria lixo ácido. Uma fundição típica custa centenas de milhões de dólares e exige um minério escasso que é pelo menos 1,2% rico em níquel.

Por outro lado, as plantas em uma pequena fazenda de níquel poderiam ser colhidas a cada seis meses em uma terra onde a concentração de níquel é de apenas 0,1%. Depois de 20 anos, a terra teria sugado todos os seus metais tóxicos, e voltaria a ser fértil para suportar mais culturas comuns.

Plantação para cultivo

A possibilidade de a colheita de níquel ser tão lucrativa provocou o temor de que os produtores pressionem para a abertura de florestas tropicais para o cultivo, prenunciando outro caso como o da palma para a produção de óleo, uma cultura lucrativa que devastou as florestas nativas de Bornéu.

Mas este não é um resultado provável,  segundo os pesquisadores. As áreas que têm o maior potencial para a fitomineração costumam ser cobertas de gramíneas, e poucas outras plantas provavelmente cresceriam na terra selecionada para ao cultura de minérios. “Podemos plantar estas árvores em solos que já foram desmatados”, opinou o Baker. “Seria uma maneira de devolver, em lugar de tirar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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