Morgan Santiesteban, via Associated Press
Morgan Santiesteban, via Associated Press

No acampamento, aulas de empreendedorismo substituem marshmallows

Crianças e adolescentes têm cursos sobre ganhar dinheiro com seus passatempos, entrevistar executivos locais e gravar comerciais para o Youtube durante colônia de férias

Caroline Arbour, The New York Times

02 de junho de 2019 | 06h00

Nos acampamentos de verão americanos, acabaram-se os dias de tranquilidade dedicados a caminhadas, à descoberta de novas amizades e a assar marshmallows. Em vez disso, um número cada vez maior de acampamentos não tradicionais enfatiza o aprendizado, com os participantes recebendo aulas de “Como oferecer valor ao cliente", participando em oficinas para iniciantes e imersos em idiomas.

A Biznovator, uma empresa da Flórida, criou acampamentos e cursos que buscam produzir a próxima geração de empreendedores. Seu curso Kamp for Kids ensina os participantes a ganhar dinheiro com seus passatempos, entrevistar executivos locais e gravar comerciais para o YouTube. E, no Connect Camp, aulas de administração são intercaladas com atividades clássicas como circuito de obstáculos com cordas e exercícios de confiança no grupo.

A Biznovator está ensinando (alguns diriam doutrinando) os jovens participantes dos acampamentos a amar o capitalismo em um ambiente em que, de acordo com as pesquisas de opinião, os jovens americanos têm uma visão cada vez mais desfavorável desse sistema, de acordo com reportagem de Brendan O’Connor para o Times.

Para O’Connor, esses “acampamentos capitalistas” também transmitem uma mensagem contraditória. “Eles promovem o empreendedorismo e a liderança, mas ao mesmo tempo treinam as crianças para serem bons funcionários. Querem que sejam inovadores capazes de perturbar os mercados, mas também burocratas-modelo", escreveu ele.

Cursos semelhantes podem atender a outro propósito importante: tornar divertida a alfabetização financeira. “A ideia é que, se pudermos ensinar isso às crianças e aos pais, teremos agora uma geração livre do problema do endividamento", disse ao Times Alicia Brockwell, que comanda o Camp Millionaire. O curso dela ajuda famílias do seu bairro de Los Angeles a lidarem com problemas financeiros.

Em um acampamento na Reserva Indígena do Vale Hoopa, no Norte da Califórnia, a missão é diferente: trazer de volta um idioma moribundo. Durante os cinco dias de curso, os participantes cantam e brincam seguindo apenas uma regra: nada de inglês. Em vez disso, o acampamento é todo no idioma Hupa, a língua nativa dos cerca de 4 mil membros da tribo do Vale Hoopa. 

Apenas 20 membros são suficientemente fluentes a ponto de ensinar a língua, de acordo com estimativas da própria tribo. Crianças menores têm mais facilidade em aprender idiomas do que as mais velhas, e a tribo espera que os participantes de 7 e 8 anos dos acampamentos ajudem a trazer o idioma de volta. “A meta é sempre essa", afirmou Sara Chase, integrante da tribo que organizou o acampamento com a Associação Tribal Educativa Hoopa. “Como criar novos falantes?”.

Diversidade

Uma participante, Grace Kane, de 7 anos, conhece canções em Hupa e ensina palavras à irmã mais velha. Medir a aquisição de habilidades como alfabetização financeira e domínio de idiomas é mais fácil do que medir o efeito de atividades que estimulam ideias mais abstratas, como confiança e aceitação de si. É por isso que alguns acampamentos estão ajustando suas estruturas para serem mais acessíveis a jovens de gênero fluido e LGBTQs, usando alojamentos para todos os gêneros e etiquetas de nome indicando o pronome pessoal de preferência de cada um.

“Para alguns jovens transgênero, estar em um acampamento cheio de pessoas como eles, que entendem como é ser assim, pode ser uma experiência muito poderosa, de afirmação diante da vida", explicou Ann Gillard, ex-diretora de acampamento das Bandeirantes e voluntária.

Lou Pendergrass, de 16 anos, disse que participar do Brave Trails, um acampamento LGBTQ na Califórnia, ajudou ela a se tornar mais confiante. “Encontrei um espaço de grande aceitação para aprender quem sou". E, para esses participantes, a ideia é justamente essa. Mais ou menos como no jogo do capitalismo, “há os que vencem e os que aprendem” nos acampamentos, como diz o fundador da Biznovator, Juan Casimiro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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