Ricardo Fraga
Ricardo Fraga

No Brasil, rodovia mortal põe em risco animais silvestres

Apesar da preocupação dos ecologistas, pouco é feito pelas autoridades para proteger os animais que passam por rodovia no Mato Grosso do Sul

Rebecca Boyle, The New York Times

23 de novembro de 2018 | 06h00

Sempre que Wagner Fischer dirige, vê animais atropelados. Quando estudava na pós-graduação, nos anos 90, Fischer, hoje biólogo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, viajou pelo Pantanal, no Brasil - uma região de 195 mil quilômetros quadrados, a maior área do mundo coberta de água doce.

Ele ficou fascinado e impressionado pela carnificina que ocorre na estrada: jacarés, anacondas, os jabirus, espécies de cegonhas gigantes de pescoço preto, e, certa vez, um tamanduá fêmea gigante morta, com o filhote ainda vivo, agarrado às suas costas.

A rodovia principal da região, a BR-262, com uma extensão de 700 quilômetros, liga as cidades de Campo Grande e Corumbá, centros em grande desenvolvimento. Fischer começou a tirar fotografias, milhares delas, e a contar as espécies encontradas ao longo da rodovia.

Vinte anos mais tarde, publicou os resultados do seu estudo no dia 19 de outubro na revista online “Check List” sobre biodiversidade, revelando dados espantosos. De 1996 a 2000, Fischer contou 930 animais mortos, representando 29 espécies de répteis e 47 de aves. Uma contagem separada de mamíferos incluiu mais de 2,2 mil exemplares. No que se refere a animais silvestres, a BR-262 é a estrada mais mortífera do Brasil e uma das mais mortíferas do mundo.

A rodovia eleva-se sobre os alagados como uma ilha, uma tentação para os animais selvagens, disse Fischer. “Uma armadilha para a fauna, que não tem noção do risco”. Em 2014, uma equipe chefiada por Júlio César de Souza, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, encontrou na rodovia BR-262 518 carcaças de 40 espécies - dez vezes mais em relação a 2002, quando Fischer apresentou alguns dos seus resultados. Esse estudo, assim como outro publicado em 2017 que contou mais de mil grandes mamíferos em um único ano na BR-262, levou o estudioso a publicar finalmente os seus dados.

Em contraposição, na Grã-Bretanha, segundo um recente relatório, em 2017, mais de 1,2 mil animais morreram em colisões de trânsito em todas as principais rodovias do país. Em todo o Brasil, as estradas estão repletas de carcaças que representam 1.775 espécies de aves e 623 espécies de mamíferos do país.

Manuela González Suárez, uma bióloga da Universidade de Reading, na Inglaterra, e seus colegas, criaram um modelo computadorizado para prever onde os animais têm maior probabilidade de ser atingidos por veículos. Sua equipe constatou que nada menos que dois milhões de mamíferos e oito milhões de aves podem estar morrendo anualmente nas rodovias brasileiras.

Os ecologistas temem que o problema se agrave dentro de pouco tempo. O Brasil abriga 20% da biodiversidade de todo o planeta, mas o presidente recém-eleito, Jair Bolsonaro, prometeu desenvolver amplas áreas nas regiões ecologicamente mais sensíveis do país.

Com o passar dos anos, Fischer ofereceu os seus dados, que não haviam sido publicados, às autoridades e as instou, sem grandes efeitos, a criar um sistema de pontes e passagens subterrâneas que permitiriam que os animais atravessassem as estradas em segurança. “Os ecologistas estão muito preocupados. As autoridades fingem estar preocupadas”, disse Arnaud Desbiez, um biólogo da Royal Zoological Society da Escócia.

As autoridades brasileiras adotaram algumas medidas básicas. Placas de metal, com silhuetas de tatus e tamanduás gigantes, foram colocadas ao lado das estradas a poucos quilômetros de distância umas das outras, com um aviso aos motoristas: “Respeite a vida selvagem”. Mas os avisos costumam ser ignorados. 

Desbiez é favorável à instalação de cercas que impediriam que os animais avançassem sobre a pista e os guiariam para passagens seguras embaixo ou por cima da estrada. Tais medidas têm se mostrado eficazes em outros lugares. No Colorado, uma rede de passagens subterrâneas e pontes sobre uma estrada nas montanhas reduziu as colisões em 90%.

Segundo González-Suárez, o desmatamento representa uma ameaça maior para a biodiversidade na Amazônia do que uma estrada nova, mas as duas coisas estão relacionadas. Ela observou que novas estradas são construídas para tirar madeira, e para transportar grãos e gado de áreas agrícolas em expansão. “Na minha opinião, a maior preocupação como bióloga conservacionista é a perda do habitat. Consideramos que as estradas são necessárias, mas precisamos reconhecer que elas têm um alto custo: estes animais que não deveriam morrer. Eles são mortos somente porque há uma estrada onde eles vivem, e nós trafegamos nela”.

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