Samuel Aranda/The New York Times
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No Caminho de Santiago pela Espanha, até o burrinho Óscar é um peregrino

Uma artista e um proprietário de hostel tiveram a ajuda de um burrinho em seu esforço para resgatar as tradições da antiga rota de peregrinação na Espanha do turismo de massa (e selfies)

Nicholas Casey, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2021 | 05h00

SANTIAGO DE COMPOSTELA - De todos os que percorrem o Caminho de Santiago, rota lendária que atrai milhares de peregrinos todos os anos, poucos são como Óscar.

Ele anda sobre quatro pernas em vez de duas. Um burro de idade incerta, Óscar puxa uma velha carroça e a improvável dupla que o possui, Irene García-Inés, uma escultora de 37 anos e um proprietário de hostel octogenário chamado Jesús Jato.

A maioria dos peregrinos percorre as várias rotas do Caminho através das montanhas do norte da Espanha por várias semanas antes de receber um certificado pela jornada concluída. Mas García-Inés e Jato vagaram por essas colinas por mais de um ano e têm planos mais radicais: eles querem criticar nada menos do que a maneira como viajamos hoje, trazendo de volta as tradições perdidas de uma antiga rota de peregrinação.

Os dois amigos param nas casas para registrar as velhas canções que eram cantadas sobre os peregrinos. Com os donos das pousadas, eles trocam a hospedagem por produtos que enlatam antes da viagem.

E há Óscar, o burrinho.

“É assim que os peregrinos costumavam viajar naquela época”, disse García-Inés, enquanto Óscar relinchava do lado de fora da velha pousada de pedra onde os viajantes haviam parado.

De certa forma, foi aqui no Caminho que a viagem moderna começou na forma de uma peregrinação cristã.

Segundo a lenda, após a morte do apóstolo Tiago, os anjos acompanharam seu corpo em um barco da Judéia até a costa da Espanha, onde os moradores montaram um santuário para suas relíquias. Na Idade Média, os peregrinos começaram a chegar em viagens de lugares distantes como Inglaterra, Itália e Polônia. Eles chamaram a rota de Caminho de Santiago, o caminho de São Tiago.

Mesmo nos tempos mais seculares de hoje, a atração espiritual de percorrer o Caminho permaneceu. Jovens mochileiros atravessam essas montanhas debatendo seus planos para a vida adulta. Os casais debatem os problemas conjugais até chegarem ao ponto final na Catedral de Santiago de Compostela.

Mas em algum lugar do caminho, disse García-Inés, o que foi uma jornada deliberada e contemplativa durante séculos começou a mudar. A rota começou a ficar movimentada com peregrinos, alguns vindo de ônibus. O Instagram fez com que as pessoas buscassem “curtidas” em selfies tiradas ao longo do caminho.

Muitos chegam agora apenas nos últimos 100 quilômetros (62 milhas) da rota, o mínimo que a Igreja Católica Romana permite para obter o certificado de conclusão - o que significa ignorar totalmente uma rica paisagem onde os peregrinos costumavam trocar mercadorias com fazendeiros e conversar com pedreiros consertando a estrada.

“Os peregrinos de hoje vêm com pressa e dificilmente falam com alguém. Mas antes, as pessoas que viajavam eram pessoas muito inquietas. Elas tinham um espírito profundo”, disse García-Inés.

E assim García-Inés e Jato pretendem mostrar como isso deve ser feito.

Durante a pandemia no ano passado, a artista, que conheceu e fez amizade com o proprietário do hostel ainda adolescente quando ela mesma fez a peregrinação, sugeriu que os dois partissem para um tipo diferente de jornada, que tentaria resgatar tradições que foram perdidas na rota.

A dupla faria a viagem em etapas com um burrinho e pagaria por comida e hospedagem quando pudessem com pimentas vermelhas da horta de Jato que ele havia enlatado, assim como os peregrinos de outrora faziam.

Para García-Inés, a jornada com o burrinho é uma peregrinação tanto quanto o tipo de performance artística pela qual ela se tornou conhecida.

Uma década atrás, na Bienal de Veneza, ela trabalhou com os residentes locais para reconstruir um barco e navegou ao redor dos canais. Ela disse que era uma declaração contra o turismo em massa de cruzeiros que dominou a cidade por décadas. Foi também o início de uma obsessão por viagens que permeou seu trabalho desde então.

Jato veio para a jornada depois de décadas como proprietário do Ave Fenix, um hostel no topo de uma colina que ele construiu com pedras velhas e madeira que reciclou de prédios em sua cidade de Villafranca del Bierzo.

Às vezes, Jato parece ter tanta autoridade sobre os velhos costumes quanto qualquer pessoa que a dupla encontre na estrada. De volta ao seu hostel uma noite, ele agradou os peregrinos com histórias de sua infância na casa de seus pais na década de 1940 - na noite em que nasceu, havia sete peregrinos hospedados lá, ele disse - e da ditadura da Espanha, quando os soldados de Francisco Franco caçaram lutadores republicanos nas colinas.

Os que estavam na pousada e ouviam-no naquela noite vinham de todas as esferas da vida: um dono de restaurante da cidade espanhola de Valência, um estudante da Alemanha, um mexicano que estava viajando sozinho.

José Antonio Carrasco disse que havia perdido o emprego na cidade espanhola de Lleida, ficando sem teto durante a pandemia antes de cair na dependência de drogas. Em um centro de reabilitação, ele conheceu peregrinos rumo a Santiago.

“Peguei o Caminho para evitar viver na rua”, ele disse, dizendo que a comida e o abrigo nos hostels costumavam ser gratuitos para os peregrinos que não podiam pagar.

Em outra tarde, García-Inés foi à casa de Lola Touron, uma produtora de cestos da aldeia de San Xulián que ela estava filmando para um documentário sobre o Caminho. Jato conversou com Touron na língua local galega. Ela lhe contou sobre uma roupa pesada feita de palha chamada “coroza”, destinada a proteger os pastores da chuva.

García-Inés sabe que manter a tradição da coroza pode ser difícil. Mas havia muitas outras tradições que ainda poderiam ser salvas, ela disse.

Ela conhecia um ciclo de canções que costumava registrar as paradas ao longo do Caminho como um dispositivo mnemônico para os peregrinos antes que os guias turísticos fossem comuns. Algumas das pessoas mais velhas nas colinas ainda sabiam a letra, ela disse.

“Perder essas tradições é como se perdêssemos as pirâmides. Damos muito valor aos monumentos, mas pouco às pequenas coisas”, ela disse. “Existem tantas armadilhas para turistas no mundo, mas as rotas sagradas são muito poucas”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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