Finbarr O’Reilly / The New York Times
Finbarr O’Reilly / The New York Times

No Congo, ataques terroristas atrapalham a luta contra o Ebola

Surto de Ebola no leste do país, o segundo maior já registrado, está agora fora de controle; a doença voltou a aparecer nos últimos três meses

Joseph Goldstein, The New York Times

09 de junho de 2019 | 06h00

BENI, REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO - Quando o Ebola chegou a esta cidade na República Democrática do Congo, Janvier Muhindo Mandefu deixou a agricultura e passou a enterrar os corpos altamente contagiosos das vítimas do vírus. Mas Muhindo tem menos medo do Ebola do que dos que ele encontra nos funerais. Ele e sua equipe de enterro foram atacados por parentes de um morto, um deles balançava uma enxada. Os enlutados acusavam os membros da equipe de roubar os órgãos dos cadáveres e ameaçaram jogá-los nas valas abertas.

Em abril, um enlutado agitou uma granada de mão, disse Muhindo, mandou todo mundo se dispersar e deixar uma vítima do Ebola de 3 anos sem ser enterrada. "Alguém como eu pode ser enterrado vivo", disse Muhindo, enquanto outros desciam dos caminhões depois de mais um dia de enterros. 

Este surto de Ebola no leste do Congo, o segundo maior já registrado, está agora fora de controle. Apesar de algum sucesso precoce, a doença voltou a aparecer nos últimos três meses. Esforços para combater a epidemia foram prejudicados por ataques a centros de tratamento e profissionais de saúde; profunda desconfiança do governo, que está administrando os esforços de erradicação; e crescente desconfiança dos especialistas médicos internacionais que lutaram para conduzir os pacientes para os centros de tratamento.

Quando um médico foi morto e os centros de tratamento foram atacados por homens armados ou incendiados, os profissionais de saúde suspenderam seu trabalho. Alguns grupos retiraram vários de seus funcionários. Em meados de maio, quase 1.150 pessoas morreram, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).  Mas esse é um número inferior à realidade, disseram grupos de ajuda.

Quando o surto foi descoberto no ano passado, os profissionais de saúde tinham motivos para se preocupar. Esta parte do leste do Congo tem sido cercada por grupos armados que lutam por terras, recursos naturais, etnia e religião - incluindo uma organização ligada ao Estado Islâmico.

No entanto, o otimismo foi forte entre a onda de especialistas em saúde e trabalhadores humanitários que chegavam, muitos dos quais tinham experiência no tratamento do Ebola, uma doença frequentemente fatal causada por um vírus que é transmitido por fluidos corporais.

Eles vieram com as lições aprendidas do surto que devastou a África Ocidental a partir de 2013, matando mais de 11 mil pessoas. E foram impulsionados por um sucesso recente: a contenção de um surto no oeste do Congo. Também trouxeram avanços médicos: uma vacina notavelmente eficaz, tratamentos experimentais e um recipiente transparente conhecido como o “cubo” em que os pacientes vivem, reduzindo os riscos de transmissão.

O surto ocorreu em uma das regiões mais populosas do Congo e perto das fronteiras de três países - Ruanda, Uganda e Sudão do Sul. E enquanto o Congo já registrou nove surtos anteriores de Ebola, a doença nunca havia sido detectada na região até que apareceu no ano passado em uma cidade chamada Mangina.

No fim do verão, ele havia viajado por uma estrada de terra até Beni, cidade de cerca de 350 mil habitantes que se recuperava de massacres com facões que mataram cerca de 800 pessoas nos últimos anos. Alguns políticos locais sugeriram que o governo havia importado a doença. Nesta região independente, apenas 2% dos entrevistados disseram que confiavam no governo nacional em Kinshasa, a 1.600 quilômetros de distância.

“Cientificamente, eu não acredito que seja possível primeiro ter o assassinato de pessoas em Beni, e agora esta doença sem elas estarem relacionadas”, disse Crispin Mbindule Mitondo, um membro da Assembleia Nacional, em declarações transmitidas pela rádio local e Whatsapp.

O Ebola apareceu bem à frente de uma eleição nacional apertada que estava se preparando para ser a primeira transferência de poder por meio do voto no Congo desde a independência em 1960. Mas Kinshasa suspendeu a votação em áreas afetadas pelo Ebola em dezembro, dizendo que os locais de votação podiam espalhar a doença.

Esta área também era um reduto da oposição. Assim, para muitos, o anúncio confirmou a suspeita de que o Ebola era parte de um complô, administrado por Kinshasa, para impedir que o povo votasse. Um dia após o cancelamento da votação, manifestantes colocaram fogo em um centro de triagem de Ebola em Beni.

"Quando eles cancelaram as eleições, foi um desastre para nós", disse Emmanuel Massart, da organização internacional Médicos Sem Fronteiras. Além da suspeita, as equipes de vacinação viajaram com policiais armados ou escoltas militares. Isso fez parecer que a resposta ao Ebola foi uma extensão de um governo nacional impopular. E policiais e soldados que acompanham equipes abriram fogo durante confrontos com membros da família de luto, de acordo com entrevistas.

Quando a doença se espalhou para Butembo, cidade de cerca de um milhão de habitantes, os pacientes que tinham Ebola resistiram a ir aos centros de tratamento, vendo-os como um lugar para morrer em vez de serem curados. Outros pacientes que foram ver seus médicos com sintomas comuns, como dores de cabeça, foram forçados a entrar em centros de quarentena, e aguardar testes.

Em fevereiro, um centro de tratamento para Ebola - desta vez em Katwa, uma área remota de Butembo e administrada pelos Médicos Sem Fronteiras - também foi incendiado. Muitos dos pacientes fugiram durante a noite. Alguns dos que estavam doentes demais para fugir foram transferidos para um centro de tratamento próximo - que por sua vez foi atacado.

Nos dias que se seguiram, a reação foi paralisada no epicentro do surto. Os Médicos Sem Fronteiras deixaram a cidade. Quando o trabalho foi retomado, o número de infectados começou a subir - um padrão que se repetiria. Por enquanto, o surto está confinado em uma única região, em grande parte graças à vacina, dizem os médicos. Mais de 110 mil pessoas foram vacinadas, incluindo as equipes à linha de frente, o que retardou a disseminação.

Autoridades no leste do Congo disseram em 4 de junho que pelo menos 13 civis foram mortos depois que rebeldes lançaram um ataque em Beni. “Podemos parar a epidemia? Certamente nós podemos”, disse Mike Ryan, diretor do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde. Mas para fazer isso uma solução política que reduza a violência é necessária primeiro./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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