Hayam Adel/Reuters
Hayam Adel/Reuters

No Egito, intervenção do Estado chega às telenovelas

Para o governo de Sisi, as medidas repressivas representam a retomada de 'princípios positivos' que teriam se perdido nas produções atuais

Declan Walsh, The New York Times

10 de abril de 2019 | 06h00

CAIRO - Todos os anos, durante o mês sagrado do Ramadã, os egípcios se reúnem ao redor da televisão para se empanturrarem de minisséries com grandes produções, estreladas pelos principais atores do país, de melodramas chorosos e policiais a épicos históricos.

Mas a safra de programas que atualmente está sendo produzida para o Ramadã deve obedecer a sufocantes controles. Agora, prepostos do presidente Abdel Fattah el-Sisi ditam os roteiros e contêm os salários, informam diretores e atores. Uma companhia de produção ligada aos militares assumiu alguns dos maiores programas, e os realizadores foram instruídos a se ater a temas previamente aprovados, como elogiar o exército e a polícia. Os que não atenderem às normas não irão ao ar.

"Para Sisi, isso não diz respeito apenas à política ou ao poder", afirmou Ezzedine Choukri Fishere, escritor e ex-diplomata cujos romances foram adaptados em seriados de televisão. "Ele quer reeducar o público egípcio".

A repressão às novelas faz parte da campanha cultural de um tipo amplo e abrangente de autoritarismo que criou raízes sob el-Sisi e atinge novos níveis, inclusive para o país que foi governado durante dezenas de anos por autocratas respaldados por militares.

"Francamente, eu me sentiria mais seguro falando de política em Damasco do que no Cairo", disse Yezid Sayigh, um pesquisador do Carnegie Middle East Center em Beirute. A autocracia personalista de el-Sisi, seguindo ele, "tenta dominar o espaço público de maneira tão completa que ninguém ousa dizer, mesmo nos círculos privados, algo que possa ser considerado dissidência por aqueles que estão no poder".

As entrevistas na TV, onde outrora se travavam debates acalorados, tornaram-se tão previsivelmente favoráveis ao governo que muitos egípcios preferem desligar os aparelhos. O Ministério do Interior, antes reduto da orgulhosa tradição diplomática do Egito, hoje é considerado uma força muito enfraquecida. E agora vêm as novelas.

El-Sisi começou a interferir em sua produção em 2017, com um discurso em que elogiou os "princípios positivos" dos antigos programas de TV realizados pelo Estado e criticou as produções recentes. Nos anos seguintes, as autoridades começaram a pressionar cineastas por meio da censura, submetendo-os a uma pressão silenciosa. 

Nesta temporada, entretanto, a interferência criou uma crise no setor. Um diretor afirma que, faltando menos de um mês para o Ramadã, o número de minisséries atualmente em produção foi cortado pela metade.

A Egyptian Media Group, companhia ligada ao Serviço Geral de Inteligência, criou a produtora de TV dominante e adquiriu várias das principais redes televisivas, aponta o Mada Masr, um dos últimos canais independentes de notícias que restam no Egito. Um dos principais diretores, que pediu para não ser identificado, contou que os autores dos roteiros receberam ordens para obedecer a determinadas diretrizes: enaltecer o exército, atacar a Irmandade Muçulmana e  promover os valores conservadores da família que encorajam os jovens egípcios a obedecer aos mais velhos.

Os defensores de el-Sisi declaram que o Egito necessita de um líder forte para proteger o país do caos que engoliu a Líbia, a Síria e o Iêmen, bem como adotar reformas econômicas há muito imprescindíveis. A estabilidade do Egito contribuiu para um aumento de 16% do turismo no ano passado, e o setor de energia está florescendo.

De acordo com Yezid Sayigh, presidir um sistema hierárquico tão rigoroso e que afastou tantos setores da sociedade poderá contribuir para tornar el-Sisi vulnerável no dia em que seu regime sofrer um choque imprevisto. "Sisi e o exército se colocaram em uma situação complexa ao destruir todos aqueles com os quais poderiam falar", explicou. "Quando chegar o dia em que eles precisarem de outros no governo ou nos negócios, talvez não encontrem ninguém para apoiá-los". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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