Chang w. lee/The New York Times
Chang w. lee/The New York Times
Patricia Mazzei, The New York Times

26 de julho de 2019 | 06h00

Vista de uma altitude de seis mil metros, a tempestade era um redemoinho cinza salpicado de manchas escuras, com tentáculos bagunçados se espalhando sobre a água em todas as direções. Os caçadores de furacão tinham chegado ao coração do Furação Barry, que naquele momento, 11 de julho, era uma tempestade tropical, e o centro parecia inacabado. “Está tudo uma bagunça", declarou Paul D. Reasor, um dos meteorologistas apinhados na cabine para observar.

Nenhuma das pessoas a bordo imaginou que estaríamos voando agora - não em julho, tão no início dos seis meses da temporada de furacões do Atlântico. Mas o Furacão Barry tinha se formado de maneira incomum, como área de turbulência descendo do Sul dos Estados Unidos para o Golfo do México, onde águas mais quentes de verão tinham estimulado seu desenvolvimento. Os caçadores de furacão da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), com sede na Flórida, e seus colegas partiram em busca de imagens que traçassem um quadro do interior da tempestade.

Embora a previsão fosse de que o Furacão Barry chegasse ao continente em algum ponto da Louisiana como tempestade de categoria 1 em 13 de julho, ele ainda não era um furacão. Isso tornava ainda mais importante o seu estudo por parte dos pesquisadores. Seus modelos previam que a tempestade ganharia intensidade mais rapidamente, mas isso não tinha ocorrido. Eles queriam saber por quê. Os pilotos apontaram o nariz do avião diretamente para o caótico centro. Um alarme soou: apertem os cintos. “Colegas", alertou Mike Holmes, diretor do voo, “vamos passar por uma parte turbulenta agora".

Os aviões usados pela NOAA, dois Lockheed WP-3D Orions apelidados com o nome dos personagens dos Muppets, Kermit [Caco,o Sapo] e Miss Piggy, são sofisticados laboratórios de pesquisa voadores que lançam sondas e coletam dados em tempo real que são fundamentais para entendermos os furacões em todo o planeta. É especialmente importante coletar dados de sistemas climáticos como o Barry, que contradizem as previsões: as tempestades mais incomuns podem ser aquelas que rendem mais para a pesquisa. “Para mim, as tempestades desse tipo são mais desafiadoras que as tradicionais", disse Holmes. “Prefiro quando a tempestade está se formando organizadamente ou enfraquecendo”.

Seriam necessárias oito horas de trabalho para que os 14 membros da tribulação do Voo 42 da NOAA pesquisassem o furacão Barry. Teriam de cruzar a tempestade no que chamam de padrão borboleta. Os três pilotos e dois engenheiros de voo trabalhavam em turnos, fazendo pausas no fundo da aeronave. A tripulação lançou sondas de medição em determinados pontos ao redor da tempestade, no centro e em pontos intermediários.

Um único voo não seria suficiente para solucionar o mistério da tempestade que não se desenvolveu de acordo com o esperado. Mas os dados coletados em tempo real chegaram ao Centro Nacional de Furacões antes do próximo boletim meteorológico. Depois que pousassem, os cientistas poderiam inserir os dados em seus modelos para torná-los mais precisos.

Por enquanto, a conclusão era a seguinte: ao norte do Furacão Barry havia ar seco, e a tempestade tinha dificuldade em se organizar. Ao sul, havia a metade inferior de um sistema completo - e muito carregado. “É como observar a história de duas tempestades diferentes", comparou o meteorologista Robert F. Rogers, que participou do voo.

Durante algum tempo, o rádio captou a comunicação de tráfego aéreo dos voos comerciais vizinhos. Mas, conforme o Voo 42 se aproximava do coração da tempestade, o ruído cessou. Em poucos momentos, a chuva estava por toda parte. Então veio o vento. Uma rajada atingiu o avião em cheio, jogando-o para os lados. O vendo os empurrava para cima, fazendo os passageiros se sentirem pesados, e depois para baixo, fazendo com que se sentissem leves. Kermit [Caco, o Sapo] sacudiu inteiro.

Pelo rádio, Holmes pediu desculpas e analisou o radar. “Queria enxergar uma luz no fim do túnel, mas a turbulência não para de aumentar!”, calculou. “Segure firme, pessoal. O agito só vai ficar mais intenso”. Finalmente, após 90 minutos de tensão, uma pausa. O aviso de cintos apertados se apagou. Os passageiros suspiraram fundo. “Quando as pessoas me pedem para descrever a sensação, digo a elas, ‘Coloque sua câmera GoPro filmando na lava-louças, e depois assista’”, sugeriu o comandante Nathan Kahn, um dos pilotos. 

Durante algumas horas, eles trabalharam em relativa calma, apertando os olhos para enxergar os pequenos números e indicadores coloridos na tela do computador que ajudariam as cidades abaixo a se preparar para a chegada do fenômeno. Então, chegou o momento de voltar para o sul, para a turbulência pesada. Na cabine, os pilotos sentiram o impacto do vento cruzado. “Vamos, Barry, não seja assim", disse um deles. E eles voltaram para o olho do furacão./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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