Rodolfo Buhrer/Reuters
Rodolfo Buhrer/Reuters

No governo Bolsonaro, a educação sob constantes ataques 

Cortes de verbas atingem todos os níveis de ensino, do básico ao superior. Há congelamento de recursos, principalmente, para pesquisa nas áreas de mestrado e doutorado 

Vanessa Barbara, The New York Times

29 de junho de 2019 | 06h00

SÃO PAULO -  Segundo o presidente Jair Bolsonaro (PSL), a educação brasileira deixa muito a desejar. “As coisas estão indo cada vez mais morro abaixo”, afirmou a jornalistas durante uma viagem a Dallas, no Texas, em maio. “O que nós queremos é salvar a educação”.

Aparentemente, uma coisa bastante razoável para se dizer, se Bolsonaro, por exemplo, estivesse anunciando um novo plano para a educação ou um aumento substancial de gastos para as escolas públicas. Ao contrário, ele se referia a um “congelamento” de US$ 1,5 bilhão do orçamento destinado à educação. O governo insiste em chamá-lo congelamento, quando na realidade é um corte; em teoria, estes recursos estarão disponíveis quando a economia se recuperar.

O corte equivale a 30% das verbas discricionárias (não obrigatórias) destinadas ao pagamento das contas de serviços públicos, ensino, limpeza, manutenção e segurança, entre outras coisas, em todas as universidades federais. O seu efeito palpável poderá ser sentido logo. Uma das mais antigas universidades do país, a Universidade Federal do Paraná, terá de fechar as portas daqui a apenas 100 dias por não ter condições de arcar com o pagamento das contas de água e luz. O governo congelou também todas as verbas futuras destinadas à pesquisa nas áreas de mestrado e doutorado.

O corte não se limita à educação superior: os recursos para o segundo grau, educação fundamental e até as creches foram afetados. Mas a situação é mais desesperadora nas universidades federais - instituições que, nas últimas décadas, alcançaram uma posição respeitável na educação brasileira, oferecendo cursos de grande qualidade e gratuitos a mais de um milhão de estudantes. O primeiro passo do plano de recuperação de Bolsonaro, em outras palavras, é jogar no mar os poucos sobreviventes.

Mas este é apenas um exemplo da lógica absurda do presidente. Na mesma ocasião em Dallas, perguntaram a Bolsonaro a respeito das dezenas de milhares de brasileiros, muitos deles estudantes, que se manifestaram contra os cortes na educação. Ele os chamou de “idiotas úteis e imbecis”, acrescentando que não têm nada na cabeça. “Se perguntar a eles qual é a fórmula da água, não vão saber responder”. Isto, dito por um homem que certa vez confessou nunca ter lido um romance na vida. 

A bem da verdade, o hoje presidente falou isto em uma entrevista 29 anos atrás, depois de ser eleito deputado federal. Este mesmo homem declarou também, depois de uma visita ao memorial do Holocausto de Israel, que o nazismo foi um movimento de esquerda porque o partido nazista tem a palavra “socialismo” no nome.

Para Bolsonaro, assim como para muitos líderes políticos dos dias de hoje, “imbecil” é todo pensador que não é prático. O grupo inclui todo tipo de idealistas - socialistas, ambientalistas, pacifistas - e também os que têm ocupações que não produzem nada de concreto ou lucrativo, como professores de ciências humanas e artistas. Em abril, o presidente tuitou que o governo estudava a possibilidade de retirar as verbas públicas dos cursos de filosofia e sociologia. O que ele pretende é concentrar os gastos em áreas  que criam “retornos imediatos para o contribuinte”, como ciência veterinária, engenharia e medicina.

Este menosprezo pelas ciências humanas é um erro crasso. Se alguém precisa de cursos básicos de filosofia e retórica, é o presidente, que, diante dos repórteres, parece incapaz de articular um mínimo de raciocínio. Muitas vezes, ele responde às perguntas com clichês banais e arbitrários, na maneira confusa de alguém que está lendo o texto em um teleprompter distante e borrado. Ou invoca um trecho da Bíblia. “Vós conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” é o seu favorito. Ou com alguma banalidade inoportuna, que não tem nada a ver com a questão que está sendo tratada (a de que o estado do Texas não arrecada impostos é outra). Quando todos os seus recursos falham, ele desmerece a pergunta, o veículo de comunicação e até o jornalista.

Qual é a formação deste homem, pode-se perguntar. Em 1977, ele se formou na Academia Militar das Agulhas Negras, que oferece “uma sólida formação em ciências exatas, com uma complexidade semelhante à de um curso de engenharia”, segundo uma página do site oficial do governo. Entretanto, o atual currículo da Academia para uma tese recente de mestrado não inclui cursos de física ou cálculo matemático. O que inclui são muitas horas de filosofia, sociologia, direito, geopolítica, psicologia e história militar. 

Quando critica as ciências humanas, o presidente desautoriza as disciplinas que são parte integrante da sua própria educação em ciências militares. Bolsonaro também se formou em educação física na Escola de Educação Física do Exército, e posteriormente se tornou mestre de paraquedismo, da brigada de paraquedistas do Rio de Janeiro. “Ele se formou em primeiro lugar em uma classe de 45 alunos da escola de Educação Física do Exército, e também em primeiro lugar no curso autônomo de mergulhador oferecido pelo Grupo de Buscas e Resgate do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro”, diz a página do site.

Mas o presidente prefere enfatizar a formação prática que recebeu na Academia em contraposição àquelas aulas inúteis de ética ou a todo aquele absurdo sobre direito penal militar. Em uma transmissão ao vivo do Facebook, em abril, Bolsonaro elogiou um curso de mecânico para conserto de refrigeradores e de TVs que ele fez quando era tenente do exército. “Se eu praticasse essa profissão naquela época, hoje ganharia mais - muito mais - do que gente com diploma universitário”.

O  ministro da Educação concordou, acrescentando que o objetivo fundamental do governo é ensinar às crianças os conhecimentos básicos, como Lee, escrever e fazer contas. Mais tarde, elas aprenderão uma ocupação que permita ao estudante ganhar uma renda. Chega de filosofia, sociologia, literatura e ciências humanas. Quem precisa raciocinar quando, sem elas, as nossas crianças podem crescer e se tornarem futuros presidentes do Brasil?

Vanessa Barbara é a editora do site literário ‘A Hortaliça’, e autora de dois romances e dois livros de não ficção em português. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.