Emilio Parra Doiztua / The New York Times
Emilio Parra Doiztua / The New York Times

No Instagram, funcionários do Museu do Prado apresentam obras do acervo

Os vídeos, gravados com celular e pau de selfie, atraíram um número crescente de seguidores internacionais, com quase 100 mil espectadores diários

Doreen Carvajal, The New York Times

05 de abril de 2020 | 06h00

MADRI - Manolo Osuna não tem educação artística formal, mas passou anos circulando pelas galerias do Museu do Prado como guarda e líder de uma brigada de sete pessoas que transportam tesouros nacionais de mestres espanhóis como Velázquez e Goya por todo o edifício.

Nesse cenário familiar, Osuna, de 56 anos, emergiu de seu papel invisível no museu para se tornar um improvável crítico de arte numa série de vídeos de Instagram que virou um sucesso. Os vídeos, gravados com celular e pau de selfie, atraíram um número crescente de seguidores internacionais, com quase 100 mil espectadores diários, fascinados pelo tranquilo passeio pelo museu nacional da Espanha. Embora o Prado esteja fechado no momento, o museu continuou postando vídeos que foram gravados antes de o país ser fechado pelo esforço de combate ao coronavírus.

Os vídeos apresentam especialistas em arte, bem como homens e mulheres que guardam as galerias, que restauram pinturas de Goya ou analisam pigmentos medievais no laboratório do museu. Abi Godfrey, gerente de serviço do Museu Holburne de Bath, Inglaterra, disse: “É ótimo que o Prado esteja homenageando seus funcionários dessa maneira. É um exemplo para os outros museus”.

O criador da série de Instagram do Prado é Javier Sainz de los Terreros, de 37 anos, que nunca aparece na câmera, mas cuja voz suave e anônima guia os espectadores pelas galerias. Em 2019, Sainz de los Terreros começou a filmar as obras do museu sem nenhuma narração, e cada vídeo ficava no Instagram por apenas 24 horas. Mas os seguidores pediram mais, então ele criou a série de vídeos permanentes agora disponíveis online.

Os vídeos geralmente mostram o minucioso trabalho de funcionários como Elisa Mora, especialista em restauração que está no Prado há 37 anos e acabou de começar a restaurar um retrato da condessa de Chinchón, de Goya, comprado pelo Prado em 2000. De pé junto ao retrato num estúdio bagunçado, ela mostra reparos antigos na parte de trás da pintura e explica um raio-X que revelou que Goya realmente havia pintado o rosto de um homem, que depois ele apagou, cobrindo-o com as dobras prateadas do vestido da mulher.

Quanto tempo durará a restauração? Talvez sete meses ou mais, ela diz. Mais de 99 mil pessoas assistiram ao vídeo de Mora no Instagram e 260 mil no Facebook. Muitos comentários elogiaram a breve lição sobre o processo de restauração. A maioria dos vídeos está em espanhol, sem legendas, mas o museu vem trabalhando para fazer vídeos em inglês.

Cerca de 30% das visualizações vêm da Espanha. O resto se espalha internacionalmente, com a Itália e os Estados Unidos logo atrás. Museus em Málaga e Veneza seguiram conselhos do Prado para criar seus próprios vídeos ao vivo no Instagram, de acordo com Sainz de los Terreros.

Osuna, que apareceu em alguns vídeos, disse estar satisfeito com a reação positiva de visitantes do México e da América do Sul e de espectadores que não podem visitar o museu pessoalmente. Ele não sabia que mais de 50 mil pessoas haviam assistido à sua apresentação de seu quadro favorito de Jusepe de Ribera.

Ele chama o filósofo retratado de “companheiro” – e diz ter um vínculo especial com o homem sorridente por causa de suas mãos, cansadas por anos de trabalho. “O mais bonito é que as pessoas aprendem sobre os trabalhos que realizamos aqui, sobre os quais ninguém sabia nada”, disse Osuna. “E elas aprendem sobre nossos desafios e dificuldades”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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