Arash Khamooshi para The New York Times
Arash Khamooshi para The New York Times

No Irã, sanções trazem de volta repressão contra dissidentes

Teerã continua interferindo nos vizinhos enquanto sua economia piora

Thomas Erdbrink, The New York Times

04 Julho 2018 | 15h00

TEERÃ - O presidente americano Donald J. Trump diz que sua decisão de abandonar o acordo nuclear está causando um grande impacto no Irã. Os iranianos dizem que ele tem razão, mas pelas razões erradas.

Trump disse que o Irã está mudando seu comportamento na região, implicando que os líderes do país teriam sido repreendidos ou amedrontados pela jogada dos Estados Unidos. Mas analistas dizem que pouco mudou na posição regional do Irã. O verdadeiro impacto foi sentido na política interna, com a repressão às mais insignificantes demonstrações de dissidência, e na economia.

“Estava em andamento no Irã um importante processo econômico e político", disse Mirzababa Motaharinezhad, porta-voz do grupo político moderado Mardomsalary. “Infelizmente, quando Trump recuou do acordo, a abertura chegou ao fim aqui, e a repressão aos ativistas foi retomada.”

Na região, a situação parece pouco alterada. Na Síria, onde o Irã desempenhou um papel crucial para manter no poder o presidente Bashar al-Assad, três soldados iranianos foram mortos em combates em junho.

“Trump se ilude ao pensar que, com a saída dele do acordo nuclear, seríamos obrigados a mudar nosso comportamento na Síria, Iêmen, Iraque, Líbano e Palestina", disse Hossein Sheikholeslam, conselheiro especial do ministro das relações exteriores do Irã. “Não faremos isso. Se um dia mudarmos nossas políticas, isso não será decorrência de nada que seja dito ou feito por Trump ou qualquer outra pessoa na Casa Branca, nem em qualquer outro lugar.”

Nos becos dos bazares de Teerã e nas concessionárias de automóveis da abastada região norte da cidade, o recuo de Trump em relação ao acordo nuclear ampliou as preocupações econômicas.

No final de junho, manifestantes se reuniram diante do parlamento em Teerã para protestar contra a situação econômica, e a polícia usou gás lacrimogêneo para dispersá-los. O Grande Bazar teve de fechar as portas por causa das manifestações.

A economia do Irã já estava em má situação. Em menos de doze meses, o rial, moeda iraniana, teve desvalorização de 50% em relação ao dólar. Isso levou a um aumento acentuado nos preços dos produtos importados. Na tentativa de proteger suas poupanças, muitos estão comprando imóveis, ouro e carros, o que leva a um aumento nos preços desses bens.

“Tornou-se quase impossível encontrar um lugar seguro para o dinheiro que poupei", disse Asgar Kouhpaee, 55 anos, atacadista de ovos. Ele disse que sempre investiu a poupança em carros, mas, este ano, deixou passar a oportunidade. Um Toyota RAV4, modelo de SUV intermediário vendido em agosto por US$ 68 mil custa agora cerca de US$ 100 mil.

Muitos parecem culpar seus próprios líderes pela situação, e não o presidente Trump ou alguma outra força externa.

“Mesmo se o acordo nuclear fosse completamente implementado, todo o dinheiro chegasse até aqui e o sistema bancário não estivesse sob sanções, a incompetência administrativa do país teria desperdiçado a renda do petróleo e outras transações", disse Reza Khandan, marido de Nasrin Sotoudeh, conhecida advogada defensora dos direitos humanos que foi detida em junho.

Recentemente, as autoridades iranianas foram surpreendidas quando uma publicação feita no Instagram por um antigo astro do futebol do país, Ali Karimi, pedindo um boicote dos consumidores, foi compartilhada 800 mil vezes. Ele foi imediatamente trazido para os tribunais. Seu caso está sendo analisado.

As autoridades judiciais também aumentaram a pressão contra os dissidentes, principalmente com a prisão de Nasrin Sotoudeh.

Em discurso, o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, insistiu que tudo estava bem. “As pessoas estão de olhos abertos", disse ele. “Estão motivadas e nem um pouco cansadas.”

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