Andres DiCenzo para The New York Times
Andres DiCenzo para The New York Times

No Japão, um mercado de trabalho agressivo contra as mães

Embora necessárias para aquecer a economia japonesa, mulheres ainda enfrentam questões culturais que as afastam dos empregos após o casamento e a maternidade

Motoko Rich, The New York Times

20 de junho de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Desde muito jovem, o sonho de Erika Takato era trabalhar com crianças pequenas. Formou-se em educação infantil e começou sua carreira em uma profissão da maior importância para o Japão: o ensino na pré-escola. Até que engravidou e começou a ser perseguida no emprego.

Algumas semanas antes do parto, ela pediu uma licença para descansar, conforme o médico ordenara. Mas ela disse que seu chefe questionou seu estado e disse que as mulheres da pré-escola costumam demitir-se antes de dar à luz. Erika ficou chocada. Mas sentindo-se perseguida pelo chefe e assediada pelas colegas professoras, deixou o emprego. “Fiquei tão arrasada que perdi a esperança de estar apta para trabalhar”, contou.

O governo pretende aumentar o número de mulheres na força de trabalho na tentativa de reanimar a economia e preencher os empregos que vão ficando vagos com o declínio da população. As mulheres atenderam à solicitação. Mas mesmo com a menor taxa de natalidade dos últimos cem anos, o país tem dificuldade para criar um número suficiente de creches para as mães que voltam ao trabalho.

Pelo menos 20 mil bebês e crianças pequenas se encontram em listas de espera para uma vaga nas creches subsidiadas pelo governo, e as autoridades afirmam que será preciso criar centenas de milhares de outras. Entretanto, sindicalistas e antigas professoras afirmam que, além das longas horas de trabalho e do salário baixo, as funcionárias das creches frequentemente são pressionadas ou mesmo forçadas a abandonar a profissão pelo fato de terem filhos.

Segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, as queixas contra os empregadores por humilharem as mulheres ou convencê-las a demitir-se porque casaram, estão grávidas ou acabaram de dar à luz, aumentaram mais de 20% nos últimos dez anos. Com horários punitivos e a perspectiva de trabalhar  até altas horas à noite, a cultura do trabalho do Japão pode ser particularmente adversa para as mães.

“Quando uma mulher engravida e dá à luz, fica impossibilitada de trabalhar como quando era solteira ou como os homens”, disse a advogada Yumi Hasegawa. “É por isso que as empresas pensam: ‘Nós não queremos este tipo de trabalhadoras’, e isto leva a buscar a maternidade”.

Em Tóquio, muitas mães começam  a procurar creches antes de dar à luz. “As quatro atividades mais competitivas na vida”, disse Mikiko Eto, a diretora da Hatto Nursery School em Tóquio, “são os vestibulares para a universidade, conseguir um emprego, encontrar marido - e garantir uma vaga em uma creche”.

Há gerações, as mulheres japonesas têm de deixar seus empregos depois de se casar ou de ter filhos. Segundo um estudo da Brookings Institution, em 2017, 72% das mulheres casadas entre os 25 e os 54 anos de idade trabalhavam no Japão, em comparação com 58% em 2000.

O primeiro-ministro Shinzo Abe, que assumiu o cargo em 2012, prometeu ajudar as mães a voltarem para o emprego reduzindo as filas de espera nas creches. Desde 2013, as prefeituras criaram mais 535.500 vagas nas creches públicas, e o governo de Abe recentemente determinou que a maioria das escolinhas para crianças dos três aos cinco anos seja gratuita. O governo quer aumentar a porcentagem de mulheres que trabalham para 80%. Para tornar isto possível, diz que deverá criar mais 320 mil vagas em escolinhas públicas subsidiadas até o início de 2021, exigindo a contratação de mais 77 mil professoras.

Na ânsia de aumentar as vagas, algumas prefeituras baixaram o padrão. Várias crianças morreram em escolinhas particulares. Além disso, a visão cultural tradicional da maternidade está atrasada em relação à realidade do emprego. E, enquanto nas gerações anteriores as avós moravam com os netos e ajudavam a criá-los, esses modelos de famílias são muito menos comuns hoje em dia.

Depois que um blog viralizou, três anos atrás, com o apelo de uma mãe anônima - “Não consegui uma creche - morre Japão!!!” - o prefeito de uma região de Tóquio escarneceu publicamente desta preocupação afirmando que cuidar dos filhos “é responsabilidade dos pais”.

Erika, a professora da creche que abandonou o emprego, disse que estuda a possibilidade de voltar a ensinar. Mas não sabe se hoje isto será possível porque seu marido tem um expediente muito longo. “Embora sejamos professoras qualificadas, e embora nos dissessem na escola que o nosso emprego seria garantido, isto quase sempre é um mito”, afirmou. “Na realidade, sendo mãe, é realmente impossível”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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