Mauricio Lima para The New York Times
Mauricio Lima para The New York Times

No México, a negociação de um muro sempre presente

Para uns, atravessá-lo é parte de uma jornada diária; para outros, é um caminho de esperança

Elisabeth Malkin, The New York Times

16 de dezembro de 2018 | 06h00

TIJUANA, MÉXICO - Um vizinho de Esther Arias está erguendo uma nova cerca (muito alta), e a construção está gerando certo desgaste. “Desculpe a bagunça", disse ela, indicando com um gesto as sobras de metal espalhadas no seu pátio dos fundos, resquícios da antiga cerca do vizinho.

Esther não parecia muito incomodada com a movimentação, mas, mesmo que quisesse protestar, não haveria muito o que fazer. Ela vive bem na fronteira, em Tijuana, México, e seu vizinho é muito poderoso: trata-se do governo dos Estados Unidos.

Tijuana fica localizada bem na linha traçada em 1848 separando México e Califórnia. O perímetro urbano da cidade se estende atualmente por 24 quilômetros a leste do Oceano Pacífico, até um ponto em que as últimas casas parecem espalhadas entre as moitas do deserto. Ali, o muro da fronteira é interrompido pelas montanhas.

Das casas situadas na fronteira, aquela onde Esther, 52 anos, criou os cinco filhos é uma das mais próximas da barreira. A cerca dos EUA é também a cerca dos fundos da casa dela. Durante muito tempo, a barreira era apenas parte da paisagem, consistindo apenas em postes unidos pelo arame farpado, mesmo nos seus pontos mais formidáveis. 

Então, no início dos anos 1990, os EUA usaram antigas peças de aço de heliportos para construir um muro. Com o passar dos anos, outra cerca foi erguida atrás dessa e, entre as duas camadas, há câmeras, sensores e holofotes.

Este ano, a agência que supervisiona a fronteira começou a substituir o muro. Os novos trechos, com altura que varia de cinco a nove metros, são construídos com postes de aço revestidos com uma placa de aço.

Mas, quando perguntamos à maioria dos moradores de Tijuana a respeito do muro, ou “la línea", a reação mais comum é a indiferença. O cotidiano não é definido tanto pelo muro quanto pelo fluxo do movimento que o atravessa. Até 150 mil pessoas viajam diariamente para o norte rumo a San Diego passando por dois pontos de travessia.

Trata-se de um ritual diário para muitos que são cidadãos americanos ou têm vistos. “Para mim, é algo normal”, disse Asheila Ramírez, 40 anos, que vive entre a casa da mãe, em Tijuana, e a casa da tia, em Chula Vista, Califórnia, onde trabalha como faxineira e motorista do Über.

Faz décadas que o sonho de encontrar o caminho que leva aos EUA atrai para a cidade pessoas de toda a América Central e do México. Algumas esperam conseguir asilo ou outra forma de entrada legítima; muitos tentarão cruzar a fronteira ilegalmente. A chegada recente de mais de 6 mil imigrantes centro-americanos viajando numa caravana chamou a atenção da mídia. 

Em novembro, centenas tentaram cruzar a fronteira em massa. A polícia federal mexicana montou um bloqueio na fronteira com os EUA enquanto agentes da guarda americana dispararam gás lacrimogêneo de trás da parede.

Mas a travessia ilegal é, acima de tudo, uma operação furtiva. Num dia recente, contrabandistas usavam escadas improvisadas para transportar imigrantes vindos de ambos os lados ao cair da noite. Com a aproximação de uma viatura de patrulha, um contrabandista que estava entre os muros subiu correndo uma escada e voltou para o lado mexicano. Um policial removeu as escadas abandonadas, mas todos sabiam que estas logo seriam substituídas.

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