Edgard Garrido/Reuters
Edgard Garrido/Reuters

No México, combate à corrupção ainda é tímido e enfurece cidadãos

Desconfiados do governo de López Obrador, cerca de 6 mil manifestantes foram às ruas pedir a renúncia do presidente

Azam Ahmed e Kirk Semple, The New York Times

16 de maio de 2019 | 06h00

CIDADE DO MÉXICO - Depois de conquistar uma generosa vitória nas urnas no ano passado, o presidente Andrés Manuel López Obrador prometeu uma impressionante transformação para o México - comparável à independência em relação à Espanha e à Revolução Mexicana. Mas, cinco meses após sua posse, o novo México que ele está construindo parece cada vez mais com o velho México que ele prometeu deixar para trás.

O combate à corrupção foi um dos principais pontos da campanha de López Obrador, um flagelo nacional que ele prometeu encerrar. Mas seu governo não anunciou nenhum processo contra autoridades públicas nem outras figuras importantes por envolvimento em casos de corrupção. E, nos seus três primeiros meses, seu governo fechou mais de 70% dos contratos de fornecimento sem licitação, de acordo com o grupo Mexicanos Contra a Corrupção.

Em relação à segurança, outro tema fundamental, ele prometeu tirar as forças armadas das ruas, desmontando uma polêmica estratégia de combate ao crime que levou a abusos dos direitos humanos. Mas, em vez disso, López Obrador acabou garantindo o papel do exército na segurança doméstica, enquanto os homicídios seguem aumentando, atualmente no nível mais alto em duas décadas.

Em se tratando da imigração, López Obrador começou seu mandato abrindo os braços para os imigrantes que rumavam para o norte, criticando a abordagem policialesca do governo anterior. Mas, mais recentemente, seu governo adotou uma posição mais dura, com mais casos de detenções e deportações de cidadãos da América Central e outros que chegam ao México. Obrador acompanhou com frequência as medidas rigorosas adotadas pelo presidente Donald J. Trump em se tratando da fronteira, temendo um confronto com seu mais importante parceiro comercial.

López Obrador alarmou muitos ao alertar que repórteres devem “se comportar bem” ou “já sabem o que vai acontecer com vocês” - uma sombria ameaça em um dos países mais perigosos para jornalistas. Pelo menos seis profissionais da categoria foram mortos depois que ele assumiu o cargo. “Além de dar um recado como esse à população, a mensagem ecoa também nos governadores e prefeitos de todo o país", disse Juan Pardinas, diretor do jornal Reforma, um dos alvos do presidente. “Ataques desse tipo têm repercussões distantes.”

No início de maio, cerca de 6 mil manifestantes foram às ruas pedir a renúncia de López Obrador, frustrados com sua linguagem polarizadora e desconfiados de seu governo. Ainda assim, pesquisas de opinião recentes indicam que ele é aprovado por mais de 60% da população. Isso ocorre principalmente porque ele compreende a distância histórica existente entre os governantes do país e seu povo - e prometeu eliminá-la. Colocou o avião presidencial à venda e voa de classe executiva. Converteu o palácio presidencial em um centro cultural. Reduziu os salários mais altos do funcionalismo público e deu aumento aos salários mais baixos.

López Obrador também anunciou novos programas voltados aos pobres. Ele diz que, se forem bem-sucedidos, seus programas podem tirar 20 milhões de pessoas da pobreza ao longo dos seus seis anos de mandato - apesar das dúvidas em relação a como ele obterá recursos para todos esses programas. “Pela primeira vez em décadas, temos um presidente que fala à vasta maioria dos mexicanos, que não se sentem apenas excluídos, mas desprezados", destacou Carlos Heredia, professor assistente da CIDE, uma universidade da Cidade do México.

López Obrador conquistou muitos com sua acessibilidade, principalmente nas conferências jornalísticas transmitidas pela TV de manhã, quando ele responde a perguntas a respeito de assuntos de todo o tipo, de projetos de infraestrutura ao beisebol. Seu antecessor, Enrique Peña Nieto, realizou poucas coletivas de imprensa com perguntas durante todo o seu mandato.

É claro que ainda estamos nos primeiros meses do seu governo, e até os críticos de López Obrador reconhecem que os antigos problemas do México levam tempo para serem solucionados, independentemente do governante. Mas algumas das políticas dele parecem buscar inspiração no passado.

Os dois governos anteriores autorizaram o exército a comandar a luta contra os traficantes de drogas, mas não houve redução na violência nem no tráfico. López Obrador - conhecido por todos por suas iniciais, AMLO - prometera adotar uma abordagem diferente. Então, antes de assumir o cargo, propôs a criação de uma nova força de segurança sob comando dos militares. O governo de López Obrador diz que precisa agir imediatamente para conter a violência. 

Em termos mais amplos, afirma que seus investimentos para atacar as origens do problema - a pobreza e a falta de oportunidades - também são parte da estratégia nacional de segurança. “Ele faz afirmações grandiosas: ‘Acabou o neoliberalismo’, ‘Acabou a corrupção’”, avaliou o analista político Carlos Bravo Regidor, da Cidade do México. “Está mais preocupado em intensificar sua mensagem de mudança do que em embarcar no difícil e incerto trabalho de fazer essa mudança acontecer.” / ELISABETH MALKIN E PAULINA VILLEGAS CONTRIBUÍRAM COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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