REUTERS/Johanna Geron
REUTERS/Johanna Geron

No México, diretoras de cinema assumem a liderança

Depois de décadas lutando pelo reconhecimento concedido há muito tempo a seus pares homens, cineastas mulheres no México estão incendiando a indústria

Oscar Lopez, The New York Times - Life/Style

02 de fevereiro de 2022 | 05h00

CIDADE DO MÉXICO - Quando jovem, crescendo no México dos anos 1980, a ideia de se tornar cineasta era quase impensável para Fernanda Valadez. Além de um clube de cinema na universidade local, não havia cinemas em sua cidade natal, Guanajuato, e os filmes feitos por mulheres eram poucos e distantes entre si.

1224075“O sonho de fazer cinema era algo distante”, ela lembrou recentemente. “Crescemos com a sensação de que fazer filmes era muito difícil.”

Cerca de 30 anos depois, no entanto, esse sonho se tornou muito real. O filme de estreia de Valadez, Sin Señas Particulares, ganhou dois prêmios principais no Festival de Cinema de Sundance em 2020, e este ano ganhou melhor filme, direção e roteiro, entre outros prêmios, no Ariel, o equivalente mexicano ao Oscar.

Depois de décadas lutando por reconhecimento em uma indústria dominada por homens, cineastas como Valadez estão incendiando o cinema mexicano, não apenas lançando mais trabalhos, mas também conquistando o sucesso crítico e grandes prêmios que por muito tempo foram restritos a seus pares masculinos.

Em uma sociedade em que o machismo muitas vezes retém as mulheres e a violência de gênero é comum, a ascensão e o reconhecimento de cineastas mulheres refletem uma mudança social mais ampla provocada por um movimento feminista fortalecido no México e uma conversa urgente sobre sexismo em todo o mundo.

“Foram anos de preparação”, disse Valadez. “Mas estou muito feliz por fazer parte de uma geração de mulheres que contam histórias poderosas.”

Chegar aqui não foi fácil, nem para Valadez nem para suas colegas cineastas.

Tatiana Huezo é uma diretora salvadorenha-mexicana, que em 2017 se tornou a primeira mulher a ganhar o prêmio Ariel de direção. Seu último filme, A Noite do Fogo, que recebeu menção especial no Festival de Cannes de 2021, é o candidato mexicano ao Oscar de melhor longa-metragem internacional no Oscar 2022 e entrou na lista de finalistas para a estatueta. Se for indicada, Huezo seria a primeira mulher mexicana a concorrer ao prêmio, mesmo com compatriotas como Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro dominando os principais prêmios nos últimos tempos.

Quando Huezo era uma garotinha, sua mãe a levava ao cinema para ver filmes de arte. A diretora lembra de ter ficado encantada e às vezes assustada com os filmes de David Lynch e François Truffaut. Mas quando começou a estudar no Centro de Capacitação Cinematográfica do México, ela se viu confrontada com o sexismo.

Huezo havia se matriculado para se tornar uma diretora de fotografia, mas uma vez na escola, os diretores homens não a aceitavam em seus projetos, então ela acabou tendo que filmar e dirigir seus próprios.

"Eles diziam que 'as câmeras eram muito pesadas'", ela disse.

Valadez encontrou obstáculos semelhantes no Centro de Capacitação Cinematográfica, onde ela era uma das quatro mulheres em uma classe de 15. Ela disse que algumas alunas ouviam perguntas inadequadas, como se elas teriam filhos ou se seriam capazes de carregar os equipamentos.

“Nós, mulheres, enfrentamos mais filtros”, ela disse. “Os homens dessas gerações são educados para acreditar que o destino está em suas mãos.”

O sexismo tem sido um problema nas escolas de cinema mexicanas, disse Maricarmen de Lara, cineasta e professora feminista que foi diretora da escola de  cinema da Universidade Nacional Autônoma do México de 2015 a 2019.

A indústria era ainda pior quando ela era uma jovem estudante, com sets de filmagem governados por homens. “Eram homens que minimizavam o trabalho das mulheres e o faziam publicamente”, disse Lara, acrescentando que alguns eram violentos. “Havia alguns diretores de fotografia que nem sequer aceitavam uma fotógrafa assistente.”

Mesmo assim as mulheres ainda conseguem fazer filmes no país há décadas, disse Arantxa Luna, crítica e roteirista, apontando para Adela Sequeyro, que trabalhou como produtora e diretora nos anos 1930, e María Novaro, que junto com Lara fez parte do coletivo feminista Cine Mujer nas décadas de 1970 e 1980.

O legado do movimento cinematográfico feminista tem sido particularmente duradouro para os documentários mexicanos: entre 2010 e 2020, as mulheres dirigiram um terço dos documentários no país, em comparação com apenas 16% dos filmes de ficção.

Ainda assim, tem sido uma batalha difícil.

“Há quinze, vinte anos, no México, não havia tantas diretoras mulheres”, disse a documentarista Natalia Almada, que ganhou um prêmio de direção em Sundance em 2009. “Só o fato de estar em campo como uma mulher com uma câmera fazendo filmes já significava algo.”

Fora das câmeras, as mulheres tiveram um impacto além da direção. Por trás de alguns dos cineastas mais proeminentes do México nos últimos 20 anos também estão produtoras como Bertha Navarro, cujos créditos incluem vários dos filmes mais aclamados de del Toro, e Mónica Lozano Serrano, que foi produtora associada de Amores Brutos, de Alejandro González Iñarritu. ” Ex-presidente da academia mexicana de cinema, Lozano defendeu nos últimos anos o financiamento público ao cinema no México.

Enquanto isso, o sucesso hollywoodiano de Iñarritu, Cuarón e del Toro, apelidados de “os três amigos”, também ajudou a indústria no México, que viu um aumento na atenção e financiamento para o cinema. Almada disse que eles “atraíram uma espécie de olhar internacional para o México como um lugar onde estão sendo feitos trabalhos interessantes”.

O resultado foi uma avalanche de cinema mexicano e um aumento correspondente no número de filmes feitos por mulheres. Em 2000, Amores Brutos foi um dos 28 longas-metragens mexicanos; em 2019, foram mais de 200, segundo dados oficiais. Em 2008, apenas cinco filmes foram dirigidos por mulheres, em 2018, esse número aumentou para 47.

Enquanto isso, o Centro de Capacitação Cinematográfica, onde Valadez e Huezo estudaram, anunciou que, a partir deste ano, metade das vagas em seus cursos principais serão reservadas para mulheres.

Ainda assim, há mais trabalho a ser feito, dizem as diretoras. Dos mais de 100 longas-metragens mexicanos produzidos em 2020, quando a indústria foi afetada pela pandemia, 17% foram dirigidos por mulheres, em comparação a 20% no ano anterior e 25% em 2018.

"Ainda há um longo caminho a percorrer - ainda não é igual", disse Huezo. “E espero que cheguemos lá porque vai enriquecer muito o cinema.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.