(Ana Brigida/The New York Times
(Ana Brigida/The New York Times

No renascimento de Lisboa, o despejo forçado é um novo fenômeno 

Capital de Portugal colhe frutos e problemas de suas recentes transformações

Raphael Minder, The New York Times

31 Maio 2018 | 15h15

LISBOA - Não faz muito tempo, o centro histórico de Lisboa, a capital de Portugal, estava pontilhado de edifícios decrépitos praticamente abandonados. Algumas praças eram tomadas por prostitutas e traficantes de drogas. A cidade servia de vitrine da devastação da crise da dívida da Europa.

Então, em 2011, o país adotou um programa de austeridade em troca de uma ajuda financeira internacional de 78 bilhões de euros. E uma nova lei sobre os aluguéis liberalizou o mercado da habitação da capital.

Hoje, os turistas desembarcam em massa dos navios de cruzeiro enchendo suas praças em um sobe e desce incansável pela topografia acidentada da cidade. Edifícios históricos agora resplandecem. 

Novos bares e restaurantes pulsam de vida.

Mas quem ganhou e quem perdeu com o renascimento de Lisboa hoje é uma questão que divide a população.

Portugal tornou-se um exemplo da recuperação econômica da Europa. O desemprego caiu pela metade. As exportações explodem. Os investidores estrangeiros afluem para Lisboa. O país até proporciona aos compradores de imóveis de 500 mil euros ou mais pela chance de obter um “visto de ouro” para poderem residir aqui.

Contudo, para a parte menos privilegiada da população obrigada a abandonar sua moradia, o renascimento de Lisboa é sentido como uma mudança abrupta de um extremo ao outro.

No bairro medieval da Mouraria, foi construído recentemente um condomínio de luxo a poucos passos de um edifício reestruturado que se tornou um segundo lar para investidores franceses e de ouras nações.

No final do quarteirão, um edifício antigo com sacadas estreitas se tornou o símbolo dos ativistas portugueses que combatem o despejo forçado, um novo fenômeno na cidade. Em frente à casa, os moradores que ganharam uma longa batalha jurídica para permanecer penduraram um Papai Noel circundado por cartazes com sua lista de desejos de Natal: uma habitação ao alcance das suas possibilidades e igualdade social.

A chegada de investidores e celebridades com os bolsos cheios de dinheiro, como Madonna, está “criando problemas de moradia em alguns bairros”, disse Luís Correia da Silva, um diretor da Dom Pedro, uma companhia de hotéis e resorts.

“Mas as pessoas não deveriam se esquecer de que ninguém quis tomar uma atitude para salvar estes mesmos bairros, há alguns anos”, acrescentou.

Os políticos procuraram dar o exemplo. Em 2011, Antônio Costa, na época prefeito de Lisboa, transferiu a administração da prefeitura de sua sede histórica para o edifício de uma antiga cerâmica na esquina da Praça Intendente, famosa pela droga e pela prostituição.

Costa é hoje o primeiro-ministro de Portugal e a Intendente está praticamente irreconhecível. Ela tem uma loja de artesanato, cafés e vários projetos de construção em andamento. No centro há um jardim, cercado por barreiras de ferro batido vermelhas, projetadas por Joana Vasconcelos, uma das artistas mais conhecidas de Portugal.

Ao ser indagada sobre a transformação de Lisboa, Joana respondeu que “a cidade está mudando rapidamente, mas para melhor”.

Entretanto, há um aspecto negativo.

Alguns moradores queixam-se de que, o longo do processo, surgiu uma dupla economia, dividida entre os que negociam com imóveis e turismo - e o resto.

Eles também deploram a “Disneyficação” de Lisboa, que percebem nas lojas novas, como “O Fantástico Mundo da Sardinha Portuguesa”, em que os turistas podem comprar uma lata do peixe com o ano do seu nascimento impresso no rótulo. Os 4,5 milhões de visitantes anuais de Lisboa agora superam a população da capital na proporção de mais de oito para um.

Os políticos da extrema esquerda pretendem endurecer a legislação a fim de acabar com os despejos e proteger os inquilinos, inclusive os que têm mais de 65 anos e viveram em um imóvel por mais de 25 anos.

Depois que seu marido morreu, Maria Teresa Alves Ramos Mendes, uma costureira de 79 anos, foi informada pelo senhorio de que o aluguel do apartamento em que o casal havia morado por mais de 30 anos aumentaria várias vezes.

“Eu realmente achava que na minha idade não haveriam de me obrigar a sair da casa, mas infelizmente estava errada”, ela disse.

Agora, a costureira mora com a filha nos arredores de Lisboa.

A vida nos bairros mais caros está se esvaziando. Em novembro, André Júdice Glória, um advogado português, mudou-se para um novo apartamento com a esposa e dois filhos, em um edifício reformado. 

Três brasileiros e dois angolanos são os donos dos outros apartamentos, mas Júdice Glória disse que raramente os vê.

“É um problema de primeiro mundo, mas evidentemente este edifício parece muito vazio” lamentou.

Luís Mendes, um geógrafo urbano, é membro de uma plataforma de cidadãos chamada ‘Morar em Lisboa’ que luta para acabar com os despejos das habitações.

“Se expulsarmos os antigos habitantes e criarmos comunidades fechadas para os ricos, o que é que vamos mostrar aos turistas que esperam ver a vida portuguesa tradicional nas nossas ruas?” perguntou.

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