Ashley Gilbertson para The New York Times
Ashley Gilbertson para The New York Times

No Senegal, poluição afeta desempenho de atletas

Desportistas que treinam nas ruas da capital relatam a sensação de andar em uma nuvem de fumaça; OMS alerta para os riscos provocados pela má qualidade do ar

Dionne Searcey e Jaime Yaya Barry, The New York Times

16 de março de 2019 | 06h00

DAKAR, SENEGAL - São velocistas. Suam. Agacham. E fazem abdominais. E, então, quando o trânsito das horas de rush se intensifica e as emissões se espalham neste pequeno triângulo de areia ao lado de uma rodovia, às vezes os atletas vomitam. “Esportes e poluição”, disse Joseph Faye, um treinador de luta livre que participava de um evento, “não combinam”.

Cada vez mais, em Dakar, onde os treinos ao ar livre são um modo de vida, eles acabam colidindo. À noitinha, a cidade se transforma em uma academia a céu aberto, em que as pessoas exigem o máximo do próprio físico em todo pedaço de terra disponível. Mas a cada inspiração, estes desportistas inalam um ar que a Organização Mundial da Saúde considera perigoso. O número de partículas do ar em Dakar é cinco vezes maior do que o limite saudável estabelecido pela organização.

O ar da cidade algumas vezes pode parecer limpo. Outras vezes, as pessoas têm a sensação de andar em uma nuvem de poeira de giz quando alguém bate um apagador em outro, dentro de um forno. “É um verdadeiro problema em matéria de doenças respiratórias”, disse Nafissatou Oumar Touré Badiane, diretor do departamento de pneumologia do Hospital da Fann University em Dakar. Ele calcula que um terço da população tem algum tipo de doença pulmonar.

E há sinais de que aqui a qualidade do ar está piorando. Dakar está crescendo; praticamente dobrou de tamanho nos últimos dez anos, à medida que as pessoas deixam o interior e as nações vizinhas para buscar um emprego aqui. Setenta por cento dos veículos da nação, muitos deles velhos e com escapamentos que não funcionam, estão rodando nas ruas de Dakar.

O lixo se amontoa fora da cidade em um depósito monstruoso e frequentemente é queimado ali mesmo, jogando nuvens de partículas perigosas sobre a cidade. A fumaça preta passa sobre os muros de uma base militar francesa que regularmente põe fogo em uma parte do seu lixo, asfixiando os corredores que passam ao lado. E há ainda as tempestades de areia.

Os ventos vindos do Saara sopram baixos entre dezembro e abril, lançando no ar um pó muito fino que cobre a paisagem de Dakar. Os pesquisadores temem que as tempestades piorem à medida que os níveis de precipitação diminuem às margens do deserto e o Saara se expande.

As autoridades senegalesas afirmam que estão tentando melhorar as condições. Há dez anos, o governo criou estações de monitoramento da qualidade do ar em toda a capital, e quando a poluição do ar atinge níveis perigosos, alertas são emitidos ao público.

Nas ruas de Dakar, pedestres e ciclistas começam a usar máscaras. Os corredores estão reduzindo as suas rotinas de treinos, assustados com a poeira preta que veem ao assoar o nariz no chuveiro. A luta livre é o passatempo nacional dos senegaleses, mas o espaço para treinar ficou reduzido no bairro de Yoff, onde os atletas estavam reunidos recentemente no trecho de areia ao lado da rodovia.

Motoristas curiosos reduziam a velocidade para observar os homens se atracarem no chão. Alguns dos carros parados vomitavam fumaça preta. “Toda vez que eu venho aqui”, disse um lutador, Matarr Ndow, “vou embora com dor de cabeça”. O lixo muitas vezes é queimado em um enorme depósito fora de Dakar, mandando nuvens de perigosas partículas pelo ar da cidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.