Adam Dean / The New York Times
Adam Dean / The New York Times

No Sri Lanka dividido, teme-se a volta do ódio

O país pretendia assinalar dez anos de paz neste mês, após 26 anos de guerra civil. Mas as esperanças de comemorar esta trégua foram desfeitas quando terroristas mataram pelo menos 250 pessoas

Hannah Beech, The New York Times

16 de maio de 2019 | 19h00

COLOMBO, SRI LANKA - O Sri Lanka é uma ilha de grande beleza ao largo do continente indiano, e durante séculos atraiu comerciantes e missionários em busca de especiarias e de almas. Mas é também uma nação castigada pela guerra que banaliza o uso de suicidas com coletes repletos de bombas, um lugar mais compacto do que os Bálcãs e, no entanto, separado por mais divisões: étnicas, religiosas e de classe. A nação famosa pela beleza, tornou-se igualmente definida por seu ódio.

Com a relutância do governo a solucionar estes cismas, cada episódio de violência gera novamente medo de que a nação possa fragmentar-se ainda mais. “Temos muitos conflitos de civilizações nesta pequena ilha”, afirmou Nirmal Ranjith Dewasiri, historiador da Universidade de Colombo, de identidade nacional cingalês. “É difícil saber como poderemos superar a nossa história dividida".

O Sri Lanka pretendia assinalar dez anos de paz neste mês, após 26 anos de guerra civil entre o Estado de maioria cingalesa e o movimento separatista tâmil. Mas as esperanças de comemorar esta trégua foram desfeitas no domingo de Páscoa, quando terroristas suicidas reivindicados pelo Estado Islâmico visaram  a igrejas católicas e hotéis de luxo, matando pelo menos 250 pessoas. “Foi muito bom desfrutarmos dez anos de relativa liberdade e segurança”, lembrou M.A. Sumanthiran, parlamentar e advogado dos direitos humanos. “Agora, voltamos ao normal no Sri Lanka. Temos um novo inimigo, mas o ódio é o mesmo”.

Depois dos atentados do mês passado, em que reiterados alertas de que os militantes planejavam ataques foram ignorados, alguns cingaleses pediram a volta do Estado policial que acabou com a guerra em 2009. Na época, a paz se deu ao custo de 40 mil vidas tamis, segundo a ONU. Dias depois dos ataques, Gotabaya Rajapaksa, chefe da Defesa que liderou a arrancada final contra os separatistas tamis, anunciou a sua candidatura à presidência nas eleições marcadas para o fim do ano, com uma plataforma que compreende a adoção de medidas mais duras.

Sumanthiran, um tâmil cristão, se opõe à chegada de mais soldados e à volta de uma temida rede de inteligência militar. “O punho de ferro do Estado policial alimentará extremismos de todo tipo”, projetou. “O nosso problema é, fundamentalmente, o fato de os direitos das minorias, religiosos ou étnicos, serem tratados com desrespeito e com a força pelo governo. Enquanto não resolvermos isto, o Sri Lanka será manchado de sangue”.

Os atentados a locais sagrados não são uma novidade. Em 1998, os separatistas tamis atacaram um dos lugares mais venerados, o templo na região central do Sri Lanka onde se acredita que esteja guardada uma relíquia, o dente de Buda. O mesmo templo foi visado também em 1958 por extremistas comunistas.

Na guerra civil entre os insurgentes dos Tigres de Liberação do Tamil Eelam e o Estado de maioria cingalesa, os militares bombardearam as igrejas cristãs e os templos hindus onde os tamis haviam procurado refúgio. Os tigres tamis responderam massacrando dezenas de monges budistas. Em 1990, mataram mais de 100 muçulmanos considerados colaboradores do governo.

Mais de 70% da população do Sri Lanka é cingalesa, na maioria budista, e uma minoria cristã. Cerca de 10% do país é tâmil, em grande parte de hindus e cristãos. Os muçulmanos ocupam outros 10% e são considerados uma etnia distinta, embora muitos falem o tâmil. A Constituição concede um status especial  ao budismo, que para muitos cingaleses é sinônimo de etnia. Depois que os tamis foram derrotados, um movimento nacionalista budista ganhou os favores do governo, e monges extremistas tomaram como alvos novos inimigos: muçulmanos e cristãos.

Kolonnawe Narada Thero, o abade de um templo budista de Colombo, declarou que não tinha medo dos extremistas. Depois que uma igreja cristã evangélica e uma escola foram obrigadas a abandonar as suas instalações em 2011, ele recebeu os cristãos e os seus estudantes em seu complexo. As crianças ainda estudam lá. “Se  você tem um jardim e apenas rosas, ele não será tão bonito como se tivesse uma variedade de flores”, ele disse. “No Sri Lanka, se você tem apenas uma cultura ou religião, perde a diversidade, a beleza”./ DHARISHA BASTIANS E NATASHA GOONERATNE CONTRIBUÍRAM PARA A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

 

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