Ozan Kose/Agence France-Presse-Getty Images
Ozan Kose/Agence France-Presse-Getty Images

No Sudão, médicos lideram revolução contra o governo

Em 1989, médicos criaram oposição a Omar Hassan al-Bashir. Trinta anos depois, eles ajudaram a derrubá-lo

Joseph Goldstein, The New York Times

24 de abril de 2019 | 06h00

Agentes de segurança caçaram e espancaram o manifestante que protestava em favor da democracia. “‘Quem é você?’”, Ahmed Sanhouri lembra o que os policiais perguntaram. Ele não tinha nenhum documento que o identificasse nem o celular, e insistia que era um trabalhador.

Ocorre que ele é médico, mas nos últimos meses, tornou-se perigoso admitir isto no Sudão. Os médicos são fundamentais na organização dos protestos em massa que recentemente derrubaram o autocrata Omar Hassan al-Bashir que se perpetuara no poder, e promoveram um poderoso movimento, ainda que incerto, em favor da democracia. “Os médicos tiveram um papel enorme, e ainda têm um grande papel na revolução”, afirmou Mohamed Nagy al-Asam, 28, um líder da Associação de Profissionais Sudaneses, uma aliança semi-secreta de médicos, advogados, jornalistas, engenheiros e professores.

No Sudão, onde o governo e as milícias suas aliadas cometeram atrocidades em toda a região sul e oeste do país durante dezenas de anos, os médicos e a Associação de Profissionais Sudaneses contribuíram para transformar o que começou como um protesto geral contra o preço do pão em um movimento coerente. Al-Bashir está fora, mas os manifestantes ainda precisam enfrentar a junta de generais que rapidamente se apossou da presidência.

O regime de al-Bashir olhava os médicos com desconfiança em 1989, quando um golpe de Estado o levou ao poder. Parte da resistência organizada, na época foi liderada pelos médicos. “Desde então, o governo, é claro, achou que os médicos eram contrários ao governo”, disse Mamoun Hussedin, que havia sido condenado à morte por sua atuação na resistência antes que um protesto internacional conseguisse a sua soltura.

Revoltados com o clientelismo e a repressão do governo de al-Bashir, muitos médicos sudaneses deixaram o país. Alguns dos que restaram, alinharam-se ao regime, mas o agravamento das condições de vida alimentou o descontentamento e fez com que muitos manifestassem sua revolta. Outros grupos de profissionais começaram a fazer o mesmo, e eles se uniram na Associação Sudanesa de Profissionais.

Durante os protestos recentes, os médicos criaram clínicas e trataram dos feridos à bala, dos efeitos do gás lacrimogênio e de outros ferimentos. Quando os manifestantes morriam, os médicos tratavam de garantir que as feridas fatais fossem documentadas antes que o governo ocultasse a causa da morte. Eles os fotografaram, copiaram  as fichas médicas e enviaram o material aos organizadores dos protestos para que denunciassem a brutalidade.

Mas com isto os médicos e os centros médicos tornaram-se alvos das forças de segurança do governo, que começaram a invadir as clínicas, segundo um relato da organização Médicos pelos Direitos Humanos. Quando concordou em se tornar o rosto do movimento no início de janeiro, al-Asam sabia que seria preso. Forças paramilitares o perseguiram e o levaram para a principal prisão da capital, Kober.

Os protestos continuam e cresceram no dia 6 de abril, quando a Associação dos Profissionais Sudaneses convocou uma marcha até o quartel-general do exército. Naquele dia, em vez de dispersam os manifestantes, os soldados permitiram que eles realizassem uma grande protesto pacífico na frente do edifício. Em Kober, al-Asam ouviu os seus slogans.

Cinco dias mais tarde, al-Bashir foi deposto em um golpe dos oficiais militares que aparentemente agiram em resposta às manifestações. Al-Asam foi avisado de que estava livre para sair. Ele trocou de roupa e cortou o cabelo. Então voltou para a multidão de manifestantes reunidos diante do quartel-geral do exército. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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