Tomas Kunita para The New York Times
Tomas Kunita para The New York Times
Joshua Hammer, The New York Times

27 de fevereiro de 2019 | 06h00

A trilha para caminhadas que leva ao vulcão Morada del Diablo passava por um campo de lava enegrecida. Lagartos pretos cobertos de manchas brancas, conhecidos como lagartijas magallanicas, disparavam velozes pelo chão, e a carcaça de um guanaco, um parente da lhama, tostava ao sol. Provavelmente foi morto por um puma, disse meu companheiro chileno, Alvaro Soto.

Pegamos uma trilha que passa sobre a crosta, com buracos largos o bastante para torcer o tornozelo. Um pouco mais adiante, subimos um monte de pedras que escorregavam embaixo dos nossos pés e chegamos ao topo da cratera. Soto e eu ficamos observando na boca do vulcão uma cena de desolação fantasmagórica. 

Uma parede curva, pintada de verde, respingada de fezes de pássaro, ou pintada de branco, e riscada de rachaduras formava a boca do vulcão. Declives extremamente inclinados cobertos de cascalho e de terra misturada a hematita de cor vermelha, despenhavam no abismo. Um falcão subiu, despencou na cratera, tornou a subir em círculos para em seguida desaparecer.

Estávamos no meio do Parque Nacional Pali Aike, uma das reservas mais dramáticas do Chile, a 175 quilômetros ao norte de Punta Arenas. Na região, há vulcões, formados durante a era jurássica, há 100 milhões de anos, pela colisão da elevação chilena com a fossa oceânica profunda Peru-Chile. Três erupções - a primeira ocorrida há 3,8 milhões de anos, a mais recente há 15 mil anos - cobriram as estepes de lava preta e pilares. Umas seis crateras e cones destruídos se destacavam no solo.

Apesar da destruição, esta reserva de 80 quilômetros quadrados, criada pelo governo chileno em 1970, fervilha de vida selvagem: coelhos, doninhas, tatus, raposas cinzentas, pumas, guanacos, lagartos e dezenas de espécies de aves únicas da Patagônia. Os flamingos chilenos, manchas vivas rosa e laranja, em uma paisagem queimada, reúnem-se nos lagos. As curicacas constroem seus ninhos no alto das árvores, ou no interior de vulcões extintos, compartilhando as bordas com falcões peregrinos.

Pali Aike é uma das atrações mais obscuras da nova Rota dos Parques do Chile, uma trilha de deserto de 2.800 quilômetros de extensão que foi aberta no ano passado. Segundo a Corporação Nacional de Florestas do Chile, que administra o parque, Pali Aike recebeu apenas 2.537 visitantes em 2016, metade dos quais eram estrangeiros. O que significa sete pessoas por dia.

Kristine McDivitt Tompkins, viúva do fundador da loja North Face, Douglas Tompkins, doou 400 mil hectares de deserto da Patagônia para o governo chileno em 2017. De toda esta área, o Chile criou duas novas reservas, Parque Nacional Pumalin Douglas Tompkins e o Park Nacional da Patagônia do Chile.

Como parte do acordo, o governo separou mais 3,6 milhões de hectares para ampliar a rede de reservas naturais do país. No total, 17 destas reservas agora estão ligadas à Rota dos Parques, uma trilha de caminhada que se desenrola por montanhas, geleiras, vulcões, florestas e estepes áridas, e acompanha aproximadamente a Carretera Austral, a famosas Rodovia do Sul do país (também conhecida como Rota 7) através da Patagônia. A nova rota reflete o crescente compromisso do governo chileno com a preservação das paisagens autênticas da Patagonia - e as aves de sua fauna sem igual.

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