Ilana Panich-Linsman para The New York Times
Ilana Panich-Linsman para The New York Times

No Texas, uma repórter comunitária temida pelas autoridades

Conhecida como 'Gordiloca', Priscilla Villarreal usa a linguagem das ruas para denunciar crimes e abusos policiais em uma cidade na

Simon Romero, The New York Times

07 de abril de 2019 | 06h00

LAREDO, TEXAS - Priscilla Villarreal percorre as ruas de Laredo a bordo de uma antiga picape Dodge, acelerando em direção a operações de combate ao tráfico de drogas e cenas de crimes para trazer seus relatos do lado sombrio da fronteira sudoeste dos Estados Unidos para seus muitos leitores. Os rappers celebram seus furos de reportagem, dizendo que "ela é mais querida que o prefeito da cidade".

"Acho que isso significa que estou famosa, não?", disse Priscilla, 34 anos, que largou a escola no ensino médio, usa o cabelo raspado, tem muitas tatuagens e mais de 119 mil seguidores dedicados no Facebook. É, sem dúvida, a jornalista mais influente de Laredo, cidade fronteiriça de 260 mil habitantes.

Escrevendo em uma linguagem que mistura inglês, espanhol e palavrões e assinando com o pseudônimo de La Gordiloca (algo como "gorda louca"), a rápida ascensão de Priscilla à fama mostra as preferências da população da fronteira quanto à sua forma de consumir notícias.

Poucos anos atrás, ela trabalhava em uma equipe de demolição, removendo sucata de ferros-velhos cheios de trailers. Lutava contra a depressão e o estresse pós-traumático depois de perder um bebê que nasceu prematuro. Mas Priscilla embarcou em uma segunda carreira, perseguindo notícias de todo o tipo desde 2015. Já cobrou responsabilidade das autoridades - vencendo uma batalha jurídica contra a polícia de Laredo envolvendo a liberdade de imprensa - e revelou histórias que não chegavam ao público. "Notícias pelas ruas", como ela diz.

"Ela já se tornou uma espécie de heroína folclórica da região", disse o professor de jornalismo Daxton Stewart, da Universidade Cristã do Texas, em Fort Worth. "O mais fascinante é que ela consegue esse resultado trabalhando à moda antiga, mas usando novas tecnologias, divulgando notícias contra a vontade das autoridades".

Entre as reportagens mais recentes dela estavam um horrendo caso de abuso infantil ("Adolescentes grávidas!!", escreveu ela), a prisão de um superintendente escolar em Waco por posse de maconha ("Vamos organizar uma petição para ele em Laredo e evitar que perca o emprego!!"), batidas contra o tráfico de drogas e caóticos acidentes envolvendo trailers.

Alguns acompanham Priscilla por causa de seu estilo bombástico de escrever, que mistura fatos e boatos, mas muitos em Laredo apreciam suas denúncias de corrupção contra as autoridades numa cidade cujos numerosos casos de desvio de verbas são alvo de uma investigação do FBI.

"Ainda estou aprendendo a usar termos como 'supostamente' ou 'diz-se' ao escrever os furos de reportagem", contou Priscilla. "É um desafio, pois falo a linguagem das ruas, e é por isso que as pessoas me seguem".

Priscilla ganha algum dinheiro promovendo os restaurantes que frequenta, mas não o bastante para trocar sua picape Dodge Ram, de 1998, que ela comprou usada por US$ 700 e chama carinhosamente de Demônio Azul.  A única pessoa de quem ela recebe ajuda ocasionalmente é a mãe, Maricela Rodríguez, 55 anos, que já foi trabalhadora imigrante. 

"Por algum motivo, escrever reportagens é como uma terapia para mim", disse Priscilla, descrevendo a depressão aguda que teve depois de perder o bebê, dez anos atrás. Ela disse que engordou cerca de 45 quilos depois da perda, e tentou se matar cortando os pulsos.

Uma parte do trabalho de que Priscilla não gosta é ter de lidar com os chamados haters, pessoas negativas dedicadas a ofendê-la. Alguns acessam a página dela no Facebook para caçoar de sua aparência ou jeito de ser. Outros se dizem revoltados com os palavrões que ela emprega. 

"De cada duas palavras que ela diz, uma é um palavrão", disse Abundio Rene Cantú, advogado da creche que processou Priscilla por difamação depois que ela publicou reportagem dizendo que as crianças ali eram alvo de maus tratos. Priscilla está recorrendo da decisão inicial, contrária a ela.

Parando para almoçar perto da fronteira, no hotel La Posada, Priscilla logo foi reconhecida. Alguns frequentadores vieram abraçá-la e desejar-lhe saúde após uma nova revelação: Priscilla está grávida novamente. Outros formaram fila para tirar fotos com ela.

"Sou uma de suas maiores fãs", disse Hilda Peña, 72 anos, depois de se aproximar de Priscilla para tirar uma foto. Priscilla a conquistou no ano passado com reportagens a respeito de Juan David Ortiz, agente da patrulha de fronteira acusado de matar várias mulheres em Laredo (ele se declarou inocente). "Com aquele assassino em série à solta, pensei se seria melhor andar armada", disse Hilda. "Mas La Gordiloca deixou claro que a situação estava sob controle". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.