Laurent Lufroy e Fabien Sarfati / The New York Times
Laurent Lufroy e Fabien Sarfati / The New York Times

Noé é surpreendido com elogios a 'Climax', seu mais recente filme

Habituado a receber críticas menos otimistas, o cineasta argentino diz preferir ser odiado  

Devin Gordon, The New York Times

22 de março de 2019 | 06h00

Gaspar Noé faz o tipo de filme capaz de colocar fim a um relacionamento. Suponhamos um convite àquela pessoa especial para assistir ao filme que chamou a atenção do mundo para Noé, Irréversible. A obra abalou Cannes em 2002, e rumores muito exagerados falavam em 250 pessoas abandonando a sessão. Outras teriam desmaiado. Mas, quando recobraram os sentidos, muitos deles descreveram a obra como ousada e original. Assim, você e sua cara metade ficam interessados em um filme interessante e transgressor… e, em questão de minutos, vemos um sujeito tendo o rosto esmagado por um extintor de incêndio. Quando rolam os créditos finais, pode ter certeza de que estará solteiro(a) novamente.

Ou digamos que você e um amigo decidem dividir uma porção de alucinógenos enquanto assistem à psicodélica exploração da vida após a morte dirigida por Noé, Enter the Void (2010), filmado do ponto de vista de um jovem traficante americano antes, durante e depois de ser morto a tiros num bar de Tóquio. 

Durante 150 minutos vemos tudo por seus olhos, enquanto ele flutua feito um fantasma pelas casas de sexo e inferninhos de drogas da cidade. Parece uma viagem e tanto! Mas, depois da segunda ou terceira sequência de alucinações, a amizade entre você e seu/sua parceiro(a) já acabou.

O que nos leva a Climax, o mais novo filme de Noé. A esta altura, os críticos recebem os novos filmes de Noé com uma mistura de ansiedade e medo, e, após a sessão, pode ser difícil determinar se eles amaram ou detestaram a obra. Noé prefere ser odiado, e sua decisão de agendar a estreia de Climax no ano passado em Cannes para às 8h30 de uma manhã de sábado foi vista como uma brincadeira, e o diretor não forneceu nenhum tipo de sinopse para a obra.Mas, dessa vez, foi Noé quem se surpreendeu.

Climax é uma espécie de musical de pista de dança. O filme é breve e simples. Primeiro, vemos um animado ensaio dançante em um internato abandonado, com trilha sonora de Daft Punk e Aphex Twin, seguido por um lento mergulho em uma festa que mais parece um pesadelo regado à sangria batizada com LSD - uma visão alegórica de beleza e harmonia, seguida pelo completo colapso social.

Quase todos os presentes no cinema naquela manhã adoraram a obra. Quase ninguém abandonou a sessão.

Noé ficou cabisbaixo. Mas, agora, com o benefício do tempo e da reflexão, Noé, de 55 anos, aprendeu a ver o lado positivo de um público que aprecia seus filmes. Nesse sentido, Climax é sua primeira experiência.

“Este é o único dos meus filmes que posso oferecer a eles", disse o diretor recentemente em entrevista concedida via Skype a partir do seu apartamento em Paris. “Os outros quase não tinham trechos felizes.”

O filme

Climax começa com a parte animada, com um conjunto de dançarinos reunindo-se para ensaiar uma nova coreografia. A cena é filmada nos moldes clássicos dos musicais, mas o que a torna diferente é o temor inspirado pelos antecedentes de Noé, que dá ao público a certeza de que algo terrível vem pela frente.

E então, tem início. Uma pessoa misteriosa mistura LSD à sangria, e Noé começa a acender luzes por todo o cômodo. O nervosismo do público aumenta. O filho de um dos bailarinos, que aparenta ter cerca de 8 anos, se aproxima da tigela com a bebida, e nós, sentados em nossas poltronas, entramos em pânico.

“Observei uma reação inesperada - muitos (dos meus) amigos, que adoram ficar em festas até o raiar do dia, saíram do filme completamente deprimidos", lembrou Noé. “Disseram: ‘Preciso voltar para casa. Você me fez lembrar dos piores momentos da minha vida, todas as brigas, desmaios e lapsos de memória’”. Ele sorriu, como se isso lhe produzisse algum deleite, e deu de ombros. “É apenas um filme.”

Nas palavras do próprio Noé, ele foi colocado no mundo para provocar. Nascido em Buenos Aires e filho de um celebrado pintor argentino, ele viveu em Manhattan até os 5 anos e tem lembranças nostálgicas dessa época, quando urinava da varanda sobre os transeuntes abaixo.

Mesmo antes do LSD fazer efeito, Climax parece um delírio febril, mas a droga é apenas energia cinética pura gerada pelos bailarinos, empenhados naquilo que amam fazer. Perto do sombrio fim, uma citação é exibida na tela: “A vida é uma impossibilidade coletiva".Mas, de acordo com Noé, “este filme prova o contrário".

 

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