A família Gillespie via The New York Times
A família Gillespie via The New York Times

Nômades globais fogem de Trump e da rotina

Famílias usam dinheiro da poupança e do aluguel para viver em diversos países com a família

Ronda Kaysen, The New York Times

06 Maio 2018 | 11h00

Olhando para a lente da webcam, com a expressão intermitentemente congelada por causa da má qualidade da conexão do Skype em Medellín, Colômbia, Lizz Quain explicava a decisão de viajar pelo mundo com suas gêmeas de 9 anos, tomada 18 meses antes.

Lizz, que tem pouco mais de 40 anos, era dona de uma creche e brinquedoteca perto de Seattle antes de renunciar à existência de classe média americana em agosto de 2016, cansada do que ela descreveu como sufocante cultura consumista.

Depois que Donald J. Trump foi eleito, ela seguiu ao pé da letra algo que os liberais diziam da boca para fora: “Se Trump vencer, vou embora do país". Ela decidiu que não voltaria para casa com as filhas, Aubrey e Gabriella. Depois de viajar pela Ásia e Europa, ela está agora descobrindo como administrar um negócio vendendo produtos por meio da Amazon para financiar a vida de uma mãe solteira que optou pela vida itinerante.

As Quains não são a única família que optou pelo nomadismo. Emendando aluguéis de temporada ou vivendo em trailers, elas venderam suas casas e se desfizeram da maioria de suas posses, financiando as viagens com o dinheiro poupado ou trabalhando remotamente.

Elas registram suas aventuras em canais do YouTube, perfis do Instagram e blogs como NomadTogether, Unsettle Down e Terra Trekkers. Reúnem-se em convenções anuais como a Project World School Family Summit, realizada em Guanajuato, México, com palestras como “Não estou de férias” e “Seus filhos podem entrar na universidade!”

A opção por uma vida sem amarras se tornou possível agora que bastam um laptop e uma conexão rápida com a internet para se ganhar a vida. Sites como Nomadlist ajudam os interessados a escolher o destino. O Airbnb facilita o aluguel. Os pais conseguem encontrar companhias globais para os filhos e apoio moral em grupos do Facebook como Worldschoolers.

Como muitos dos novos expatriados, Lizz oferece às filhas o conteúdo escolar em casa (o termo popular usado pela comunidade é “worldschooling”, “ensino mundial"). As filhas aprendem espanhol num curso diurno em Medellín e investem o tempo livre jogando Minecraft e Roblox, jogos eletrônicos que podem ter a participação online de outras crianças viajantes.

Ela calcula gastar cerca de US$ 1.700 ao mês com moradia, cursos, atividades e uma babá em Medellín. Paul Kortman, que escreveu com a mulher, Becky Kortman, o livro “Family Freedom: A Guide to Becoming a Location Independent Family” [“Liberdade familiar: um guia para a independência geográfica da família”], calcula que uma família poderia viajar indefinidamente por US$ 60.000 ao ano, salário que, de acordo com ele, não estaria fora do alcance de muitos lares.

“Basta um laptop e um pouco de astúcia", disse Kortman. 

Matthew Gillespie, 31 anos, trabalha remotamente como web designer, o que permite a ele, à mulher, Chelsea Gillespie, 30 anos, e à filha do casal, Kailen, 2 anos, uma vida de viagens intermináveis pela Europa, documentadas no blog Unsettledown. Eles deixaram San Diego em maio do ano passado, por causa do custo de vida na cidade.

Na Croácia, as despesas foram 60% menores. “Se conseguirmos que isso dê certo, vamos manter esse estilo de vida enquanto pudermos", disse Gillespie.

Jessica e William Swenson estão financiando uma viagem de 11 meses ao redor do mundo com os três filhos usando uma combinação de poupança, herança, o dinheiro de um pacote de desligamento e a renda do aluguel de sua casa de quatro quartos com piscina em Livermore, Califórnia.

Em outubro do ano passado, os Swensons foram para a China. A fotógrafa Jessica Swenson, 34 anos, tem uma conta no Instagram e um canal no YouTube chamado LetsAdventureSomeMore.

A família viaja com pouca bagagem, levando apenas mochilas: até as crianças, Ezra, 8 anos, Theo, 6 anos, Vesper, 5 anos, as têm. Os Swensons embarcaram na viagem depois que o emprego do pai mudou de lugar, a mãe dele morreu e a babá da família se mudou.

“Percebemos que isso removeu todos os obstáculos para nós”, disse Jessica, falando via FaceTime de um apartamento alugado via Airbnb em Bali, Indonésia. Eles também se sentiam aliviados por deixar para trás aquilo que Jessica descreveu como “clima geral de raiva e amargura” que começou a pairar na região de San Francisco após a eleição de Trump. “Não sou muito ligada na política", disse ela. “Tento não me envolver muito.”

Sonja Jernstrom, 37 anos, e Chris Jernstrom, 36 anos, deixaram o lar em Seattle no mês de junho para embarcar numa viagem de 14 meses ao redor do mundo com os dois filhos, Ben, 7 anos, e Emma, 4 anos.

Estão viajando de caminhonete pelas Américas com um trailer antes de partirem para a Ásia, Oriente Médio e Europa. “Foi uma oportunidade de fazer uma pausa no meio da carreira", disse Jernstrom, que largou o emprego no setor de investimentos bancários; Sonja é cientista ambiental. A família está financiando as viagens com a poupança e a renda obtida com o aluguel de sua casa no Airbnb.

A América Latina foi uma experiência que abriu os olhos deles. Quando Trump foi eleito, “nós dois pensamos se não seria melhor ir morar na Europa”, disse Jernstrom, do Chile. Mas “essa viagem me fez reconhecer o valor de muitas coisas que temos nos EUA. Fiquei com vontade de voltar aos EUA e ajudar a melhorar a situação no meu país".

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