Brandon Thibodeaux para The New York Times
Brandon Thibodeaux para The New York Times

Nos Estados Unidos, exposição mostra a arte presente nos utensílios de Neanderthais

A proposta é que estes artefatos são mais do que ferramentas e lembranças, eles possuem valor artístico por terem uma função e estética

Robb Todd, The New York Times

29 Abril 2018 | 10h00

Separar um artista da arte pode ser difícil. Também pode ser difícil separar uma artista do seu café da manhã.

As escolhas que Anicka Yi faz no seu ateliê são tão cuidadosas quanto a rotina do seu café da manhã, escreveu Hilary Moss no “The New York Times”. A arte conceitual de Anicka inclui escultura, bactérias humanas, vídeos, formigas, fragrâncias e tempurá de flores. A sua dieta também exigiu certo pensamento criativo depois que ela sofreu problemas de saúde e sua irmã morreu de câncer no cólon. O ritual matutino de Anicka agora inclui água morna filtrada com limão, alongamento, meditação, tigelas de chia e sucos naturais.

No entanto, assim como a arte, a resolução pessoal nem sempre se aplica às refeições.

“Às vezes”, ela disse, “há uma parte de mim que diz; ‘Preciso comer lagosta’”.

Estes tipos de escolhas estão no cerne da arte, escreveu a romancista Olga Grushin no “The Times”. “Moralidade e imortalidade, é preciso reconhecer, não caminham necessariamente uma ao lado da outra”. “Na realidade, frequentemente, o oposto é que parece verdadeiro”.

Segundo Olga, para se tornar um mestre, o artista precisa estar obcecado pelo seu trabalho e ser egoísta com o seu tempo – independentemente do que possa custar aos outros.

“Todas as pessoas pequenas, necessitadas, que pedem as migalhas da sua alma, pedem em vão”, escreveu, “pois ele ofereceu toda ela, impossível de ser dividida, ao altar da Arte”.

E citou Picasso e Gauguin, dois homens que revolucionaram a arte moderna, e entretanto agiram de maneiras que devem ter tornado difícil para algumas pessoas apreciarem a sua obra sem se sentirem culpadas. Gauguin desertou a família para pintar no Taiti, enquanto Picasso foi um mulherengo que teve quatro filhos com três mulheres, e talvez tenha contribuído para levar duas delas ao suicídio.

“A imagem romântica de um gênio, em sua melhor faceta, quando está totalmente absorvido pela criação, e pior, quando se comporta como um monstro na vida privada, é comum a inúmeras biografias”, disse Olga. “Os anais da arte estão repletos de mulheres abandonadas, filhos negligenciados, corações partidos e traições”.

Por mais que possa ser difícil para alguns separar o artista da arte, uma recente mostra no Nasher Sculpture Center de Dallas, no Texas, procurou fazer o contrário.

A exposição, que se encerra este mês, apresenta pedras esculpidas por Neanderthais há cerca de 150 mil anos, e machados de mão (assim chamados pela retirada de lascas de ambas as faces) que datam de 300 mil anos antes.

“Acha que são antigos?” perguntou Jason Farago no “Times”. “A ‘Primeira Escultura’ também inclui ferramentas do norte da África datadas de 800 mil anos atrás, e um artefato no formato de esfera, descoberto na África do Sul, que foi recolhido por um australopitecus 2,5 milhões de anos atrás.

A proposta da exposição é que estes artefatos são mais do que ferramentas e lembranças. Eles são arte, criada para ter uma função e uma estética.

“Sem nenhum depoimento sobre arte dos nossos ancestrais da Idade da Pedra, a mostra optou por uma mescla de ciência e adivinhação, paleo-antropologia e ilusão”, escreveu Farago. “No entanto, a incerteza desta tese faz parte do seu prazer; uma grande obra de arte, afinal de contas, é sempre uma coisa que não compreendemos completamente”.

Por fim, acrescentou, determinar se uma espécie antiga criou uma forma de arte ou não, é algo que caberá “aos macacos excessivamente vestidos nos museus contemporâneos” decidir.

“Imputar figuras a esta pedras implica projetar ideias modernas de proporção e beleza a ‘artistas’ não apenas de outra cultura, mas de outra espécie”, afirmou. “Trata-se de um impulso primitivista, e deveria ser evitado, principalmente quando estes supostos objetos de arte talvez não passassem de lixo do fundo da caverna. Aqui nós vemos rostos – mas também vemos rostos em nuvens.”

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